Crítica | Butch Cassidy

estrelas 5,0

Provavelmente a dupla mais conhecida do Velho Oeste, Butch Cassidy & Sundance Kid tiveram sua popularidade firmada em diversas obras do audiovisual norte-americano e nenhuma delas tão grandiosa quanto Butch Cassidy. Não utilizo tal adjetivo pois o filme conta com um caráter épico, como o inesquecível Era Uma Vez no Oestemuito pelo contrário, o longa trabalha em uma esfera mais particular, tirando grande parte da glória dos dois criminosos. Temos aqui uma retratação que mistura a realidade com um toque da fantasia do western clássico. Butch Cassidy é grandioso pois ele atinge certeiramente o espectador, nos levando em uma jornada que une perfeitamente a tensão, o humor e o drama.

O primeiro e único faroeste de George Roy Hill procura nos contar sobre uma pequena parcela da vida da dupla. Iniciando a projeção com uma falsa filmagem antiga (dos primórdios do cinema), Hill rapidamente nos apresenta, através de breves letreiros, quem foi Butch Cassidy e Sundance Kid. O tom sépia de tal filmagem, então, se mantém quando a tela se abre para ocupar toda sua dimensão, nos mostrando uma típica cidadezinha do Velho Oeste. Com um close fechado no rosto de Butch (Paul Newman), o vemos observar um banco.

– O que aconteceu com o velho banco? Ele era lindo!

– Ele vivia sendo roubado.

– Pequeno preço a se pagar pela beleza.

Com tais palavras de Cassidy, o roteiro já deixa claro que, a este ponto, sua gangue já teve sua fama estabelecida. Não muito longe dali encontramos Kid (Robert Redford), uma figura mais silenciosa, com um olhar mais ameaçador, que certamente esconde uma exímia habilidade como pistoleiro. A história então progride a fim de nos mostrar um pouco da dupla, que, em seguida, passa a ser perseguida por um grupo misterioso e determinado a acabar com suas vidas. Partimos em uma perseguição implacável que, a cada minuto, nos deixa mais na ponta da cadeira, sem saber se os dois protagonistas serão pegos ou não.

George Roy Hill nos transmite com exatidão o tom da amizade dos dessas duas lendas, formando uma química inegável entre os dois. Newman se encaixa perfeitamente na figura do “espertinho”, bem similar ao seu trabalho dois anos antes no ótimo Rebeldia Indomável (Cool Hand Luke), é deixado claro que sua engenhosidade o levara até ali. Neste ponto entra The Sundance Kid, dado vida por Robert Redford, que nos entrega uma figura típica do western: quieto, perigoso e com um senso de humor. Ele deixa a parte cerebral para o amigo, ele está ali só para atirar. Sua habilidade impressionante (entra aqui o lado fantasioso citado anteriormente), contudo, não nos afasta da constante sensação de perigo do filme. Robert e Paul garantem essa profundidade a seus personagens, transformando lendas em humanos e melhor: pessoas por quem torcemos e nos identificamos desde os primeiros minutos.

Passado algum tempo da projeção, o tom sépia inicial dá espaço para as cores vivas. A transição é praticamente imperceptível e funciona para imersivamente nos transportar para dentro da narrativa. Os closes do princípio, que visam nos aproximar dos dois protagonistas, dão espaço para planos mais abertos. Mas Conrad L. Hall sabe exatamente como compor seus quadros – ele não exagera nos planos gerais, limitando-os a poucas sequências que, em geral, procuram construir uma maior tensão na perseguição. A câmera estática sabe precisamente quando ganhar movimento e o posicionamento permite enquadramentos mais criativos – um deles, especificamente, no início do longa, procura recriar os primórdios da animação, onde se animava, através da ilusão de ótica, o movimento de cavalos, bicicletas e etc. Esta mesma cena ainda vem junto da inesquecível música Raindrops Keep Fallin’ on My Head e firma ainda mais o tom humano da obra. Conrad não só procura nos contar uma história, como garante o drama nela presente e brinca com seu material. Mais de uma vez temos sequências formadas por fotografias still, a fim de criar uma elipse temporal criativa, não utilizando apenas a velha montagem acompanhada da música.

E já falando sobre a música, Burt Bacharach nos traz uma trilha que perfeitamente se encaixa dentro da proposta do longa. Não temos as velhas sinfonias heroicas, melodias memoráveis como as de Ennio Morricone, e sim uma ênfase no lado mais íntimo dos personagens – músicas que ressaltam o caráter menos épico e mais interior do longa. Dessa forma, a desconstrução de Cassidy e Kid se torna completa, mas não por isso nos faz desprezar tais figuras. A sensação final é uma espécie de admiração, que nos aproxima dos personagens, mas permite um distanciamento que nos impede de pensar “queremos uma vida assim”. Não há uma excessiva romantização de seus atos, ao passo que as ações são lidadas com a já citada pequena dose de fantasia e preenchido, o resto, de realidade.

Com tais elementos, Butch Cassidy não apenas diverte, como emociona, nos contando uma inesquecível história de amizade. Com um roteiro fluido, dinâmico e cheio de surpresas, o filme passa em uma questão de instantes e quando acaba nos deixa com um sorriso saudoso no rosto, nos fazendo desejar por mais histórias dessa dupla. Paul Newman e Robert Redford, de forma precisa, nos puxam para dentro da narrativa, nos trazendo risadas e angústias e marcando, definitivamente, a história de seus personagens em nosso imaginário.

Butch Cassidy (Butch Cassidy and the Sundance Kid – EUA, 1969)
Direção:
 George Roy Hill
Roteiro: William Goldman
Elenco: Paul Newman, Robert Redford, Katharine Ross, Strother Martin, Henry Jones, Jeff Corey, George Furth
Duração: 110 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.