Crítica | “Britney Jean” – Britney Spears

estrelas 2

“Não preciso provar nada para ninguém”, afirmou Britney Spears numa entrevista na época do pouco publicitário Britney Jean, oitavo álbum da artista, considerado pela própria como “retrato íntimo”, principalmente pelo título, apelido da cantora em seu círculo pessoal.  O trabalho veio para reforçar a marca poderosa da moça que mesmo diante de altos e baixos, conseguiu se manter como produto rentável dentro da cultura pop.

Desta forma, não importa a falta de qualidade de Britney Jean, que adianto, talvez seja menos inexpressivo que Femme Fatale, mas ainda assim, pouco interessante, salvo por uma ou duas faixas talvez, vendidas por si mesmas, sem precisar necessariamente da publicidade de seu álbum anterior, martelado na televisão, no rádio e na turnê homônima que unificou o combo necessário para o sucesso financeiro de uma artista do pop.

Desta vez Britney Spears é coautora de quase todo o trabalho, postura similar ao que fez no ótimo In The Zone. Work Bitch foi a faixa de lançamento, bastante destoante do trabalho em geral, o que a torna a melhor coisa de Britney Jean. “Coisa” porque ao passo que reconhecemos o trabalho como um pastiche de um monte de ritmos e pessoas envolvidas, sequer exala a “essência” de Britney Spears. É uma música que não parece ser a “cara” da artista que canta, sabe? Uma faixa que ficaria muito melhor em artistas como Rihanna ou Madonna, isto é, personalidades mais coesas e fortes. Esta questão, no entanto, não nos isenta de culpa.

Sim, culpa é o sentimento mais abrangente para definir a audição de Work Bitch, uma faixa artificial, mas muito dançante, gostosa, “aquele” tipo de música “ruim” que sequer nos importamos com a qualidade quando está tocando: o que vale é se entregar ao ritmo da “coisa” e dançar muito. Longe da simplicidade do resto do álbum, Work Bitch é barulhenta e traz Britney Spears encorajando as pessoas a batalharem pelo que desejam. “Vá trabalhar, vadia!”, diz a canção, composta por Otto Jettman, Sebastian Ingrosso e Anne Cunningham, produzida com elementos do EDM (eletronic dance music), uma mescla de diversas vertentes da música eletrônica.

Em Perfume, Britney canta sobre a perda, uma faixa extremamente oposta da balada dançante Work Bitch. Composta por Sia Furler e Chris Broid, a canção fala sobre o fim de um relacionamento e nos transmite um pouco de vulnerabilidade emocional. O videoclipe, como é comum nas produções da cantora, surge como publicidade escancarada para vender os seus perfumes. A sua versão remixada, Perfume (The Dreaming Mix), no entanto, é maravilhosa e talvez fosse melhor ter sido lançada como a faixa oficial do álbum, ao invés da insossa versão estilo balada, xaropada que ficaria muito melhor em vozes mais firmes.

Comercialmente bem sucedido, como tudo que Britney Spears faz, o álbum lançado em 2013 é pouco ousado e impactante. Além de sofrer glitch em alguns vocais, peca pela falta de sincronização em algumas faixas, como na polêmica Alien, por exemplo, faixa que carrega em si um problema. Produzida por Willian Orbit, o responsável por um dos álbuns mais bem sucedidos de Madonna, Ray Of Light, a faixa possui refrãos de caráter hipnóticos e uma leve inspiração na inspiradora Unusual You, do álbum Circus.

Isso deveria ser uma dupla solução, mas tornou-se problema porque segundo relatos, a faixa não é cantada por Britney Spears, mas por uma cover musical, o que em meu ponto de vista é o cúmulo da “modernidade líquida”, da “pós-modernidade” ou do que quer que seja o fato de um artista contratar outra pessoa para cantar suas músicas. Não estamos mais na era representada por Cantando na Chuva, período em que os atores queridinhos do público e as suas vozes horrendas precisaram lidar com o surgimento do som no cinema.

Há outros momentos inexpressivos: Body Ache, fraca, traz a presença de David Guetta, algo que não acrescenta quase nada de expressivo; a sintética It Should Be Easy traz um feat com Will. I. Am, mas não diz muita coisa para o álbum; Chilin’ With You, um feat com a sua irmã Jamie Lynn, tenta flertar com o acústico e soa constrangedora. Talvez a faixa extra Now That I Found You, com o seu estilo euro-dance e ecos de Kylie Minogue seja um pequeno destaque no bojo destas canções questionáveis.

Tal como o álbum anterior, a ficha técnica de Britney Jean não é carregada de novidades. São em média 37 minutos de sonoridade pop, tendo nomes como Diplo, Nicky Romero e William Orbit como alguns dos produtores. Lançado pela RCA Records em novembro de 2013, é o primeiro álbum da artista depois da dissolução da Jive Records, considerado pelos especialistas como a produção com menor número de vendas de Britney Spears.

Diferente do igualmente fraco Femme Fatale, Britney Jean não teve uma turnê homônima, mas a continuidade de um trabalho economicamente rentável: o “espetáculo” Britney: Piece of Me, nome mais justo para o estado recente da artista. O show é exatamente um pedaço da Britney Spears, profissional pouco expressiva e sem o mesmo fôlego de seus trabalhos entre 1999 e 2006. Ao observar o tal show e os últimos trabalhos de estúdios da cantora, duas faixas soam como representações exímias de Britney Spears: Lucky e Overprotected.

A primeira pelo fato da artista ser uma sortuda, como a personagem do videoclipe da canção do álbum Oops… I Did It Again. Se fosse mais velha, duvido que conseguiria se manter diante de tantos trabalhos ruins. A segunda, por Britney ser uma artista superprotegida pelos fãs, um fenômeno no âmbito da cultura pop, tal como a letra e o conteúdo do seu videoclipe oriundo do álbum Britney.  Ela pode ser inexpressiva, ter dublê a substituindo nas cenas de impacto de videoclipe, ter uma cover de voz para uma canção ou até mesmo presente fisicamente no palco, mas sem exalar um pingo de expressão da sua “alma” enquanto artista. Nada importa. Os fãs estarão sempre por lá. Um caso raro de metalinguagem, neste caso, à serviço da própria Britney Spears.

Aumenta!: Work Bitch
Diminui!: quase todas as demais

Britney Jean 
Artista: Britney Spears
País: Estados Unidos
Lançamento: 03 de dezembro de 2013
Gravadora: RCA Records
Artista: Pop, Dance

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.