Crítica | Brinquedo Assassino

estrelas 4

“Ade due damballa! Dê-me o poder, eu lhe imploro!”. Essas poderosas palavras compunham a maldição que atravessaria gerações ao longo de quase 27 anos. Chucky é indubitavelmente um dos mais importantes ícones do terror mundial. Quando buscamos franquias marcantes de horror, a imagem do simpático boneco ruivo é sempre evocada. Eis o porquê: Chucky está entre o limiar entre o bizarro e o cômico, chave principal do sucesso de Filmes B bem executados.

O primeiro filme do longa apresenta ao eixo narrativo que seria abordado e referenciado ao longo de toda a sequência de filmes. Em meio a uma troca de tiros enquanto estava sendo perseguido pelo Detetive Mike Norris, Charles Lee Ray, conhecido como o Estrangulador de Lake Shore, busca refúgio em uma loja de brinquedos. O assassino é atingido por um tiro e, diante da morte iminente, conjura uma maldição que o faria incorporar um boneco da marca Good Guys, o mais popular do segmento. O mesmo boneco iria cair nas mãos de Andy Barclay, um garoto de seis anos de idade. A partir daí, Charles, cujo apelido é Chucky, passa a perseguir Andy a fim de transferir sua alma para o corpo do garoto de modo a conseguir vingar-se dos responsáveis por sua morte: o detetive Norris e seu parceiro que fugiu durante a perseguição, Eddie Caputo.

A premissa é bastante simples e não se perde em muitas firulas. Isso é fundamental para que a franquia siga sem perder o foco original. O roteiro é desenvolvido como pede um bom filme de horror. Ainda que caia em clichês típicos do formato, a grande sacada em Brinquedo Assassino está no que fica subentendido, no não dito. Durante boa parte do filme, não vemos o boneco Chucky em ação, mas acompanhamos seu ponto de vista e sua movimentação nos momentos de tensão estratégica.

Nos momentos em que o filme revela de fato a personificação de Charles Lee Ray no boneco, podemos observar com clareza o bom uso da tecnologia animatrônica, nada surpreendente, mas também não aquém aos padrões da época. Visto que o orçamento total do longa ficou na faixa dos 9 milhões de dólares (longe de ser uma super produção) e estima-se que os rendimentos do filme girem em torno dos 44 milhões, o balanço é mais do que positivo.

Dentre vários pontos positivos que colaboram à boa execução do filme, é necessário destacar as atuações muito boas do elenco principal, algo que sempre esbarra na hora de dar credibilidade a filmes do gênero. Tanto Alex Vincent vivendo o inocente garoto Andy, quanto Catherine Hicks no papel da mãe desacreditada Karen estão muito bem. Do mesmo modo é a dublagem de Brad Dourif que é a responsável pela essência ímpar de Chucky, o boneco assassino.

Por fim, é preciso ressaltar a versatilidade presente durante todo o longa. Brinquedo Assassino é bastante convincente, resgata referência a outros marcos do cinema de horror e dentro de sua própria bizarrice não deixa a desejar em nada se comparado a tantos outros. Apesar disso, é interessante perceber que o filme consegue transitar com uma facilidade admirável a lugares confortáveis da comédia sem que assim perca credibilidade. Brinquedo Assassino apela para o trash e não tem medo de ser tosco. Aliás, ser tosco é algo que, conforme comprovado pelo filme, pode ser usado, quando da forma correta, a seu favor.


Brinquedo Assassino (Child’s Play – EUA, 1988)
Direção: Tom Holland.
Roteiro: Don Mancini.
Elenco: Brad Dourif, Catherine Hicks, Chris Sarandon, Alex Vincent, Dinah Manoff, Neil Giuntoli.
Duração: 88 min.

FILIPE MONTEIRO . . . O exército vermelho no War, os indianos em Age of Empires, Lannister de Rochedo Casterly. Entrou em órbita terrestre antes que a Estrela da Morte fosse destruída, passou pela Alameda dos Anjos, pernoitou em Azkaban, ajudou a combater o crime em Gotham e andam dizendo por aí que construiu Woodburry. Em uma realidade alternativa, é graduando em Jornalismo, estuda Narrativas e Cultura Popular, gosta de cerveja e tempera coentro com comida.