Crítica | Cabaret (1972)

estrelas 4

Cabaret é um musical de grande responsabilidade dentro da “retomada” dos filmes deste gênero no bojo da indústria cinematográfica. Há diferenças de estilo e aspectos narrativos que os distanciam, mas o filme, tal como Moulin Rouge – Amor em Vermelho, fez em 2001, ao abrir as portas para uma espécie de novo interesse pelos musicais, despertou o interesse da indústria por uma linhagem de produção que havia entrado em desgaste depois dos anos 1950.

A história começa com uma apresentação na casa noturna Kit Kat Club, um espaço de fuga, local sem limitações, onde cada um, momentaneamente, podia ser diferente, numa fuga para as instabilidades do mundo externo, cheio de tensões e incertezas diante da Alemanha pré-nazista. Bob Fosse, através de seu eficiente jogo de direção, ambienta muito bem o filme nos anos 1930.

A trama gira em torno de Brian Roberts (Michael York), um recatado professor que chega dos Estados Unidos em busca de encabeçar um novo estilo de vida. Em sua incessante busca por moradia, acaba se encontrando com Sally Bowles (Lizza Minelli), uma espetaculosa garota cheia de energia, estrela do cabaret em questão, parte do espaço fílmico e título do filme.

Nas idas e vindas do cotidiano, a barreira do idioma os bloqueia inicialmente, depois os limita, para mais adiante, aproximá-los. É neste lugar que Roberts vai conhecer os ideias de liberdade até então desconhecidos, bem como contemplar as performances marcantes de Bowles, uma artista que mescla os seus talentos como cantora e dançarina.

Mais adiante, a amizade entre ambos será balanceada com a chegada de Maximiliam von Heune (Helmut Griem), um poderoso barão interessado em incluir Sally como uma de suas posses. Ela, aparentemente forte e dona de si, na verdade é tem as suas inseguranças e carrega uma ingenuidade emocionante, o que nos aponta a qualidade do roteiro do filme, material preocupado em construir personagens esféricos que nos surpreendem bastante. Robert, mais adiante, também vai se desenvolver e mostrar que necessita viver de acordo com as suas vontades, envolvendo-se em situações que remetem a busca de prazer e travessias entre o limiar do tradicionalismo e as fronteiras da liberdade de expressão.

Ainda sobre os personagens, Liza Minelli constrói a sua heroína com bastante competência. Ela encarna muito bem a mulher da classe artística que encontra na casa noturna um espaço fértil para semear a sua ojeriza pelos valores tradicionais que pregam para a mulher a cartilha da boa moça que precisa cozinhar para o marido, engravidar, cuidar dos filhos, lavar fraldas e ser, de alguma forma subserviente. A sua escolha está no palco, nas performances, na conexão entre dança e canto, momentos em que ela expressa as suas ânsias.

No que diz respeito aos aspectos da linguagem cinematográfica, Bob Fosse dá uma show na direção. O jogo de espelhos, o clima de embriaguez do espaço, a eficiência da montagem e a segurança dos atores diante dos diálogos coesos reforçam os motivos que levaram o filme a ganhar oito prêmios na cerimônia do Oscar, perdendo Melhor Filme para O Poderoso Chefão, convenhamos, um concorrente de peso.

Para o espectador que ama os musicais “purpurinados”, um aviso: esqueça os números fantasiosos de amor. Não que eles sejam ruins, afinal, há formas e formas de exercer a ludicidade, mas no caso deste musical, as apresentações geralmente ocorrem apenas dentro da casa noturna e são como no estilo videoclipes inseridos na história, por isso, não espere que do nada, enquanto utiliza maquiagem ou toma banho, uma personagem comece a cantarolar do nada e arrastar a todos os coadjuvantes que estiverem por perto. Neste quesito, quem assistiu ao divertido Burlesque, com Cher e Christina Aguilera, entenderá a estrutura a que me refiro.

Cabaret está situado em 1931, momento em que o partido nazista estava prestes a ocupar todos os assentos do parlamento alemão. A Alemanha, atolada em dívidas e em vias de caos social, via a possibilidade da subida de Hitler ao poder ao passo que o chanceler alcançava mais prestígio dentro das disputas políticas internas. O filme, por sua vez, não se contenta em enfeitar o período e mostrar a casa noturna como espaço para os alemães desanuviarem dos problemas, ao contrário, através dos diálogos, das letras das canções e da câmera que denuncia através de um simples enquadramento, a situação política do local, prestes a dar espaço para um dos maiores distúrbios éticos e sociais da história da humanidade.

Cabaret (Cabaret) – EUA /1972
Direção: Bob Fosse
Roteiro: Jay Presson Allen
Elenco: Angelika Koch, Elisabeth Neumann-Viertel, Estrongo Nachama, Fritz Wepper, Georg Hartmann, Gerd Vespermann, Gitta Schmidt, Helen Velkovorska, Helen Vita, Helmut Griem, Inge Jaeger, Joel Grey, Kathryn Doby, Liza Minnelli, Louise Quick, Marisa Berenson, Michael York, Ralf Wolter, Ricky Renée, Sigrid von Richthofen
Duração: 124 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.