Crítica | Brinquedos Que Marcam Época – 2ª Temporada

Em termos de qualidade geral da 2ª temporada de Brinquedos Que Marcam Época, não tenho muito de diferente para falar em relação aos comentários que fiz sobre a 1ª temporada. O bom humor, a pesquisa histórica e a qualidade de cada um dos quatro novos episódios continuam fazendo desta uma série documental absolutamente imperdível que vai muito além do apelo nostálgico inerente aos brinquedos que são abordados.

Desenvolvida por Brian Volk-Weiss, presidente da Comedy Dynamics, a série, que tem apenas quatro episódios por temporada, é, em poucas palavras, uma gostosura de se assistir, algo que obras desta natureza normalmente lutam para conseguir. Pela janela vão a aridez e a sisudez e, em seu lugar, entram a descontração e as brincadeiras sempre de forma inteligente e relevante para a história verdadeira sendo contada. Por vezes, décadas de desenvolvimento de produtos são comprimidas em pouco menos de 50 minutos, mas a cadência narrativa mantem-se igual e constante, sem que os roteiros deixem de fora nada de relevante, inclusive os aspectos negativos e mais sérios que volta e meia aparecem, como é caso, nesta temporada, da falência da Mego, episódio voltado a Star Trek.

Mas estaria sendo desonesto se eu não afirmasse com todas as letras que os roteiros de Benjamin J. Frost e Nicholas Ferrell tentam ao máximo criar atmosferas diferentes e dinâmicas dentro da mesma fórmula geral estabelecida pela série. Não há um episódio realmente igual ao outro, com alguns recorrendo a encenações de eventos passados (como é o caso com Transformers) e outros abordando muito da cultura de outro país para tentar explicar o sucesso de determinada criação, como em Hello Kitty. Além disso, a 2ª temporada, diferente da 1ª, que lidava exclusivamente com criações americanas (Star Wars, Barbie, He-Man e G.I. Joe), sai das amarras territoriais e dedica 3/4 da temporada a produtos não-americanos, ainda que um deles seja um híbrido nipo-americano. Isso, por si só, já permite maiores liberdades estruturais, com filmagens in-loco nesses países – Japão e Dinamarca – que enriquecem a experiência como um todo. E, no caso do único brinquedo 100% americano, no lugar de tratar de um caso de sucesso, como foram – pelo menos por um tempo – as quatro linhas da 1ª temporada, houve a preocupação de se fazer o oposto e lidar com um caso que é quase que integralmente um fracasso retumbante.

O fracasso em questão se refere aos brinquedos baseados na franquia Star Trek, objetos do primeiro episódio da temporada. Como qualquer conhecedor da série de TV e de filmes sabe muito bem, a CBS não tinha lá uma boa ideia sobre o que fazer com a criação de Gene Roddenberry durante a década de 60 e isso acabou, de uma maneira ou de outra, refletindo-se nos brinquedos lançados que nada mais eram do que brinquedos pré-existentes que era “re-etiquetados” com o logotipo da série e com os nomes de seus personagens principais, levando ao “lançamento” de coisas bizarras como um capacete com sirene de polícia (daquelas vermelhas que giram e fazem barulho…) e armas que não tinham nenhuma – mas nenhuma mesmo! – relação com os icônicos phasers utilizados pelo Capitão Kirk e companhia. Não ajudou em nada o cancelamento da série original depois de apenas três temporadas, com uma animação “tapa-buraco” que também viveu pouco e filmes que, a partir do primeiro, em 1979, oscilaram demais em qualidade. O episódio é carregado de piadas que brincam com a eterna “rivalidade” entre Star Trek e Star Wars, além de também lidar com os poucos casos de sucesso em algumas linhas de brinquedo, especialmente os bonecos da Mego e, mais tarde, as linhas para colecionadores.

O episódio seguinte, dedicado aos Transformers, conta uma fascinante história que daria um belo roteiro cinematográfico em razão de sua perfeita circularidade. Afinal, o episódio, que começa na recriação do momento em que Jim Shooter, então editor da Marvel Comics, encarrega Bob Budiansky de batizar e de criar perfis para os 26 robôs originais. Esse momento, que inclui também uma entrevista com os verdadeiros Shooter e Budiansky (este último com a página original do caderno em que rabiscou os nomes dos personagens), abrem as portas para uma viagem para antes ainda no tempo que revela que a raiz do que viria a ser a linha dos Transformers foi, por mais incrível que possa parecer, a licença que a empresa japonesa Takara (depois Takara Tomy) obteve da Hasbro americana para fabricar, no Japão, os G.I. Joe ou, como ficaram conhecidos no Brasil, Falcon. Adaptando o produto para o mercado local, a Takara acabou modificando completamente a criação, começando uma onda de robôs que, depois, tornaram-se robôs que se transformavam em naves e assim por diante. A circularidade está na volta disso tudo para os EUA pela própria Hasbro que obteve uma licença da Takara para fabricar, nos EUA, os derivados do G.I. Joe. É realmente um processo de retro-alimentação incrível que mostra uma simbiose quase impossível entre esses dois países separados por um oceano em torno de uma inusitada linha de brinquedos.

Depois do hibridismo nipo-americano dos Transformers, a série aborda o primeiro brinquedo 100% não americano: os blocos de encaixar da Lego. Invenção dinamarquesa do carpinteiro Ole Kirk Christiansen que, inicialmente, fazia móveis e depois partiu para brinquedos de madeira, é muito interessante constatar que o bloco padrão final, inventado em 1958 (ano de falecimento de seu criador), é o que até hoje é usado mundo afora pela empresa, encantando gerações igualmente, ao ponto de um bloco de hoje poder ser encaixado normalmente em um bloco da década de 50, provando que nem sempre é necessário mudar para evoluir. A trajetória meteórica de sucesso da empresa só foi ameaçada 20 anos depois, ao final da década de 70, quando a patente que protegia o bloco expirou, permitindo que terceiros entrassem para competir por esse mercado. O episódio é “ilustrado” por uma única peça de Lego que, aos poucos, vai se transformando em uma árvore, mas com cada contratempo sendo marcado por uma “desconstrução” dela, o que permite que facilmente acompanhemos o “estágio” da empresa e a gangorra de problemas que teve até que, somente nos anos 2000, ela conseguiu reerguer-se completamente, chegando ao status de maior empresa de brinquedos do mundo.

O último episódio lida com o fenômeno conhecido como Hello Kitty, a gatinha (que não é gatinha) branca e sem boca que se tornou o símbolo máximo da cultura nipônica no mundo todo desde sua criação no já longínquo ano de 1974, como um “enfeite” para os diversos produtos que a Sanrio fabricava. O impressionante da história da personagem é que sua fama não se deu porque havia filmes, séries de TV, desenhos animados ou quadrinhos para criar um contexto para sua existência, como é o padrão na indústria. Não havia nem mesmo um “universo” comum com diversos personagens para ela interagir (eles existiam e existem, mas não havia interação). Hello Kitty tomou o mundo única e exclusivamente pelo seu aparentemente gigantesco fator de “fofura”, com o pós-guerra no Japão e a evolução da cultura pop no país tratados no episódio como o necessário contexto para tentar dar alguma lógica à fama da gatinha de laço cor-de-rosa, com variadas entrevistas – inclusive com seu criador – ilustrando o poder atrativo universal da personagem, apesar de uma certa demora em ela ser aceita além das fronteiras japonesas.

A 2ª temporada de Brinquedos Que Marcam Época acerta no alvo mais uma vez com episódios que aliam nostalgia com uma forte e bem-vinda dose de comicidade e pesquisa histórica que revela fascinantes detalhes sobre criações que, de uma forma ou de outra, deixaram e ainda deixam seu selo na cultura pop. Vida longa e prosperidade para a série!

Brinquedos Que Marcam Época – 2ª Temporada (The Toys That Made Us, EUA – 25 de maio de 2018)
Desenvolvimento: Brian Volk-Weiss
Direção: Tom Stern
Roteiro: Nicholas Ferrell, Benjamin J. Frost
Elenco: Donald Ian Black (narrador),  Drew Forni, Josh Odsess-Rubin, Matthew Rhodes
Com:  John Tenuto, Maria Jose Tenuto, Martin Abrams
Duração: 46 min. por episódio (4 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.