Crítica | Bullitt

“Olhe, Chalmers, temos que entender um ao outro… Eu não gosto de você.”

Uma das grandes produções a contar com automóveis em alta velocidade, Bullitt é um longa-metragem policial, dirigido por Peter Yates, notório em muitos aspectos, contudo, em um abrangimento maior, enormemente interligado a uma noção realista do sub-gênero, quase como uma visita verídica ao encaminhamento de uma missão ordenada ao Tenente Frank Bullitt (Steve McQueen), além de outros policias, designados à proteção de uma testemunha essencial para o Senador Walter Chalmers (Robert Vaughn). Quando estamos em uma sala de emergência, a exemplificar o cuidado do cineasta, os tantos procedimentos iniciais em um paciente específico são evidenciados, nessa ótica de imersão do público a uma veracidade em cena – o longa-metragem foi lançado no alvorecer da Nova Hollywood. Os bons momentos, em termos de suspense e ação, vão além de uma cena específica – que será comentada adiante -, porque, pela metade da obra, um envolvente jogo de gato e rato do protagonista, à procura de um criminoso, é filmado. A câmera desloca, do personagem principal se aventurando pela escuridão, para o conhecimento do paradeiro do atirador procurado, esgueirando-se para uma outra posição, atiçando os nervos do espectador. O roteiro, na realidade, é um pouco aquém das qualidades dos demais componentes do longa-metragem – o clímax é uma continuação disso -, entretanto, o realismo impressiona, cativa em relação a uma atmosfera verdadeira, consequente, também, ao uso de locações reais para a filmagem de várias cenas.

A perseguição de carros, no encaminhamento ao terceiro ato da obra, ademais, é o elemento mais fantástico do filme, responsável por marcá-lo na história do cinema, justamente por conter uma das sequências do tipo mais aclamadas de todas. A qualidade da direção é magnífica, assim como da edição de Frank P. Keller, rendendo-lhe uma estatueta no Oscar. Do momento em que os criminosos, em um Dodge Charger, enxergam, pelo retrovisor, o Ford Mustang do protagonista, os dois veículos passam a saltar, ludicamente, pelas ruas de São Francisco, para entretenimento verossímil do espectador. A câmera intercala entre diferentes ângulos, mas nunca distanciando, por completo, o espectador da realidade, por ser como se uma cena de verdade, desse naipe, fosse filmada. As perseguições de carros, na vida real, não devem ser assim, porém, o cineasta aproxima-se o suficiente do incrível, embora consideravelmente factível, antes do tornar-se entendiante. A sequência também trabalha com as influências das estradas. Os carros, por exemplo, não estão à parte do cenário, correndo entre outros automóveis e passando sem problemas por espaços mais estreitos. O cineasta, muito pelo contrário, faz questão de colocar, em cena, fechadas de veículos civis, derrapadas acidentais, colisões menores – a percepção de peças de carro voando pelo cenário é magnífica -, assim como mudanças de rota dependendo de demais eventos. A conclusão da sequência, após dez minutos extremamente engajantes, é sobre ocasião, não intenção – portanto, crível.

O protagonista, todavia, não é, em termos analíticos formais, muito bem explorado pelo roteiro, desinteressado em desenvolvê-lo, por exemplo, mas entendido a construí-lo de uma outra maneira, mais auxiliar da grande proposta do longa-metragem. Frank Bullitt é um personagem marcante, mas por outros motivos, nos quais o roteiro consegue entender a criação de uma forma rígida, como um policial icônico e não um tipo genérico e qualquer. O protagonista, enquanto, de um lado, consegue quebrar com condutas convencionais para conseguir o que almeja, não se rende, por outro, a interesses políticos. O jogo, ao mesmo tempo, também é de perda, em decorrência das inúmeras derrotas sofridas por Bullitt. Um arco próprio, sobre os perigos da carreira profissional do policial, porém, é apresentado descaradamente, apesar de extremamente descartável, também pelo próprio roteiro, que não se importa nenhum pouco com essa importunação secundária, ainda mais ao passo que, junto a isso, uma namorada do personagem é presente em cena, novamente destoando dos desdobramentos investigativos, muito mais interessantes e significativos para o caráter rotineiro presente no longa-metragem, não obrigatoriamente um acontecimento marcante, daqueles a se tornarem narrativas cinematográficas. O valor atribuído a um diálogo, entre esses dois personagens, é contrastante com o real interesse do filme, muito menor, mas tão ambicioso quanto uma trama cheia de reviravoltas inteligentes – que não é o caso dessa obra de narrativa questionável.

Steve McQueen, intérprete de Frank Bullitt, é, em contrapartida, o gigantesco responsável, verdadeiro ícone do sub-gênero, por carregar, particularmente, o espectador em uma obra, nos demais âmbitos, menos interessada no seu protagonista em uma esfera individual, mas no seu significado simbólico e, mais ainda, na narrativa contada, casando também com a proposta menos grandiosa e mais fidedigna do cineasta, enxergando-se em uma vertente realista de thrillers policiais. Bullitt é uma produção, para se reiterar, com pés mais no chão, indo consideravelmente além das críveis sequências de ação para também comportar-se desse modo em outras passagens. A obra assume, inúmeras vezes, por exemplo, um caráter quase documentarista do cotidiano policial, como quando Peter Yates posiciona a câmera sobre as malas de uma envolvida no crime central da trama e evidencia, por alguns minutos, as descobertas referentes ao conteúdo dentro delas. A imersão é sentida – pontuando-se, além disso, a ótima cinematografia e a trilha sonora caprichada. O seu personagem, ao mesmo tempo, sofre com as derrotas, sempre frequentes nessa vida brutal – o discurso da namorada. McQueen tem um temperamento comprável, porque o trabalho é o que importa, sendo sua atenção completamente voltada para ele, pensamento, todavia, que não significa, necessariamente, um sucesso integral do exercício investigativo. Quando a missão acaba, o distintivo e o coldre são as imagens que visualizamos pela última vez, em preparo para o próximo objetivo de nosso anti-herói.

Bullitt – EUA, 1968
Direção: Peter Yates
Roteiro: Alan R. Trustman, Harry Kleiner (baseado em obra de Robert L. Fish)
Elenco: Steve Mcqueen, Robert Vaughn, Jacqueline Bisset, Don Gordon, Simon Oakland, Felice Orlandi, Pat Renella, Carl Reindel, Paul Genge, Bill Hickman, Robert Duvall
Duração: 113 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.