Crítica | Buscando…

Estudar dramaturgia por vias institucionais, além de investir em leituras autodidatas para complementação dos conteúdos foi algo libertador em minha vida de crítico. Por longos anos foquei nos paradigmas hollywoodianos como estratégias unicamente possíveis para o desenvolvimento de uma narrativa envolvente. Foi com o tempo que descobri outras possibilidades narrativas, a construção de histórias por vias menos engessadas, me tornando um crítico ferrenho ao modelo exclusivamente fixado dos profetas do cinema e da TV, dentre eles, Syd Field e Robert McKee.

No entanto, durante a exibição de Buscando…, deparei-me com as minhas próprias contradições. Dirigido por Aneesh Chaganty, também responsável pelo roteiro, em parceria com Sev Ohanian, o filme acompanha a saga de David Kim (John Cho), um pai que se encontra numa redoma de mistérios depois que a filha Margot (Michelle La) desaparece deixando apenas alguns vestígios parcos por meio dos rastros virtuais relacionados aos seus acessos nas redes sociais e caixa de mensagens. Para ajuda-lo nesta busca, Kim contará com o apoio do irmão Peter (Joseph Lee) e com o atendimento profissional de Vick (Debra Messing), a detetive responsável pelo caso.

A produção utiliza a mesma estratégia narrativa do pouco interessante Amizade Desfeita, fazendo o público entrar na história e seguir os passos da investigação do protagonista. Contada inicialmente por meio da tela de um computador com o marcante Windows 95, o enredo nos traz até os dias atuais, com os sistemas operacionais contemporâneos e de última geração, como o macOS, patenteado para uso no MacBook.

A relação entre pai e filha perdeu um pouco do magnetismo do passado depois que a mãe da garota falece em decorrência do câncer que não foi eliminado nos tratamentos médicos. David Kim faz o possível para ser um pai presente, atencioso, mas peca pelo excesso. A filha, imatura e seduzida por uma trama virtual, acaba por perder um pouco o rumo das coisas e abrir o precedente para as situações frenéticas que serão acompanhadas no decorrer do filme.

Com elenco entrosado e reviravoltas que deixariam Syd Field e Robert McKee orgulhosos, erguido pelo que há de melhor nas narrativas guiadas pelo whodunit. É preciso destacar, ainda, a tradução de todos os textos, sites e conversas que aparecem nas telas dos computadores e celulares, um trabalho respeitoso da Sony Pictures com o público. Dentre os temas discutidos temos a falta de privacidade, os impactos da tecnologia nos relacionamentos e outras celeumas da relação entre cibercultura e sociedade. Impossível, inclusive, não dialogar com este vasto campo teórico para compreender bem Buscando… e a sua análise da internet como terreno pantanoso.

Muitas pessoas não conseguem sequer imaginar como seria encontrar informações para as suas pesquisas sem o Google, empresa que se tornou sinônimo de busca na internet. Tal afirmação encontra eco neste texto e estabelece o que de fato, no senso comum, já sabemos: estamos todos, de alguma forma, conectados, e o surgimento da esfera virtual é um dos acontecimentos mais revolucionários da história da mídia. Em A Nova Era Digital, os autores Eric Smith e Jared Cohen reforçam que a internet é uma das poucas invenções que os humanos não compreendem completamente. Na mesma linha de raciocínio, complementam informando que a mesma é o maior experimento da história envolvendo “anarquia”, pois é o maior espaço sem governo do mundo, ou seja, a “terra de ninguém”.

De fato, é difícil imaginar viver sem a internet. Os colegas de Margot, o próprio relacionamento de David Kim com a filha depende disso. O filme nos faz compreender que é uma condição fundamental para se garantir a comunicação, quase um dos itens dos “direitos humanos”, tamanha as possibilidades da nossa inserção no contexto do mundo globalizado. O contato por e-mail, o uso das redes sociais para divulgação de eventos e informações de utilidade pública e particular, bem como o diálogo com pessoas a longa distância, o que no passado foi marcado por celeumas (cartas extraviadas) e alto custo (telefonemas internacionais), hoje é uma zona de conforto na seara da comunicação entre as pessoas. O problema é que há alguns lados desta esfera que não são interessantes como os otimistas apontam. A queda de Margot nas armadilhas da situação que vivenciará é prova cabal disso.

Conforme quase todos os filósofos que teorizam sobre o universo virtual, a internet parece ser a terra das mil maravilhas. Todavia, mesmo apresentando as numerosas vantagens, é também o espaço do ciberbullying, da disseminação mais rápida de estereótipos e falsas notícias, terreno para a ação de criminosos virtuais, como a abissal Deepweb, canal para tráfico de seres humanos, dentre outras preocupações que ferem os direitos dos cidadãos. Ao passo que o filme avança, reiteramos como a internet é uma das coisas criadas pelos homens que eles não entendem completamente. O que começou como um sistema de transmissão eletrônica de informação – de um computador do tamanho de um cômodo para outro de dimensões equivalentes – se transformou numa válvula de escape onipresente e infinitamente multifacetada para a expressão da energia humanas. Ela é intangível e ao mesmo tempo está em constante estado de mutação, tornando-se maior e mais complexa a cada segundo, como podemos ver de maneira competente na discussão do filme.

Para contar esta história, os realizadores tiveram a direção de fotografia que ficou por conta de três profissionais: Juan Sebastian Baron para as cenas externas e Will Merrick, juntamente com Nicholas D. Johnson para as cenas virtuais, interligadas ao passo a passo do protagonista diante das tensas buscas no computador. O design de produção de Angel Herrera também funciona bem, nos fazendo mergulhar nos ambientes íntimos dos personagens, numa complementação de seus respectivos designs. Com uma condução musical também eficiente, assinada por Torin Borrowdale, o filme segue o fluxo com pontos de virada onde nada é o que parece e quando acreditamos que a história será encerrada, novos elementos demonstram que há muitas curvas sinuosas e caminhos narrativos para as bifurcações dos personagens.

Você, caro leitor, pode até ser um daqueles espectadores que acreditam na possibilidade de desvendamento do mistério antecipadamente, o que eu imagino ser frustrante, pois não goza das possibilidades de contemplar as surpresas que o filme propõe. No entanto, creio ser muito difícil, pois as linhas estão extremamente atadas, com um final surpreendente de deixar qualquer um boquiaberto. É a utilização dos esquemas narrativos tradicionais em sua melhor forma, afinal, não é preciso anular as fórmulas, mas basta saber que não precisa utilizá-las como uma agonizante camisa de força. Aos realizadores, os parabéns pela grata surpresa. Um filme que provavelmente deixará você conectado do começo ao fim.

Buscando… (Searching…, Estados Unidos- 2018)
Direção: Aneesh Chaganty
Roteiro: Aneesh Chaganty, Sev Ohanian
Elenco: Alex Jayne Go, Ashley Edner, Benjamin J. Cain Jr., Brad Abrell, Courtney Lauren Cummings, Debra Messing, Erin Henriques, Gabriel D. Angell, Gage Biltoft, John Cho, Joseph Lee, Kyle Austin Brown, Lasaundra Gibson, Melissa Disney, Michelle La, Morgan Peter Brown, Rasha Goel, Reed Buck, Roy Abramsohn, Sara Sohn, Steven Michael Eich, Thomas Barbusca
Duração: 1o1 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.