Crítica | Bruxa de Blair (2016)

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estrelas 3

Pode parecer um grande exagero, mas quando pararmos para pensar, é a mais pura verdade: A Bruxa de Blair é um dos filmes mais importantes de todos os tempos. Isso não faz dele um grande filme (aliás, é triste notar o nítido envelhecimento do longa ao longo dos anos), mas sua estratégia absolutamente brilhante de produção e marketing inspirou não só o gênero do terror, ao reinventar o formato found footage de forma marcante, mas toda Hollywood no que diz respeito a produções baratas que acabam lucrando imensamente – A Bruxa de Blair rendeu 200.000%(!!) o valor de orçamento. Só.

A ideia de forçar a veracidade dos eventos retratados também atraiu as massas ao cinema, em uma época onde isso era possível de se acreditar graças a inexistência da internet, e que só conseguiu um feito ligeiramente similar com o primeiro Atividade Paranormal, em 2007. Obviamente, o estúdio não demorou para lançar uma continuação logo no ano seguinte, mas o resultado foi tão pedestre que acabou ignorado na mitologia. O que nos leva a 2016, com a chegada inesperada deste Bruxa de Blair, que surpreendeu o público e a mídia ao ser lançado por Adam Wingard sem nenhum anúncio prévio.

A trama é uma sequência direta dos acontecimentos do primeiro, apresentando-nos a James (James Allen McCune), irmão da protagonista do original e que prepara uma expedição para retornar à floresta de Black Hills após encontrar um vídeo antigo da famosa gravação da “Bruxa de Blair” que lhe oferece uma nova pista sobre seu desaparecimento, há 17 anos. Junto com um grupo de amigos e várias câmeras, James embarca na mata que ainda carrega a lenda e o mito da Bruxa de Blair.

É uma premissa que recria quase que exatamente a estrutura do original, com apenas algumas atualizações tecnológicas esperadas e uma ou outra reviravolta na trama, bem amarrada pelo roteiro de Simon Barrett. Claro, algumas viradas são bem previsíveis e o texto peca em apostar em diversos arquétipos de personagem batidos e que impossibilitam apego com qualquer uma das figuras aqui, merecendo apenas o jogo de distração que a narrativa cria em torno dos misteriosos personagens de Lane (Wes Robinson) e Talia (Valorie Curry), locais da cidade de Burkittsville que servem como guia dos personagens pela floresta.

A presença de múltiplas câmeras permite que Wingard crie soluções interessantes para a estética do longa, que traz mini câmeras no ouvido de cada um dos personagens (dando espaço para uma montagem de ação e reação bem rara no gênero do found footage), câmeras antigas cuja resolução difere do HD e até mesmo um drone que se revela… bem, inútil, sendo sincero. Como condutor de terror, infelizmente Wingard revela-se um escravo dos sustos fáceis e jump scares falsos que enganam o espectador ao trazer uma ação comum que se confunde com algo sobrenatural (como quando algum dos personagens abre o zíper de uma cabana repentinamente, por exemplo).

São muitos momentos assim, mas felizmente Wingard traz alguns momentos de domínio da arte de provocar medo, e estes acabam sendo o diferencial que eleva o filme acima do nível de outras produções ineficientes. Quando as câmeras de Wingard apostam no desconhecido e na paisagem sonora (aliás, um trabalho fantástico de equalização para os sons na floresta), aí sim temos uma genuína atmosfera que literalmente deixa o espectador perdido com os personagens, causando um grande desconforto. Tudo culmina no excelente e apavorante clímax que nos leva novamente à icônica casa que serviu de palco para a conclusão do longa original, com uma condução altamente imersiva graças à câmera literalmente em primeira pessoa presa aos personagens.

Bruxa de Blair é eficiente ao oferecer uma continuação mais respeitável para um filme tão importante. Nem de longe causa o mesmo impacto ou efeito, quase servindo como um remake do que um longa que expande a mitologia, mas é um sucessor digno.

Bruxa de Blair (Blair Witch, EUA – 2016)

Direção: Adam Wingard
Roteiro: Simon Barrett
Elenco: James Allen McCune, Callie Hernandez, Corbin Reid, Brandon Scott, Wes Robinson, Valorie Curry
Duração: 99 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.