Crítica | Broadchurch – 1ª Temporada

estrelas 5

Confesso que comecei a assistir Broadchurch por esta contar com David Tennant no elenco. Como um fã de Doctor Who eu não poderia deixar de ver essa obra estrelada pelo eterno 10º Doutor. Tudo o que precisou foi um episódio para eu enxergar inúmeros outros motivos para continuar assistindo essa ótima produção inglesa.

Com oito episódios que funcionariam perfeitamente como uma minissérie, Broadchurch foca nos acontecimentos de uma pequena cidade de mesmo nome. Um menino de onze anos, Daniel Latimer, foi encontrado morto na praia, no pé de um precipício – a princípio tudo indica um suicídio, mas evidências logo provam o contrário: trata-se do assassinato de uma criança. Ao mesmo tempo, DS (Detetive Sargento) Ellie Miller (Olivia Colman) volta de suas férias e descobre que seu desejado cargo de DI (detetive inspetor) foi dado para Alec Hardy (David Tennant), um recém chegado à pequena cidade.

O contraste entre os dois é claro como o dia, Miller é uma pessoas enérgica, próxima dos cidadãos de Broadchurch e com ótimas relações com todos. Amigos não faltam, ainda conta com um casamento estável e dois filhos. Hardy, por sua vez, é um homem duro (como seu próprio nome sugere), vemos isso diretamente na sua aparência: cabelo despenteado, barba mal feita e olhar cansado. Sua personalidade corrobora nossa observação, é um homem direto, distante e solitário, com algo em seu passado que claramente o perturba diariamente.

São esses os dois principais nomes na investigação da morte do menino, a famosa dualidade do bom e mau policial. Broadchurch, contudo, vai muito além disso. Toda a trajetória do caso se desenvolve organicamente, não há epifanias pelo lado dos detetives, as evidências vão surgindo da maneira mais realista possível. Tudo o que se transpassa na série funciona como uma pequena peça de um quebra-cabeça, caminhando todos para sua conclusão. Não pude deixar de fazer o paralelo com o famoso jogo de tabuleiro Detetive (Clue no original).

Classificar essa como um seriado policial seria, contudo, um grande equívoco. A investigação é apenas uma de suas faces. Há um grande enfoque na família Latimer, quebrada após a morte do filho, e também na própria cidade. A vida de todos é revirada com esse acontecimento, desde a dona de um hotel, que, obviamente, passa por um período sem hóspedes, até o passado escondido de certos moradores vindo à tona.

Cada episódio trabalha com um enfoque em determinado cidadão sem transformar a série em uma colcha de retalhos. É impressionante a maneira como tudo se encaixa dentro da narrativa e não soa cansativo para o espectador, que cada vez mais é fisgado pelo desenrolar da trama. É claro que a profundidade dos personagens é um elemento essencial dentro de Broadchurch e isso é feito com maestria. Realmente parece estarmos vendo um evento dentro da vida de pessoas de verdade – suas dúvidas, tristezas, motivações são muito bem trabalhadas.

Isso, contudo, só é possibilitado pelas ótimas atuações não só de David Tennant e Olivia Colman, que superam todas as expectativas criando personagens inesquecíveis, mas também de todo o elenco – desde os Latimer, passando pelo reverendo Paul Coates (vivido por Arthur Darvill, o Rory de Doctor Who) até Jack Marshal (interpretado pelo único David Bradley). Se esse seriado tem uma qualidade é a essencialidade de seus personagens, cada qual com seu devido papel explícito dentro da trama.

Não poderia deixar de falar, é claro, dos maiores inimigos de DI Hardy e DS Miller: a imprensa. Desde o primeiro episódio, um grande enfoque da temporada são os repórteres interferindo no caso. Karen White, uma jornalista do Daily Herald, tem sua atenção chamada pelo caso e logo vai até Broadchurch. No início não é possível desgostar mais da personagem, que aparenta fazer de tudo para conseguir um furo, contudo, como todos na série, ganhamos uma maior empatia e, mesmo, que continuemos desgostando dela, passamos a entendê-la.

Esse roteiro, meticulosamente construído, ganha vida através da bela fotografia que marca toda a temporada. Vemos ótimos enquadramentos em conjunto com um trabalho de som primoroso, que dão o devido tom melancólico à obra. Em diversos momentos temos a ausência de som ambiente somente para ouvirmos os tristes tons de sua trilha sonora, que dão mais profundidade aos Latimers e ao passado de Alec Hardy.

A primeira temporada de Broadchurch é surpreendentemente humana. Ela trata uma morte da maneira como deve ser: um acontecimento que para a vida de todos à volta. Possui um ritmo que irá prender o espectador do início ao fim, sendo possível assistir tudo de uma vez só. Desde o roteiro, passando pelas ótimas atuações até o preciso trabalho de fotografia, essa é uma série que se destaca e definitivamente vale a pena ser assistida na íntegra.

Broadchurch – 1ª Temporada (UK, 2013)
Showrunner: Chris Chibnall
Roteiro: Chris Chibnall, Louise Fox
Direção: James Strong, Euros Lyn
Elenco: Olivia Colman, David Tennant, Jodie Whittaker, Andrew Buchan, Adam Wilson, Charlotte Beaumont, Jonathan Bailey, Arthur Darvill, Matthew Gravelle, Carolyn Pickles, Pauline Quirke, Joe Sims, Vicky McClure, Simone McAullay, Benji Yapp, David Bradley.
Duração: 47 min. (cada episódio)

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.