Crítica | Brinquedo Proibido

estrelas 5,0

Um dos melhores e mais famosos filmes de René Clément, a quem Truffaut chegou a chamar injustamente de cineasta de “caldos ralos”, Brinquedo Proibido (1952) é mais uma interessante representação da França (e por tabela, da Europa) durante a Segunda Guerra Mundial.

O filme conta a história de Paulette (Brigitte Fossey), que por ter seus pais mortos em um bombardeio, é abrigada na fazenda da família Dolle, onde conhece o garoto Michel (Georges Poujouly). A relação entre as duas crianças é a base central da obra e não só mostra uma emotiva história particular em tempos de crise, como também representa o espírito infantil de uma forma honesta e… impiedosa. O espectador pode mergulhar na relação conflituosa entre os Dolle e os Gouard, no amor à la Romeu e Julieta dos filhos dessas famílias e das pequenas histórias envolvendo as duas realidades (deserção, covardia, dificuldades financeiras, escassez, morte), mas a forma como o filme nos apresenta o drama infantil como uma camada da guerra irá se sobressair e, facilmente, nos impressionar.

Logo nas primeiras cenas temos um importante ingrediente típico da filmografia de Clément que é a precisa inserção dos personagens em seu espaço geográfico, com planos que priorizam o lugar, especialmente se estamos falando de espaços dominados pela natureza. O plano geral com os parisienses fugindo do bombardeio é uma bela imagem de um lamentável momento da guerra e o desespero do povo com os aviões rasantes atirando contra todos é um dos blocos mais bem filmados do longa, com forte poder de apelo junto ao público e uma maneira inteligente de apresentar Paulette como órfã.

Mesmo que tenhamos sempre as reticências quando se trata de elenco infantil, é inegável que os protagonistas aqui contornaram a pouca idade e se apresentaram com grande veracidade em seus papeis, mesclando a inocência com outras caraterísticas em desenvolvimento na infância, desde a capacidade de fazer chantagem, defender alguém ou guardar segredos, até a demonstração de amor, medo e carência que vemos principalmente em Paulette ao longo de todo o filme. É em torno dela que a família Dolle será mostrada e é também a partir de uma descoberta e um desejo seu que Michel irá fazer uma espécie de cruzada “herege” para conseguir as cruzes e fazer um cemitério de animais.

Neste ponto, a mensagem do filme recebe uma nova lufada de significados. A cruz, o mais totalizante dos símbolos, está aqui fazendo a sua ligação entre diferentes aspectos da vida, das diversas espiritualidades (ou falta delas) e da morte. As crianças estão expostas a cada um desses pontos e, mesmo a relação que têm com a morte — de contrição, sentimento de simpatia, talvez de admiração, um status que se pensado de forma evoluída, em um adulto, poderia nos levar para um filme como O Quarto Verde, por exemplo — se transforma naquilo que o título da película chama de “brinquedo proibido”. A morte, o símbolo religioso e a própria vida (através de mentiras, fugas e raivas infantis) não são coisas com que se brinquem. O resultado disso, mais ou final da obra, é um retorno à tristeza, ao abandono e à vontade de ter alguém que se ama por perto. E não há quem não se emocione com a última cena, com Paulette chamando por Michel em meio à multidão.

Sob o doce tema composto pelo espanhol Narciso Yepes, o espectador vê Brinquedo Proibido como uma pequena história de amor fraternal em um cenário onde o amor não era exatamente a palavra de ordem. Também se destaca aqui a fotografia de Robert Juillard, que sempre teve grande habilidade em filmar em ambientes externos e fazer belas tomadas noturnas com composições inteligentes de luz (aqui, um desses momentos mais bonitos é quando Michel pede para Paulette contar até 10 para que seus olhos se acostumem à escuridão. Há um truque simples, mas extremamente eficiente da fotografia que coroa a cena) e movimentos suaves de câmera, mesmo quando a situação pedia por algo mais intenso. Essa composição que mistura o realismo poético francês com ingredientes do neorrealismo italiano firma a presença da guerra, que sempre está lá e não nos esquecemos disso, mas não deixa escapar o caráter humano do enredo.

Merecidamente vencedor do Oscar Honorário em 1953 e indicado ao Oscar de Melhor Roteiro (História) em 1955, Brinquedo Proibido é um dos filmes franceses sobre a Segunda Guerra que deve constar na lista de qualquer cinéfilo. A obra é uma injeção de humanismo e delicadeza que certamente faria bem a muita gente em nossos dias.

Brinquedo Proibido (Jeux interdits) — França, 1952
Direção: René Clément
Roteiro: Jean Aurenche, Pierre Bost, François Boyer, René Clément (baseado no romance de François Boyer)
Elenco: Georges Poujouly, Brigitte Fossey, Amédée, Laurence Badie, Madeleine Barbulée, Suzanne Courtal, Lucien Hubert, Jacques Marin, Violette Monnier, Denise Péronne, Fernande Roy, Louis Saintève
Duração: 86 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.