Crítica | Bridget Jones: No Limite da Razão

estrelas 2,5

Era apenas natural que o sucesso comercial de O Diário de Bridget Jones significaria a adaptação do segundo livro da série escrita por Helen Fielding. Enquanto o primeiro se trata de uma releitura de Orgulho e Preconceito, Bridget Jones: No Limite da Razão adota elementos de Persuasão, também de Jane Austen, no que concerne os amigos da protagonista tentando convencê-la de largar o namorado em virtude de sua suposta traição. Este segundo filme, portanto, por grande parte de sua duração, lida com o que acontece após a mulher encontra o homem de seus sonhos, o que há depois do “felizes para sempre”, nos mostrando que a realidade não é bem assim.

A trama tem início aproximadamente um ano após o desfecho do longa-metragem original. Bridget Jones (Renée Zellweger) e Mark Darcy (Colin Firth) estão em um namoro que parece ter sido tirado dos sonhos, sendo ele o retrato do homem perfeito. Tudo começa a despencar, contudo, quando a protagonista começa a suspeitar que Darcy a está traindo, o levando em uma onda de paranoia que não só desencadeia no término dos dois, como em uma maré de loucuras que somente termina no desfecho da projeção.

Enquanto Bridget Jones: No Limite da Razão poderia muito bem se desvencilhar da obra original, nos trazendo algo novo, abordando uma questão bastante pertinente em qualquer relacionamento, ela acaba apenas repetindo o que já vimos no primeiro. Ainda que existam alguns pontos de originalidade no longa, a maior parte dele é preenchido por pura repetição, algo que se torna simplesmente óbvio (e ridículo) em mais uma luta entre Mark e Daniel Cleaver (Hugh Grant). Não bastasse isso, a narrativa, a partir de certo ponto, gira, novamente, em torno de Jones buscando um homem, enquanto poderia lidar com sua luta interna para manter um relacionamento saudável. Essa repetição prejudica não só nossa imersão, como o próprio humor da obra, que soa forçado em inúmeras ocasiões.

Felizmente, alguns aspectos conseguem contrabalancear as falhas do roteiro. A começar pelo trabalho do elenco principal, que novamente não deixa a desejar. Zellweger se entrega totalmente ao papel (inclusive ganhou alguns quilos para retratar essa fase da vida da personagem), nos entregando o perfeito retrato da insegurança, que seria somente natural para alguém tão tímida quanto Bridget. Firth, por sua vez, se expressa principalmente pelo seu olhar – sentimos praticamente tudo o que se passa entre os dois, o que apenas nos faz sentir uma grande agonia em relação ao comportamento de Jones, que cada vez mais se auto sabota.

Outro acerto é o uso menor de canções ao longo da obra. Enquanto O Diário de Bridget Jones exagerava na dose, trazendo uma música pré-existente a cada sequência praticamente, o segundo filme as utiliza com mais parcimônia, dando mais espaço para o drama se desenvolver sem ser necessário alguém cantando de fundo para nos dizer o que sentir. Os momentos que, de fato, escutamos tais melodias são pontuais e bem inseridos dentro da narrativa – definitivamente algo que aprenderam através do longa-metragem anterior.

Bridget Jones: No Limite da Razão acaba se configurando como uma comédia romântica normal, permanecendo muito aquém de seu antecessor, que se destaca dentro do gênero. Temos aqui um filme que diverte, mas que desperdiça seu enorme potencial, podendo abordar uma fase importante na vida de qualquer casal, mas que acaba caindo na mesmice, no óbvio, com a aparente única intenção de provocar algumas risadas sem, de fato, acrescentar em nada. Com uma segunda sequência já lançada resta torcer para que a saga de Bridget Jones encontre seu caminho novamente, ou será apenas mais uma trilogia composta por um único filme verdadeiramente bom.

Bridget Jones: No Limite da Razão (Bridget Jones: The Edge of Reason) – Reino Unido/ França/ Alemanha/ Irlanda/ EUA, 2004
Direção: Beeban Kidron
Roteiro: Andrew Davies, Richard Curtis, Helen Fielding, Adam Brooks (baseado no romance homônimo de Helen Fielding)
Elenco: Renée Zellweger, Hugh Grant, Colin Firth, Gemma Jones, Jim Broadbent, Paul Brooke, James Faulker, Felicity Montagu, Shirley Henderson, James Callis, Jacinda Barrett
Duração: 108 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.