Crítica | Britney Ever After

estrelas 0,5

Apesar de apaixonada e pouco reflexiva, a opinião de um fã de determinado artista deve ser levada em consideração quando algum produto na mídia busca retratá-lo, independente da maneira destrutiva ou construtiva. Antes de mergulhar neste raso produto chamado Britney Ever After, cinebiografia do canal Lifetime divulgada desde 2016 e aguardada com certa ansiedade por pessoas curiosas como quem escreve este texto, encarei as observações sobre a produção como superficiais e alienadas.

No final das contas, eu não estava totalmente certo, mas também não estava totalmente errado. Estamos inseridos numa cultura tão alienada que as pessoas não conseguem mais discernir a admiração pelo artista e relacioná-la com a qualidade das suas produções. Leia-se: Britney nunca foi uma grande artista, mas alguns dos seus sucessos são demasiadamente dançantes, empolgantes e bem produzidos quando transformados em videoclipes. A Britney de Hold It Against Me e Criminal não chega aos pés da Britney de Slave 4 U, Toxic e Baby… One More Time.

E é neste tópico (A Britney não é mais a mesma) que habita o grande problema quando o assunto é a tal garota: muitos seguidores da artista não conseguem admitir que a artista faliu em seu projeto de musa pop, uma espécie de categoria que requer performances eletrizantes, figurinos extravagantes e muito fôlego. Não precisa uma análise muito profunda, pois para isso há o elucidativo Mas, afinal, Britney Spears importa?

Para melhor explicar melhor esta fase atual da artista, basta observar o eixo canção + videoclipe + performance “ao vivo”. Recentemente Britney lançou Slumber Party, um vídeo bem dirigido, com elementos que nos remetem ao clima sedutor do ótimo De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick, somados aos elementos de todas as coisas que ela já fez antes, em especial, o videoclipe Boys, bem como alguns enquadramentos e direção de fotografia do empolgante Dance Again, da Jennifer Lopez, um dos hits de 2012.

O leitor deve estar se perguntando onde eu quero chegar com todo este rodeio. Respondo de imediato: a Britney do videoclipe não é a mesma dos palcos. No que diz respeito ao desempenho ao vivo, ela acabou, a voz parece ter regredido ainda mais (nunca foi grande coisa) e se não houvesse uma ótima equipe de dançarinos, diretores de artes e um bom editor, seus videoclipes provavelmente seriam fracassos retumbantes.

Slumber Party é um exemplo. Todo o clima sedutor do videoclipe parece uma autoparódia quando apresentados ao vivo, para uma plateia adolescente fervorosa. No entanto, mesmo com esta série de problemas, a cantora parece interessar bastante. Britney Ever After é prova concreta. Não importa se é para destruir ou para erguer, o que importa é falar sobre a Britney, um produto midiático rentável que vende seu nome mesmo que sequer esteja envolvida com o material, como é o caso desta equivocada, entediante e pecaminosa cinebiografia, um verdadeiro caos dramatúrgico.

No filme somos inseridos no mundo da artista, desde a sua ascensão no Clube do Mickey, passando pelo namoro com Justin Timberlake, o casamento fracassado com Kevin Ferderline e o colapso de 2007, exaustivamente retratado na mídia da época que impede o filme de apresentar qualquer novidade. E o pior dos problemas é a incompetência técnica da produção, pois mesmo nas cenas de impacto, as câmeras dos telejornais da época foram mais felizes na condução da narrativa, o que torna o filme um produto extremamente fracassado em diversos aspectos.

Em seus 83 minutos de projeção que parecem uma eternidade, a produção toma como ponto de partida a perspectiva do documentário Britney For The Record, filme lançado em 2008, época do retorno desta heroína que havia praticamente passado pelas 12 etapas da jornada de Joseph Campbell e sofrido os diabos com a exposição excessiva de sua vida em cada jornal e que circulava entre 2007 e 2008, época de seu colapso.

Se colocarmos o roteiro do filme em perspectiva, extraímos as seguintes conclusões: Britney é uma artista boba, sem força, extremamente dependente dos homens e desequilibrada emocionalmente. Não é uma afirmação minha, mesmo que concorde com um ou outro ponto, mas é a perspectiva do filme. A cada instante alguém insiste em chama-la de “baby”, num processo constante de infantilização. Todos os fatos narrados pelo filme, relacionados com os seus fracassos, estão de alguma forma, relacionados à presença de um homem em sua vida. Em alguns momentos o seu pai, em outros os namorados, principalmente Justin Timberlake, algoz que numa cena ridícula, reprovada por alguns amigos do casal da época em que namoravam, aparece numa boate com uma garota e é convidado por Britney a uma disputa de dança.

Pelo amor de Deus, quantas novelas mexicanas a roteirista assistiu para criar a sua história? E os diálogos? Como alguém se sente a vontade para encerrar um roteiro com diálogos tão ordinários? Para comprovar a ruindade do filme, basta fazer um cálculo básico. Este ano o primeiro álbum de Britney completou 18 anos. Em 34 minutos de um filme com 83 de duração, a história ainda está focada nas crises de ciúme de Timberlake e numa Britney bobinha sem rumo e guiada pela vontade dos homens que a circunda. É mole? A trama se arrasta demais em alguns pormenores e parece se esquecer de radiografar outros detalhes mais importantes ou cruciais não apenas para os curiosos em relação ao que aconteceu com Britney durante o seu colapso, mas para os que respeitam no mínimo a condição mais básica da dramaturgia: o fechamento de arcos narrativos.

A direção de Leslie Libman, responsável por episódios de séries como NCIS e The Originals, é um sofrimento cinematográfico sem precedentes. Tudo fica ainda pior quando o filme é levado ao público, após uma edição comprometedora, com cronologia confusa, cortes bruscos nos momentos indevidos, ganchos televisivos que em prol (apenas) dos comerciais, elementos que prejudicam a narrativa, com cenas aparentemente sem rumo, vergonhosamente iluminadas e fotografadas, além do design de produção decadente. Em suma, Britney Ever After parece aquele TCC que deu errado, reprovado pela banca examinadora e que precisou ser refeito em sua totalidade, o que não aconteceu com esta produção que foi ao ar no dia 18 de fevereiro de 2017 e naufragou num revolto mar de críticas e de parca audiência. Ter pouco público já é humilhante, mas ser massacrado pelos poucos espectadores consegue ser ainda pior.

E no final das contas, um dos respingos deste fracasso de produção sobrou para a atriz Natasha Basset, pois a mesma não aguentou a pressão das críticas negativas e cancelou a sua conta no twitter. Um pouco caricata, a moça se esforçou ao máximo para conseguir interpretar Britney Spears no cinema, uma tarefa nada fácil, haja vista o roteiro de péssima qualidade assinado por Anne-Marie Hess.

Segundo Basset afirmou em entrevistas, “foi muito traumático interpretar o papel, ver tudo que a Britney passou”. Concordo. “Durante toda a vida ela foi perseguida por paparazzi e está sempre sendo julgada pelo seu público”. Sim, mas e daí? Onde a atriz quis chegar com esta afirmação? Se a Britney surtou por conta dos julgamentos, por qual motivo se tornou artista? Que eu saiba, todo artista que vende algo para o público pode ganhar aprovação ou reprovação pelo seu produto. Neste ponto, o discurso da mocinha não disse muita coisa e mostrou ser mais vazio que alguns diálogos do filme. Ela ainda complementou, alegando que “admira muito a força de Britney”. Concordo novamente. Sua admiração está presente no filme, tanto que buscou o máximo de proximidade, dublando as duas músicas em que aparece nos palcos. Um desempenho bastante “fiel” no que diz respeito ao alvo biográfico, não é mesmo?

Outro problema grave é a ausência da “essência de Britney” no filme. Há apenas uma música tocada parcialmente (I Love Rock Roll), pois no geral, a produção apresenta Britney subindo ao palco e saindo dele, sem sequer um revival de seus grandes momentos. A trilha sonora é cheia de músicas de outros artistas, mas quase nada da artista biografada. Como isso é possível? Pois em Britney Ever After a condução narrativa é levada nestas condições precárias.

Sem dilemas éticos, afirmo que o problema não está em tornar alguns fatos fantasiosos demais, pois em nome da ficção e do andamento de um filme, às vezes é necessário incrementar. O erro deste dramalhão é justamente não ter um pingo de ação. Nada emociona. Tudo parece estéril, insosso e perdido. Após o filme passei alguns instantes refletindo sobre a produção e não consegui elencar nada que pudesse ser digno de uma lembrança minimamente razoável.

Alguns produtores do canal estão alegando que o filme fracassou pela falta de patrocínios, o que ocasionou a verba regrada para a realização. A desculpa é no mínimo absurda e esfarrapada, pois o problema não está na melhor qualidade de imagem, tampouco no desempenho dos atores, mas na condução tosca de uma história que tinha tudo para ser emocionante. Britney Spears pode não ser uma artista digna de um filme sobre a sua vida, mas os fatos da sua trajetória são marcos na história da cultura pop no que diz respeito aos elementos industriais, questão que precisa ser levado em consideração.

Mesmo que Spears não tenha contribuído com nada além de coreografias empolgantes, videoclipes divertidos e momentos de escapismo em pistas de dança ao redor do mundo, a sua trajetória merecia um filme melhor que este desserviço dramatúrgico. Como questionou o antigo empresário da artista, Sam Lufti, “isto é uma paródia, certo?”. Corroboro com o ponto de vista e forneço um detalhe além: Britney Ever After não é só uma paródia, antes fosse. A cinebiografia é uma piada ruim.

Quem já escutou uma sabe do que estou falando. Não satisfeitos com o fracasso do filme, os produtores do canal Lifetime lançaram um especial sobre a residência atual de Britney Spears e seus shows realizados em Las Vegas nos últimos anos, um projeto de retorno financeiro bem sucedido. Difícil para o público decidir o que é mais desinteressante: o filme, o documentário sobre os shows, os espetáculos em si ou a própria Britney Spears. Voltando ao início do texto, pelo menos esta foi a primeira vez em que concordo com a safra de seguidores contemporâneos da artista que acabou e ainda não sabe (ou agoniza insistentemente por novos sucessos): o filme supostamente baseado em sua vida é muito ruim.

Britney Ever After — Estados Unidos, 2017
Direção: Leslie Libman
Roteiro: Anne-Marie Hess
Elenco: Natasha Basset, Peter Benson, Clayton Chitty, Carmel Amit, Nicole Oliver, Nathan Keyes, Jillian Walchuck, Connor Paton, Matt Visser, Lindsay Gibson
Duração: 83 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.