Crítica | C.R.A.Z.Y – Loucos de Amor

estrelas 3,5

Nos últimos anos, houveram vários avanços para a comunidade LGBT, como, por exemplo, a liberação do casamento homoafetivo em vários países. Porém, mesmo com essas conquistas, a homofobia ainda é muito presente na sociedade atual, com homossexuais sendo agredidos e humilhados diariamente mundo afora. Portanto, se em pleno século XXI ainda é difícil ter uma sexualidade diferente do convencional, imagine então na década de 70 e 80, onde esses temas eram tratados como tabu? É justamente a realidade daquela época que C.R.A.Z.Y – Loucos de Amor aborda.

A obra conta a história de Zachary Beaulieu (Marc-André Grondin), que possui quatro irmãos, sendo o segundo mais novo. Enquanto cresce e se desenvolve, Zac percebe que possui sentimentos diferentes dos demais e tenta mudar isso para não decepcionar o pai Gervais (Michel Côté), que é extremamente conservador e homofóbico. Esse conflito faz com que Zac busque compreender sua própria sexualidade e também o coloca numa luta para conquistar o amor do pai novamente.

Como dito anteriormente, a história do longa se passa nas décadas de 70 e 80 e o diretor Jean-Marc Vallé usa recursos inteligentes para representar a época. O figurino, com as famosas calças boca-de-sino e óculos ray ban; e a direção de arte, através dos cenários, decorações e veículos antigos, estabelecem bem o período, sem ser necessário o uso de referências para que o público entenda quando se passa a história. Outro recurso técnico utilizado de forma inteligente é a trilha sonora, que além de transmitir os sentimentos dos personagens, como o fato de Zac gostar de ouvir David Bowie (que não à toa era conhecido como “camaleão”), também cria uma atmosfera nostálgica, através uma faixa que consta com Rolling Stones, The Cure, Pink Floyd, entre outros, além do já citado Bowie. Por fim, Vallé evoca os anos 70 através do hábito de seus personagens estarem sempre fumando, que era um vício muito presente naquele tempo.

Pelo fato da história se passar ao decorrer de duas décadas, a montagem precisava ser precisa para que o público entendesse a linha temporal dos acontecimentos, por isso, Vallé é competente em utilizar várias rimas para pontuar a passagem de tempo, como repetir a música Emmenez Moi, de Charles Aznavour, toda vez que é Natal, uma escolha acertada, uma vez que, nessa data Zac faz aniversário, pontuando a passagem de tempo e o envelhecimento dele. Apesar de ter vários acertos, devido ao ao longo período de tempo em que a história se desenvolve, alguns fatos importantes acabam se perdendo e acontecem sem explicação, como, por exemplo, o que fez o protagonista sentir desejo de ficar com sua amiga mesmo sendo homossexual ou qual motivo o tornou ateu, mesmo tendo nascido em uma família religiosa. Perguntas que ficam sem respostas.

Outro fator da época bem recriado é o preconceito que as pessoas tinham com homossexuais. O roteiro, escrito por François Boulay e por Vallé, é inteligente em não destacar o preconceito com diálogos bruscos ou apelativos, algo que pareceria forçado, mas cria acertadamente um ambiente homofóbico através de comentários simples, como no diálogo onde os irmãos (mesmo que por brincadeira) chamam uns aos outros de “viadinhos” e mesmo que essas palavras não sejam direcionadas a Zac, reforçam que, naquele tempo, o simples fato de insinuar que alguém era homossexual soava como uma ofensa (como se houvesse algum demérito em ser gay).

Quem sente o peso desse ambiente homofóbico é Zac, interpretado por Marc-André Grondrin, o ator constrói um personagem cativante, transmitindo toda a rebeldia do protagonista e a dor em não ser aceito pelo pai por simplesmente ter sentimentos diferentes dos demais. Aliás, Michel Côté, que interpreta Gervais, é o destaque do elenco, sabendo dosar perfeitamente o amor que sente por cada um de seus filhos, mas também destacando como o preconceito bloqueia seus sentimentos por Zac. A química entre os dois é ótima e todas os momentos onde os dois contracenam juntos são relevantes para a narrativa, solidificando a relação conturbada que existe entre eles.

Além de criar ótimos diálogos, o roteiro constrói um belo arco dramático de pai e filho, acompanhando o desenvolvimento de ambos como personagens, culminando em um final tocante, onde, não apenas Zac finalmente compreende a natureza de seus sentimentos, como Gervais também passa a aceitar o filho como ele é, sendo então dois arcos perfeitamente construídos e fechados. No que diz respeito aos outros filhos, enquanto Christian, Antoine e Yvan são pouco desenvolvidos e caem no estereótipo do nerd, atleta e gordinho, Reymond tem um destaque significativo na trama, com uma história que mostra o poder destrutivo das drogas, sendo interessante que, mesmo tendo atitudes reprováveis, o personagem consegue ser carismático, muito graças à atuação competente de Pierre-Luc Brillant, fazendo com que o público torça por ele e sinta a consequência de seus atos.

Apesar dessas divergências, perceba como a família é sempre filmada em planos de grupo, mesmo que em posições diferentes na composição, mas sempre organizados de forma conjunta, destacando que, apesar das discussões, ali existe amor e união entre os personagens.

C.R.A.Z.Y – Loucos de Amor é competente em realizar aquilo que se propõe, mas poderia ter sido mais corajoso, por exemplo, o filme em nenhum momento apresenta Zac explicitamente beijando um homem, apenas sugere isso, mas se a intenção era combater a homofobia, talvez, fosse necessário mostrar ao público como um beijo entre pessoas do mesmo sexo é algo natural. Além disso, o final vai para uma linha que insinua uma ligação espiritual entre o protagonista e sua mãe, algo muito piegas e que não combina com o que já havia sido construído. Mas, apesar disso, o longa denuncia a maldade da homofobia e como isso cega os preconceituosos. Lembrando que, enquanto Gervais não se incomodava com Raymond por brigar, beber e se drogar, achando essas atitudes de um “homem”, comentando até que Zac estava “se comportando bem” após sair de uma briga, ele deixa de ser carinhoso e manda seu filho embora apenas por ser gay. No fim da projeção, as consequências dos atos de cada um mostra com qual filho o pai deveria ter se preocupado e que as verdadeiras atitudes anormais que um ser humano pode ter é o preconceito e intolerância.

C.R.A.Z.Y – Loucos de Amor (C.R.A.Z.Y) – Canadá, 2005
Direção: Jean-Marc Vallé
Roteiro: François Boullay, Jean-Marc Vallé
Elenco: Michel Côté, Marc- André Grondin, Danielle Proulx, Pierre-Luc Brillant, Alex Gravel, Maxime Tremblay, Mariloup Wolfe, Francis Doucharme, Felix- Antoine Despatie, Émille Vallé
Duração: 127 min.

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.