Crítica | “Britney” – Britney Spears

estrelas 4

Britney foi um álbum revolucionário na carreira da pop star Britney Spears. O título lembra bastante o batismo dos nomes artísticos de Cher e Madonna, pois tal como as suas inspirações, Britney queria um álbum que revelasse o seu “eu” da instrumentação aos materiais imagéticos, bem como o título intimista, “Britney”, algo curto, direto e bastante representativo. Quando entrevistada sobre o seu nome artístico, nos anos 1980, Madonna disse que queria algo sem sobrenome, que fosse “bem ela”, assim como Cher.

Britney Spears fez o mesmo em seu terceiro álbum de estúdio, lançado pela Jive Records e repleto de letras adultas, elementos musicais com maior desenvolvimento e singles que marcaram o seu nome na história da música pop. É com bastante segurança que afirmo: se Britney Spears não tivesse lançado este álbum, juntamente com In The Zone e Blackout, provavelmente não teria o alcance global que a permitiu ainda ser uma artista pop bem sucedida nos dias atuais, época de espetáculos questionáveis, videoclipes forçados e canções que falam de si própria num ciclo de repetições insuportáveis.

Ao discutir temas como sexo e medo de crescer, Britney Spears transitou para o início da sua fase adulta numa postura mercadológica louvável, digna de trabalhos analíticos no campo da publicidade e propaganda, num álbum produzido por Max Martin e Rami Yacoub, tendo como suporte outros nomes do pop, tais como Justin Timberlake, The Neptunes e Pharrel Williams.

Com 39 minutos e 47 segundos, o material tem cinco, das doze canções, assinadas pela artista, num trabalho que traz referências aos estilos pop e dance, bem como o R&B, gênero musical contemporâneo, derivado do rhythm and blues tradicional, modo de produção eletrônico, realizado com base em caixas de ritmos, uso de riffs de guitarra e batidas inspiradas no hip hop. Há também, no entorno do álbum, a presença de drum machine, aparelho musical eletrônico concebido para simular sons de uma bateria e de outros instrumentos de percussão.

I’m Slave 4 U, Overprotected, I’m Not a Girl, Not Yet a Woman, I Love Rock’n Roll e Boys foram os cinco singles do album. O primeiro deles, I’m Slave 4 U tornou-se um hino pop e marca registrada de Britney Spears, na faixa que ao lado de Toxic, ocupa o primeiro lugar no que diz respeito aos melhores trabalhos da cantora. Marco de transição da imaculada garotinha pop para uma mulher obstinada, a faixa foi produzida pelos The Neptunes e oferecida primeiro para Janet Jackson, artista que a recusou, o que deu espaço e sorte para Britney brilhar, numa canção com ressonâncias do pop urbano e do R&B.

Composta por Chad Hugo e Pharrel Williams, a faixa resultou em um inesquecível vídeo dirigido por Francis Lawrence e na melhor apresentação de Britney Spears na MTV, realizada em 2001, quando a artista dançou sensualmente com uma cobra e um palco que remetia ao jardim do Éden. Desde que lançou, Spears usou a canção em todas as suas turnês, numa prova concreta de que ela sabe o alcance e a qualidade pop do material.

“Eu costumava pensar que tinha as respostas para tudo”, entoa Britney em I’m Not a Girl, Not Yet Woman, composta por Dido e produzida por Max Martin e Rami. Considerada como faixa soft rock, estilo que utiliza técnicas do rock and roll para suavização das letras não agressivas e de linguagem simples, tendo uso do piano e sintetizadores, neste caso, para falar sobre crescimento. Com videoclipe dirigido por Wayne Isham, a canção de 76 batidas por minuto possui forte presença do piano como instrumento maior de acompanhamento.

I Love Rock’n Roll é a segunda melhor faixa do álbum, cover de Britney para a composição escrita em 1975 por Alan Merril e Jake Hooker, originalmente lançada pela banda The Arrows, parte integrante, inclusive, da trilha sonora de Flashdance. Na versão de Spears, produzida por Ronald Jerkins, temos a artista num vocal rouco e dinâmico, com videoclipe dirigido por Chris Applebaum, numa canção com base musical inspirada no pop rock, gênero de fusão que traz verso-refrão com uso de guitarras, baterias e ritmos propulsivos.

Em Overprotected, outra faixa produzida por Max Martin e Rami Yacoub, a cantora é acompanhada por sintetizadores, acordes de guitarra e sonoridade euro-pop. Com 96 batidas por minuto e instrumentação que lembra vagamente os trabalhos dos álbuns anteriores, a canção fala sobre livre arbítrio e teve duas versões em videoclipe: o simplório dirigido por Billie Woodruff e a versão The Darkchild Remix, conduzida pela segunda colaboração de Chris Applebaum para o álbum.

Com Boys, outra faixa composta pela dupla Chad Hugo e Pharrel Williams, Britney entoa sobre a necessidade de todas as garotas “terem um” (garoto). A canção foi parte integrante da trilha sonora do filme Austin Powers e o Homem do Membro de Ouro. O videoclipe, dirigido por David Meyer, teria sido uma das prováveis inspirações para outro vídeo seu, Slumber Party, segundo single do atual Glory.

Acompanhado da Dream Within a Dream Tour, realizada entre novembro de 2001 e julho de 2002, o álbum Britney possui quase todas as suas faixas no mesmo nível dos singles. Em Lonely, a cantora trata de uma garota que busca sobreviver depois de um romance problemático cerceado por manipulações e traições; em Anticipating, talvez a única bobagem do álbum, somos apresentados aos elementos da música disco, numa letra sobre amizade entre mulheres; com Cinderella temos uma boa balada sobre o término de um relacionamento por conta de um par romântico que “não sabe dar valor”.

Em Let Me Be, Britney pede para ser confrontada enquanto adulta e suplica por espaço para mais opiniões, faixa que antecede a frenética Bombastic Love, balada que discute a ansiedade por conta de um romance aparentemente cinematográfico que está para se revelar.  Além da turnê, Britney esteve nas filmagens do romance adolescente Crossroads – Amigas Para Sempre, adocicado filme recebido muito mal pela crítica, mas ovacionado pelos fãs da cantora, de fato, o público alvo da produção.

Três, dos cinco singles, estiveram presentes na produção como parte da trilha sonora. As indicações ao satírico prêmio Framboesa de Ouro em várias categorias não tirou o mérito comercial do filme, um sucesso de bilheteria. Segundo Britney em entrevistas, “este é o primeiro álbum que realmente escrevi e que tomou o meu tempo”. Ela ainda afirmou que não sabia se era a melhor compositora do mundo, mas “tinha que tornar-se alguém melhor e crescer”. Sobre o fato de ser compositora, respondo por ela, não, não é e nunca foi a melhor do mundo, mas no que tange aos momentos de transição para a fase adulta, há de se convir que a moça, ao demonstrar crescimento exponencial do último álbum para este terceiro, estabeleceu-se bem e ficou muito melhor.

Aumenta: I’m Slave 4 U
Diminui: Anticipating

Britney
Artista: Britney Spears.
País: Estados Unidos.
Lançamento: 06 de novembro de 2001.
Gravadora: Jive Records.
Artista: Pop, R&B, trip hopDance-pop e teen pop.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.