Crítica | Brinquedos Que Marcam Época – 1ª Temporada

Brinquedos Que Marcam Época é uma série documental do Netflix com uma premissa excelente e que vem naturalmente embutida de copiosa quantidade de apelo nostálgico: contar a história de brinquedos famosos. No entanto, o resultado poderia facilmente ter sido cansativo e burocrático se a pegada fosse séria demais, com episódios longos demais. É com felicidade, então, que posso afirmar que meu receio desapareceu completamente logo ao final do primeiro episódio – de apenas quatro no total – em que, de forma objetiva, eficiente e rica, a série nos apresenta aos brinquedos baseados na franquia Star Wars.

Vale um parênteses aqui: quem escreve a presente crítica é um crítico velho e nerd o suficiente para ter passado por todas as coleções objeto da 1ª temporada, com exceção, claro, da Barbie, ainda que as “bonecas que não ficam em pé” sejam de amplo conhecimento pessoal meu em razão de eu ter duas filhas. Portanto, o apelo nostálgico foi mais do que imediato e acachapante e acredito que acontecerá o mesmo com todos os que, de uma forma ou de outra, tiveram a oportunidade de colecionar e/ou brincar com algum desses brinquedos.

Mas o grande diferencial da série, além de sua premissa, é a estrutura inteligente, jovial e sobretudo divertida de cada um dos capítulos. Ao mesmo tempo informando e fazendo rir, algo que vem naturalmente do criador da proposta e desenvolvedor da série, Brian Volk-Weiss, presidente da Comedy Dynamics, produtora de especiais cômicos televisivos, normalmente de uma hora de duração, incluindo o recente Jerry Before Seinfeld, Brinquedos Que Marcam Época é uma daquelas séries documentais fáceis e agradáveis de assistir e que deixa aquele sempre bem-vindo gosto de “quero mais”.

Não se enganem, porém, pois o foco não está na comédia, mas sim nos brinquedos e há muito claramente um bom trabalho de pesquisa histórica por trás de cada propriedade, além de entrevistas realmente interessantes com pessoas efetivamente importantes para a história de cada brinquedo. Ao começar por Star Wars, Volk-Weiss faz a escolha certa, mas ao mesmo tempo assume um risco. Afinal, a história do merchandising de Star Wars, já abordado em Plastic Galaxy: A História dos Brinquedos de Star Wars, sem dúvida é um dos mais interessantes cases de brinquedos na história dessa indústria, o que é chamativo de imediato, além de serem brinquedos até hoje muito cobiçados e presentes nas prateleiras de lojas por todo o mundo. Por outro lado, o perigo era que esse exemplo único abafaria os demais. No entanto, felizmente não é isso que acontece e cada episódio é muito bem equilibrado entre apresentação e evolução histórica, conflitos e problemas e estágio atual da exploração de cada propriedade.

Se Star Wars é usado como exemplo de visão de George Lucas e do verdadeiro começo da exploração – hoje absurdamente exagerada e obsessiva e não só referente a esta propriedade – de filmes como basicamente uma desculpa para vender brinquedos, é muito interessante ver como a febre pelo filme inaugural da franquia pegou todo mundo de surpresa (inclusive Lucas), fazendo com que a Kenner corresse para vender “cartolina” prometendo os bonecos… ops, figuras de ação, para depois do Natal, fazendo com que diversas crianças americanas literalmente ganhassem do Papai Noel um pedaço de papel apenas. E o capítulo passa por todas as fases, inclusive o marasmo causado pelo fim da Trilogia Original até seu renascimento com o começo da terrível Trilogia Prelúdio, incluindo a abordagem da renegociação dos contratos originais quase como se fosse um thriller de suspense.

No episódio dedicado à Barbie, o mais fascinante momento é a origem da boneca, algo que não contarei aqui para não estragar a surpresa de quem porventura não faça ideia de onde o conceito foi tirado por Ruth Handler em 1959 e como ela lutou contra tudo e contra todos para conseguir colocar o produto nas prateleiras. Da origem remota, o episódio vai, com velocidade, abordando a evolução da boneca ao longo das décadas, lidando com a famosa “perna que dobra”, as alterações nas feições, a criação do Ken, a expansão da linha para bonecas diferente do padrão “magra”, “branca” e “loira” e a infindável linha de acessórios, notadamente os figurinos. Além disso, um bom tempo é dedicado à notória e enorme briga judicial da Mattel contra a MGA em razão do lançamento muito bem sucedido das bonecas Bratz (por razões profissionais, acompanhei de perto esse caso e posso dizer de cadeira que ele é absolutamente fascinante) e também a uma briga pelos créditos da criação.

Aliás, créditos é algo que permeia mais fortemente o episódio seguinte dedicado ao He-Man e à coleção Masters of the Universe. Muito do que é discutido, aqui, refere-se ao processo criativo da incrível variedade de bonecos hiper-estilizados e musculosos e, inegavelmente, muito criativos (e estranhos), desde sua inspiração nas clássicas artes do mestre Frank Frazetta. O mergulho nesse lado da ideia e seu desenvolvimento até chegar ao produto final, com seu sucesso breve, mas estrondoso (chegaram a vender 400 milhões de dólares em um ano!), é o grande trunfo da abordagem, que acaba, claro, com a vertiginosa queda das vendas e as tentativas de se reviver a franquia, sem deixar de fora aquele pesadelo cinematográfico encabeçado por Dolph Lundgren. A oportunidade é de ver como uma coleção nova dependeu da brilhante e espontânea ideia de se fazer uma animação para servir como incentivo para as crianças encherem a paciência de seus pais para comprar os produtos e como essa animação acabou ditando a “pegada” dos brinquedos que, originalmente, tinha um lado mais pesado, mais “bárbaro” e acabou tornando-se algo leve, bem voltado para crianças menores.

Finalmente, G.I. Joe ganha destaque no último episódio como o primeiro “boneco” feito para meninos, considerando-se sua origem em 1964, na linha “tamanho Barbie” que, no Brasil, ficou conhecida como Falcon. É impressionante descobrir que o próprio conceito de um boneco voltado para o mercado masculino era algo impensável, tanto que a expressão figura de ação (action figure, no original) foi criada justamente nesse momento, para minimizar a conotação feminina que brinquedos dessa natureza obviamente carregavam (e, sejamos francos, ainda carregam). De todos os brinquedos desta 1ª temporada, o G.I. Joe é o que sofreu as mais radicais transformações. De apenas uma variação no tema geral de “soldado realista”, ele passou a ter uma infinidade de versões com outros objetivos, com explorador, caçador, astronauta e assim por diante, ganhando apetrechos e acessórios fora do conceito básico de armas de fogo (o que incluía tanque de guerra que eu tive e uma lágrima máscula escorreu quando eu o vi no episódio). Mas, quando a versão “grande” do G.I. Joe morreu por diversos fatores, especialmente a entrada de Star Wars na concorrência pela atenção da criançada, a coleção novamente foi transformada e adaptada para a que hoje em dia acabou se tornando a mais conhecida: a versão do tamanho padrão dos bonecos de Star Wars e como uma unidade de elite que inclui ninjas e soldados nas mais diferentes especialidades que luta contra o grupo terrorista Cobra.

Brinquedos Que Marcam Época provavelmente tocará mais fundo naqueles que tiveram a chance de ter ou brincar com esses brinquedos em algum momento da vida, especialmente lá na origem ou próximo dela, mas a série documental, independente desse aspecto, é muito bem feita, com uma enorme quantidade de informações interessantes sobre cada uma dessas criações que dão um belo panorama sobre a indústria de brinquedos e de entretenimento americana. Portanto, trata-se de uma série que consegue ultrapassar a barreira da nostalgia ou da especificidade temática por sua inegável qualidade intrínseca como obra documental histórica, com uma abordagem inteligente, de viés cômico (ou relaxado), com uma riqueza de imagens e vídeos de época e uma linguagem dinâmica absolutamente irresistível.

Brinquedos Que Marcam Época (The Toys That Made Us, EUA – 22 de dezembro de 2017)
Desenvolvimento: Brian Volk-Weiss
Direção: Tom Stern
Roteiro: Nicholas Ferrell, Benjamin J. Frost
Elenco: Donald Ian Black (narrador), Jordan Bryce, Margo Dan, Rob Bruner, Mike Gerbi, Robert Riechel Jr., Justin Shepherd
Com: Mark Bellomo, David Vonner, Paul Cleveland, Jill Elikann, Derek Gable, Judy Shackelford, Janice Varney-Hamlin, Robert Best, Josh Blake, Kirk Bozigian, Jackie Breyer
Duração: 46 min. por episódio (4 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.