Crítica | Brooklyn

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estrelas 4

Saoirse Ronan ficou conhecida no mundo em 2007 quando foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Desejo e Reparação. Depois disso, a atriz fez alguns filmes comerciais como A Hospedeira, baseado na obra da escritora de Crepúsculo e Um Olhar do Paraíso, dirigido por Peter Jackson. Mas é agora que ela chega ao amadurecimento de sua profissão e nos entrega uma interpretação magistral, que é a base de Brooklyn, filme com 3 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Atriz para a sua protagonista.

O filme de época de passa lá pelos anos 50, quando imigrantes de várias nacionalidades atravessavam o oceano que separa a Europa da América chegavam a Nova York em busca de um lugar ao sol. A conhecida “Terra das Oportunidades” recebia a todos de braços abertos e esse povo tornou essa grande cidade o que ela é hoje. A irlandesa Ellis Lacey é uma dessas pessoas que aposta na sorte e ruma para a América em busca de melhorar de vida. A Europa vivia o pós-guerra que assolou várias cidades e a perspectiva não era muito animadora, principalmente para os jovens. Com a ajuda do padre irlandês Flood (Jim Broadbent) que hoje vive em Nova York onde guia uma comunidade de conterrâneos, a menina deixa a mãe e a irmã, da qual é muito próxima, na Irlanda e se aventura na imensidão do mar azul de oportunidades.

A chegada a Nova York é cheia de problemas comuns a qualquer imigrante: solidão, tristeza, saudade e até um certo preconceito. Ellis encontra na pensão de Mrs. Kehoe (Julie Walters, incrível e muito engraçada como sempre) um porto seguro onde pode ser ela mesma e aos poucos se habituar ao novo mundo em que vive. Claro que a trama gira em torno do bairro homônimo do título, reduto de imigrantes irlandeses e italianos. Num baile que ela frequenta juntamente com as demais meninas que moram na pensão ela conhece o italiano Tony (Emory Cohen), um jovem sonhador e apaixonado que lhe fará descobrir o amor de verdade.

Quando tudo parecia perfeito na nova vida de Ellis eis que um evento faz com que ela precise retornar à Irlanda encontrar sua família. Essa volta repentina faz com que a jovem repense suas escolhas de vida e inicie um conflito interno que é a força motriz da segunda parte do filme.

A trama poderia ser piegas e bobinha, mas nas mãos certas resulta em um filme sobre escolhas, sonhos e desejos. O inglês Nick Hornby assina o roteiro em sua terceira participação no cinema: o primeiro em Educação e o segundo com Livre, no ano passado. Responsável por sucessos da literatura como Um Grande Garoto e Alta Fidelidade, Hornby mostra em Brooklyn uma leveza e um humor que é bastante peculiar em suas obras. Apesar de ter uma trama relativamente simples, Brooklyn trata das questões abordadas de forma leve, mas sem nunca perder o peso que elas têm. Não é a toa que Hornby foi indicado ao Oscar por esse trabalho, que é uma adaptação do romance de Colm Tóibín. Claro que a jovialidade de Saoirse Ronan ajuda muito para o resultado que se vê em tela. A atriz dá vida a uma personagem cheia de camadas que são lindamente reveladas para o espectador de uma forma muito sutil, o que nos faz ver a plenos olhos a evolução dessa menina que aos poucos se transforma em uma mulher pelas ruas de Nova York.

Se Brooklyn deveria estar entre os indicados principais da noite? Talvez não. O filme é simples, ainda que muito bem realizado pelo novato John Crowley que retrata bem as paisagens bucólicas da Irlanda, ao passo que imprime uma Nova York muito fiel à época. O figurino também é destaque e pontua muito bem a evolução da personagem principal, suas mudanças internas, medos e conquistas. Saoirse Ronan é um nome a ser seguido. Talvez não um furacão como Jennifer Lawrence que está até cansando uma parte do seu próprio público, mas como uma jovem atriz que ainda tem muito a mostrar. Brooklyn é um filme que conta lindamente a história de uma jovem em busca de um sonho e de uma vida melhor nos anos 50 mas de uma forma tão leve, descontraída e envolvente que às vezes parece que estamos nos dias de hoje. Um sopro de frescor para os filmes de época!

Brooklyn – (Idem, Irlanda, Reino Unido e Canadá- 2016)
Direção: John Crowley
Roteiro: Nick Hornby
Elenco: Saoirse Ronan, Domhall Gleeson, Emory Cohen, Jim Broadbent, Julie Walters, Jessica Paré, Fiona Glascott, Emily Bett Rickards
Duração: 113 minutos

GISELE SANTOS . . Gaúcha de nascimento, mas que não curte bairrismos nem chimarrão! Me encantei pelo cinema ainda criança e a paixão só cresceu ao longo dos anos. O top 1 da vida é "Cidadão Kane", mas tenho uma dificuldade enorme de listar os melhores filmes da minha vida. De uns anos para cá, os filmes alternativos têm ganhado espaço neste coração que um dia já foi ocupado apenas por blockbusters pipoquentos.