Crítica | Burlesque

estrelas 1

Dentre todos os gêneros cinematográficos, penso que o musical seja o que mais dê trabalho para os diretores, atores e equipe técnica. A mistura entre música, diálogos, coreografias, atuação, mundo dramático e mundo fantástico não é algo fácil de ser realizado, porque além de exigir muita originalidade – para que o produto não figure como um grosseiro drama cantante – o gênero cobra do realizador um grande domínio de palco e captação de imagens, algo que passa longe de Steve Antin, ator, roteirista e produtor de cinema que assinou Burlesque, musical extravagante e nada inteligente, com um roteiro que é uma compilação de historietas adolescentes, comédias românticas de Nancy Meyers e citações a perder de vista retiradas de All That JazzCabaret Chicago.

Burlesque conta a história de uma garota do interior do país (Christina Aguilera, sensualíssima) que tenta achar emprego em Los Angeles e acaba na boate que dá título ao filme, onde terá que conquistar a confiança de Tess (Cher, uma grandiosa potência vocal mal aproveitada), a proprietária do local. O amor, as brigas de bastidores, alguns jogos de ida-e-volta, o galã conquistador, o galã quase politicamente correto e uma dificuldade externa qualquer aparecem e são, obviamente, superadas.

Steve Antin faz pouca coisa para tirar do espectador a incômoda sensação de déjà-vu cinematográfico – no pior sentido dessa palavra. E para piorar, Antin levou muito a sério o marketing em torno de Christina Aguilera e se esqueceu do princípio básico do gênero musical: as canções devem ajudar a contar a história, não apenas figurá-las como se fosse uma trilha sonora executada ao vivo. No máximo, o diretor consegue fazer desaparecer o caráter acusmático da música para cinema e isso se arrasta por duas horas de projeção em canções que, em sua maior parte, pouco acrescentam ao filme; e em coreografias tão recorrentes nos musicais a partir de Bob Fosse que apenas dois setores técnicos conseguem limpar Burlesque das teias de aranha que traz consigo: a fotografia e a montagem.

Não sabendo lidar cenicamente com as ótimas e belas dançarinas do elenco, nem explorar outras coisas das protagonistas que não o básico (com momentâneas exceções vocais em relação a Christina Aguilera), Antin fez de seu musical um gringo samba do crioulo doido, com direito a diálogos saídos da mesma forma de O Diabo Veste Prada e situações sexuais revestidas de uma abordagem pseudo-cult-descolada que só me fez lembrar uma piada cinematográfica de mal gosto: American Pie versão Mike Nichols.

Cher, cuja única capacidade cênica é cantar e divar no palco, foi extremamente mal aproveitada, com apenas dois solos, sendo o pior deles, o primeiro. Já o segundo, embora bem cantado e com alguma ligação com o momento dramático do roteiro, soa demasiadamente trágico… A atmosfera do filme não pedia tanto. A mesma coisa acontece com a belíssima, mas deslocada execução de Aguilera na canção Bound to You. Da letra da música ao figurino da atriz, tudo é discrepância com a atmosfera construída até aquele momento. A sequência parece um esquete gratuito e inexplicável, quebra o ritmo final da cambaleante obra, encanta apenas pela voz da atriz e sua apresentação notável, mas é inapropriada dentro da história.

A terrível direção de Steve Antin desperdiça Cher (que nunca foi, verdadeiramente, uma boa atriz, mas, se bem dirigida, consegue manter uma linha aceitável de representação, como fez em Chá com Mussolini), Stanley Tucci, Alan Cumming, Peter Gallangher e Kristen Bell. Tudo parece burlesco demais para ao menos disfarçar-se de “intenção artística”. Sequências inteiras são “salvas” apenas na montagem, e isso, sabemos, não basta para o produto inteiro. A trilha sonora do filme é simplesmente incrível, a performance musical de Christina Aguilera é muito boa, mas não há um momento em que todas essas pequenas partes entrem em harmonia. Se uma coisa dá certo, outra destoa. É difícil encontrarmos uma estreia tão ruim quanto essa, que apesar de tudo, engana com as piadas ácidas e consegue mascarar a contento todos os seus inúmeros defeitos.

Burlesque tem lá a sua qualidade, mas isso independe do diretor do filme. Contaminado pelo “efeito Moulin Rouge”, Steve Antin pensou que misturar estilos, fazer referências a musicais clássicos, dispor belos corpos femininos e um nu traseiro masculino em tela grande fosse o bastante para gerar um grande musical cinematográfico, mas esses ingredientes só conseguem estender um véu obscuro sobre o longa que, no fim das contas, se revela um perfeito entretenimento de massa dentro da cartilha industrial que o gerou. Se um dia Steve Antin for dirigir mais alguma coisa, rogo aos deuses da Sétima Arte que não o permita confundir elementos ópticos com elemento-ópio. No fim das contas, Burlesque acaba sendo uma definição muito eficaz dada por Audiberti a um tipo de filme vazio que parece cheio demais: quilômetros a rodo de ópio óptico.

Burlesque (EUA, 2010)
Direção: Steve Antin
Roteiro: Steve Antin
Elenco: Cher, Christina Aguilera, Eric Dane, Cam Gigandet, Julianne Hough, Alan Cumming, Peter Gallanher, Kristen Bell, Stanley Tucci
Duração: 119min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.