Crítica | Bruxa de Blair 2 – O Livro das Sombras

estrelas 2

Depois do sucesso crítico e comercial de A Bruxa de Blair, em 1999, era inevitável o surgimento de uma sequência. Fãs inveterados desejavam ver mais, o público do segmento horror adora continuações e a indústria precisa sempre lucrar mais alguns trocados para manter as suas estruturas. Foi assim que o cineasta Joe Berlinger aceitou comandar a sequência de um dos maiores sucessos comerciais da virada do século.

Antes de iniciar a jornada analítica, cabe ressaltar que A Bruxa de Blair 2 – O Livro das Sombras é um “daqueles” filmes que sofreram com as críticas especializadas antes mesmo de se popularizar. Que o filme peca por excessos e se perde em meio aos pontos de virada isso é um fato, mas a ideia metalinguística inicial é formidável e merecia uma chance, afinal, capitalizar em torno de uma ideia “fechada” como o final do primeiro filme é uma artimanha para poucos.

Com roteiro assinado Dick Beebe e Joe Berlinger, o filme analisa os acontecimentos posteriores ao febril sucesso de A Bruxa de Blair, uma obra sobre um grupo de jovens cineastas que viajam para uma floresta sombria, tendo em mira a realização de um documentário sobre uma suposta força maligna. Como sabemos, nenhum dos envolvidos no projeto foi visto novamente e as fitas produzidas por eles foram encontradas e assistidas por milhões de pessoas ao redor do planeta.

Todo o sucesso do filme aqueceu a anterior inexistente indústria de turismo em torno de Burkittsville, Maryland, local em que o “videotape” havia sido rodado. Desta forma, um empresário local criou a chamada “Caça à Bruxa de Blair”, excursão que pede a inscrição pela internet e tem como programação guiar os envolvidos numa aventura no seio da tal floresta onde o primeiro filme havia sido rodado.

Com a chegada dos primeiros turistas ao local, fatos bizarros e assustadores começam a se estabelecer. Logo, os envolvidos percebem que estão diante da terrível maldição da bruxa de Blair e escapar da floresta é o mínimo que eles podem fazer para tentar sobreviver aos piores pesadelos que estão prontos para darem uma guinada “horrível” em suas vidas.  No meio disso tudo você será guiado por uma viagem repleta de erotismo, rituais macabros, cenas de violência física e simbólica, entre outros itens do menu narrativo.

“Não há bruxa aqui, voltem para os seus lares”. É assim que estes novos apreciadores da lenda que gravita em torno dos acontecimentos de A Bruxa de Blair são recepcionados. No entanto, há algumas incongruências. Os moradores repelem os visitantes, mas uma pequena indústria se estabeleceu no lugar: camisas e objetos inspirados no filme anterior são vendidos aos turistas, numa espécie de aquecimento econômico da região.

Desta forma, o mesmo povo que repele é aquele que ganha com a situação. Se o filme não segue o anterior partindo da ideia de uma fita perdida ou de alguma investigação sobre o desaparecimento dos personagens anteriores, ao menos segura na crista de uma ideia criativa e aposta numa reversão narrativa. Pode não ter funcionado bem, mas a tentativa deve ser louvada, afinal, na seara de uma indústria viciada e pecaminosa no que tange aos aspectos da criatividade, o filme tentou o seu diferencial.

Alguns apontaram que esta sequência matou a essência do original. Primeiro, desde quando filme tem essência? Segundo, qual o problema em subverter a trama do “original”, um termo tão escorregadio e repensado na seara da pós-modernidade? Tais observações demonstram que ainda falta muita responsabilidade por parte de uma fatia da crítica que se diz “especializada”. Talvez seja necessário retornar para o básico, os manuais de língua portuguesa, tendo em vista saber utilizar adequadamente as aspas, para evitar qualquer afirmação descuidada e pantanosa.

Responsável por dirigir documentários para bandas como Rolling Stones e Metallica, o cineasta Joe Berlinger até consegue imprimir alguns estereótipos do mundo do rock para tentar impressionar o público. Em termos climáticos consegue, mas falta unidade em outros trechos do roteiro, o maior problema da narrativa.

Na abertura há um ótimo recorte de vários críticos comentando o sucesso narrativo do primeiro filme e a projeção no espectador da época. Muito interessante. Talvez seja um dos trechos mais relevantes. O filme completou 15 anos em 2015, época em que o lançamento da terceira parte da franquia ainda não havia sido anunciado. Antes de embarcar na próxima aventura aterrorizante, o que acha de conferir a segunda parte? Dê uma chance ao filme.

Bruxa de Blair 2 – O Livro das Sombras ( Book of Shadows: Blair Witch 2) – EUA, 2000 
Direção: Joe Berlinger
Roteiro: Dick Beebe, Joe Berlinger, inspirados nos personagens de Daniel Myrick e Eduardo Sanchéz
Elenco: Stephen Barker Turner, Erica Leerhsen, Kim Director, Erik Jensen, Kevin Murray, Lauren Hulsey, Richard Kirkwood, Raynor Scheine, Kennen Sisco
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.