Crítica | Bruna Surfistinha

estrelas 2,5

Em 2011, lá estava eu, torto na poltrona do cinema esperando a sessão de algum filme começar. O habitual passava na tela, as publicidades ridículas do desodorante Axe, de bancos, adoçantes, margarinas, H2OH e tudo mais que possa não te interessar – ao menos, na época, não éramos bombardeados com propagandas sem nexo de diversas marcas de telefones celulares. Finalmente, os trailers começam a surgir na tela e, para meu espanto e sofrimento, me deparo com a prévia desta obra. A frase que saiu de minha boca foi “Por que?!”. E havia jurado pela minha alma que não conferiria o filme sobre a ilustre prostituta “Bruna”. Mas esqueci da famosa frase do “sábio” Justin Bieber – “Never say never” e, com um pouco de curiosidade, acabei largando meu preconceito e fui conferir. E, pasmem, o filme não é tão ruim quanto eu pensava.

Raquel Pacheco é uma adolescente de 17 anos adotada por uma família de classe média alta. Cansada das provocações na escola e do meio-irmão, resolve fugir de casa e virar prostituta (?!). Após perder a inocência e começar a fazer sucesso no “privê”, Bruna cria um blog que atrai um status de fama mundial para a moça, atingindo o ápice de sua carreira.

Conhecem o ditado “duas cabeças pensam melhor do que uma”? Pois bem, o roteiro do filme foi escrito por três e não consegue surpreender ninguém – a menos que você seja uma pessoa bem desinformada. Escrito por Antônia Pellegrino, Homero Olivetto e José Carvalho, o roteiro adapta, de forma interessante, o livro-diário da garota de programa. Entretanto, as alterações no meio da narrativa tornam Bruna mais uma vítima do que alguém doente, com alguns problemas psicológicos.

O maior absurdo é a fuga da menina sem a menor justificativa coerente – briga de irmãos e colegas imbecis, certamente não convencem uma pessoa a abandonar os pais e sair de casa para virar puta, quando a solução seria o psicólogo mais próximo – acredito eu, pois o filme não confere um baseamento factível para lançar esse ponto de virada. Ele também não dá ênfase no problema da cleptomania que a garota sofre. Em seu início, o roteiro parece ser trabalho de amador cheio de diálogos monótonos e alguns, ironicamente, dignos de filme pornô. Mas, felizmente, ele amadurece com o tempo entregando uma narrativa digna da atenção do espectador. E segue a seguinte fórmula: transformação da garota em prostituta, exploração do cotidiano das prostitutas e ascensão da carreira/blog, de prostituta a drogada e declínio da personagem/trabalho, com cada um dos arcos bem desenvolvidos, menos o já citado primeiro ato. Também ignora completamente a passagem da prostituta nos filmes pornôs. O mais decepcionante deste filme é que ele não conta com um clímax, além da infeliz escolha de inserir uma narração em over, broxante.

“Tropa de Elite” influenciou muito os roteiristas nacionais a criarem bordões toscos do que manter um ritmo constante na narrativa sem perder o foco. Aqui temos vários, por exemplo, “seu projeto de periguete!”; “feto de puta!” e “cadê a cinderela cocota?!”, entre inúmeros outros. Como citei no início do parágrafo, o filme sofre, sim, com uma perda de ritmo inacreditável durante o terceiro ato onde Bruna está completamente tomada pelo vício, deixando o espectador ávido para que o filme termine de uma vez, graças ao melodrama exacerbado. Ele ainda tem o problema de inserir e retirar personagens do nada, nunca fechando satisfatoriamente o destino de cada um, exceto o da protagonista. Entretanto, ganha seu mérito por ser ousado em retratar uma profissão marcada pelo preconceito mesmo que ainda faça um tanto superficialmente.

Depois de tantos fiascos em interpretações pré-2011, Deborah Secco retorna, talvez em sua melhor forma, encarnando Bruna Surfistinha. Sua atuação não é um trabalho dos deuses, mas também não chega nem perto àquelas coisas medonhas que fazia. Existe um trabalho de caracterização impressionante em sua personagem – enquanto menina era tímida, curvada, feia e malvestida. Quando sua personagem se torna prostituta, Deborah corrige sua postura, adquire um ar sensual e sedutor e fica bem mais bonita do que era.

Secco não tem vergonha de mostrar diversas vezes um nu frontal, lateral, traseiro, etc. Ela também consegue desenvolver sua personagem assombrosamente em sua atuação, mudando de garota educada para prostituta descabida e ríspida em um timing muito bom. Mas nem tudo é um mar de rosas. O terceiro ato da fita é realmente ruim tanto no roteiro quanto na atuação. Secco interpretou sua Bruna drogada de forma caricata causando certa estranheza ao espectador. Ela também não trabalha muito com expressões faciais complexas, mas compensa com seus olhares perdidos e melancólicos. Fora que quando contracena com atores mais jovens fica perceptível a diferença de idade. A iluminação e maquiagem sempre tentam deixar Deborah com aspecto jovial, mas existe um plano que ela falha assustadoramente, envelhecendo a mulher – aquele que ela desce as escadas no “privê”.

Quem definitivamente rouba a cena é a sempre ótima Drica Moraes incorporando toda a cretinice da cafetina de uma só vez auxiliada pela caricatura, que encaixou perfeitamente em seu contexto. Outro que merece atenção é Cássio Gabus Mendes interpretando um dos personagens mais interessantes do filme, Huldson. Se não fosse seu carisma e esforço, o personagem teria passado batido sem abranger a devida importância conferida pela narrativa. Fabiula Nascimento também impressiona no meio de seus tantos barracos revelando uma comicidade interessante.

A fotografia assinada por Marcelo Corpanni tenta fugir de todas as maneiras do antigo padrão “novela” e, felizmente, consegue, ao contrário de “De Pernas pro Ar”. O trabalho com a iluminação é complexo para o nível nacional, sempre assumindo um tom bem sombrio contextualizando com os cenários porcos recriados pela direção de arte. Durante o primeiro ato da fita, ele balança a câmera compulsoriamente criando um incomodo visual pela ineficácia do efeito – não é uma coisa bem-feita como em Corra, Lola, Corra.  Ele tentou contextualizar o momento de instabilidade que a protagonista vive no momento, sendo que durante os outros atos a câmera volta a ficar estável para o bem de seus olhos.

A música de Tejo Damasceno e André Lucarelli composta especialmente para o filme não surpreende na maioria das vezes. Quase todas contam com uma distorção irritante, ficando ainda mais intensa no terceiro ato. Fora isso, o espaçamento entre uma música e outra é irregular – algumas vezes, elas demoram a voltar a aparecer, enquanto no fim do filme existe quase dez minutos de uma música atrás da outra sem interrupção, deixando transparecer a pressa em termina-lo. Também terminam com um tranco muito perceptível. Por exemplo, a música continua a tocar durante a cena, mas na hora do diálogo ela simplesmente desaparece sem, ao menos, um fade out para mascarar.

A única composição realmente boa e prazerosa de ouvir é a They Don’t Make Mistakes com uma batida eletrônica bem produzida. A trilha licenciada consegue salvar algumas partes do filme apostando em Time of the Season dos Zombies, banda popular nos anos 60. Outra prova da ineficiência da edição das músicas é a repetição desta durante o filme caindo no velho tabu da novela.

Marcus Baldini exibe orgulhosamente seu nome no cartaz do filme, mas para quê colocar letras do tamanho de um bonde sendo que sua direção é pouco criativa e muitas vezes, ausente?

Baldini repete o movimento da câmera durante as cenas de sexo – deslizando a câmera na horizontal, quase nunca mudando o plano – falta de criatividade? Além disso, também nas cenas de sexo, adora trabalhar com uma contraluz em Secco que se faz presente a maioria do filme. Ele não é ousado em como filmar essas cenas, não chegando nem perto da nudez e sensualidade vista em Amor & Outras Drogas – isso para não citar os clássicos desse contexto, não conseguindo criar um erotismo ou um tipo de pornografia.

Às vezes, alguma coisa consegue soar original em seu filme. Por exemplo, a cena que Secco desfila cheia de sacolas no pátio do Tribunal Regional Federal, vulgo edifício Torre Norte, onde há uma montagem com os comentários do blog de Bruna inseridos nas janelas dos prédios que rodeiam a protagonista – isso era novidade em 2011. Ele também gosta de encaixar diversos slow motions em várias cenas sendo que algumas realmente ficam boas com o efeito como a do ensaio fotográfico. Mas há outras em que ele simplesmente as estraga. Algumas vezes, acerta em cheio como enquadrar suas atrizes para a câmera, por exemplo, o rápido segmento de Bruna e suas colegas de trabalho indo para a boate.

O que soube explorar muitíssimo bem foram as reinterpretações das fantasias que os clientes Bruna demandavam, com exceção dos próprios clientes – um mais bizarro que o outro. Isso tudo aliado a uma motagem eficiente (de vez em quando) resultou em uma coisa cômica e divertida de se assistir. Entretanto, boa parte da culpa do terceiro ato da fita ser tão desprezível é da responsabilidade dele que não soube manter o ritmo construído no longa.

Bruna Surfistinha é voltado para os fãs e leitores do livro de Raquel Pacheco. Aqueles que gostaram do livro, com certeza adorarão o filme sobre a garota. Se você não estiver muito interessado, não é uma boa pedida a menos que queira ver Deborah Secco nua em várias poses provocantes, porque este filme não tem muita coisa para adicionar em sua cabeça. Mas agora depois de Bruna Surfistinha, Restart 3D e Frank Aguiar, me pergunto quem será a próxima e ilustre personalidade que o cinema nacional está a procura para fazer uma cinebiografia. Belo? Quem sabe Calypso? Ou Rita Cadillac 2?

Bruna Surfistinha (Bruna Surfistinha, Brasil, 2011)
Direção:
Marcus Baldini
Roteiro: José Carvalho, Homero Olivetto, Antônia Pellegrino baseado no livro de Raquel Pacheco e Jorge Tarquini
Elenco: Deborah Secco, Drica Moraes, Fabiula Nascimento, Cristina Lago, Cassio Gabus Mendes, Guta Ruiz, Clarisse Abujamra.
Duração: 131 minutos.

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.