Crítica | Cable: Bebê em Guerra

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Talvez nenhum outro personagem encarne tão bem o espírito dos quadrinhos mutantes dos anos 1990 quanto Cable. O cara tem o conjunto completo dos marcos do período: designs hiperbólicos com direito a muitos músculos, bolsos e armas de fogo; atitude badass ao nível do niilismo; passado e arco de histórias pessoais totalmente convolutos em viagens no tempo e mega-arcos mirabolantes que não levaram a lugar algum; poderes cósmicos e fenomenais tão mal explicados que ele mesmo acha mais fácil puxar um trabuco na hora da batalha do que pensar a respeito. Sério, quem nunca pensou que o poder do Cable era carregar de forma oculta dezenas de bacamartes laser surreais ou algo do tipo, que atire a primeira pedra.

Ainda que possa ser acusado de ser um personagem que ilustra didaticamente a ideia do “estilo > substância”, o espaço de página concedido ao filho futurista de Scott Summers ao longo dos mais de 25 anos desde sua criação garantiram que, por entre as camadas e mais camadas de massa magra e vírus tecnorgânico, alguma personalidade concreta fosse emergindo e que fosse tomando forma uma tentativa de dar sentido para sua profetizada grande missão de vida — recurso narrativo que por sua vez ilustra a ideia do “tiro no pé” quando falamos em quadrinhos de super-herói em eterno andamento.

Enquanto que Fabian Nicieza inovou um pouco e se aventurou em algum desenvolvimento de personagem interessante para o mutuna em Cable & Deadpool, foi alguns anos mais tarde, das cinzas do megaevento mutante Complexo de Messias que teríamos uma série que levaria o personagem para uma abordagem até então totalmente inédita a partir da estreia da segunda mensal de Cable, roteirizada pelo novelista Duane Swierczysnki. Com uma pegada forte de ficção científica e foco no desenvolvimento de personagens, a série se beneficiou de um tempo (mais ou menos) circunscrito para desenvolver a história da viagem para proteger a bebê messias mutante. Com data para acabar, as coisas tendem a funcionar melhor!

A bela arte de Ariel Olivetti.

A visão de Swierczysnki nos traz um outro ângulo do personagem, bastante diferente do líder revolucionário tecnológico brutamontes com que estamos acostumados. Temos aqui um Cable que aparenta começar a sentir o peso da idade, tentando a todo custo proteger o último bebê mutante através do tempo em uma missão que rapidamente se transforma em uma viagem só de ida, quando o dispositivo de viagem no tempo falha e perde a capacidade de dar pulos para o passado (mas é claro!).

Equipado com armamentos de segunda mão trazidos da época atual, que parecem a mais pura sucata quando comparados com a tecnologia Trabuco Laser de Três Metros™ com a qual o mutante está acostumado a operar, Nathan chega a um cenário pós-apocalíptico reminescente de Mad Max ou Fallout, sem plano algum que não o seu instinto de sobrevivência. Mas ele não está sozinho. Sem que ele saiba, em seu encalço está ninguém menos do que o policial do futuro Lucas Bishop, cuja única coisa que o mantém vivo é literalmente a pura vontade de matar o bebê. Sem que Cable soubesse, Bishop sobreviveu aos eventos finais de Complexo de Messias, roubou umas tralhas do Forge e partiu para a caçada através do tempo.

A premissa de parear dois personagens com backgrounds tão semelhantes, mas que pouco se interconectaram (o futuro de Bishop é uma linha do tempo diferente da de Cable, e em geral seus núcleos não tiveram muita interação pessoal até então) é bastante interessante em dois níveis. Primeiro, pelo fato de que em termos de habilidades e táticas de combate eles funcionam muito bem como oponentes para um desafio acirrado: dois soldados viajantes do tempo com muita experiência em situações extremas. Por outro lado, são duas mentes extremamente pragmáticas porém que operam com filosofias morais bastante diferentes: Bishop tem uma leitura de justiça que sempre o aproxima de uma postura mais conservadora e autoritária, enquanto que Cable com o tempo foi se tornando um cético anarquista.

Lucas Bishop cansou de ser o good cop!

Pudera: ser um ex-bebê messiânico mandado para o futuro que agora carrega outro bebê messias que pode ou não ser a reencarnação da pessoa que serviu de base para sua mãe se clonada e/ou do pássaro de fogo cósmico que a encarnou tempos atrás é o tipo de experiência que deve abrir a sua mente para pensar fora da caixa. Bem fora. O paralelo entre os dois é astutamente alimentado visualmente pelo fato de que Lucas ganha aqui seu próprio braço mecânico, após perder o original para uma bela mordida do Predador X. Um duelo de iguais através do tempo, com ambos os lados não tendo nada (ou tendo tudo) a perder!

O outro ponto no qual a escolha funciona, além de servir para preparar a série atual, é como um uso astuto das pontas soltas deixadas pela complicada cronologia mutante noventista. O trabalho, iniciado em Complexo de Messias, lança mão de um leve retcon na história pessoal de Bishop afim de opor as linhas do tempo futurísticas que conhecemos e tentar construir com elas uma trama que indica o bebê como sendo justamente o ponto de bifurcação. Assim, com um mínimo de set-up e exposição, a trama toda garante estabelecer uma boa atmosfera de importância e de consequência para a perseguição. Mesmo que no fundo o leitor saiba que a bebê voltará em algum momento a figurar no próximo grande crossover mutante (que acabou sendo o Segundo Advento, após um encontro com a X-Force em Guerra Messiânica), o senso de urgência e perigo é bem trabalho ao ponto de que isso não interfira em nada na leitura dessas aventuras futurísticas.

Nesse sentido, a narrativa de Swierczysnki é muito precisa e bem realizada. Alternando entre os monólogos internos de Cable e Bishop, temos claras a dimensão de suas motivações e conseguimos ver até que ponto eles estão dispostos a ir para tentar alcançar seu objetivo. Isso empresta um peso especial para as várias cenas de ação, que têm um caráter cinematográfico na arte fantástica de Ariel Olivetti, que lança mão de um estilo que imita a pintura, não no sentido etéreo e fantástico de um Alex Ross mas sim do realismo pedregoso de Clayton Crain. Soma-se a esse conjunto a subtrama da garçonete Sophie Pettit, que implora a Cable a ajuda contra as milícias locais que aterrorizam o povo e assassinaram o seu pai, dando um peso de realidade e relativizando até mesmo a missão de Cable.

Não é porque todos morreram e você é o último X-Men restante que você vai deixar de atualizar seu uniforme de tempos em tempos, né?

A narrativa joga muito bem com as diferenças de perspectiva, com Nathan julgando como triviais as preocupações de Sophie, ao passo que ela o considera praticamente delirante (quem pode culpá-la?). Ao mesmo tempo, Nathan se apoia na companhia da moça e na ajuda emocional que ela oferece a ele em lidar com a situação e com o bebê, que foi o que os aproximou desde o início. Do conflito à base de pólvora e facas do começo do arco, a coisa escala com a chegada do pupilo do coração Míssil, em sua versão envelhecida e amarga porém ainda na luta, e dos recursos encontrados na Mansão Xavier.

A batalha decisiva entre a a milícia de Bishop e os últimos X-Men desta linha temporal (Cable com um bebê armorizado, Míssil e Sophie Pettit) traz um peso dramático muito bem construído, com o sofrimento das histórias de Sam e Sophie contrabalanceando o fanatismo psicótico de Bishop, que começa a justificar o assassinato e a destruição sob o argumento de que, uma vez que o bebê for morto, toda essa linha do tempo desaparecerá e tudo que ele fez consequentemente será retroativamente apagado. Tem coisa mais arrepiante que um fanático equipado com um argumento desse nível?

Bebê em Guerra é um excelente início para a segunda revista mensal de Cable. Mostrando o protagonista sob ângulos até então pouco explorados, o arco traz um setting diferente e criativo e uma dinâmica instigante que toma seu tempo para construir uma tensão empolgante, contrapondo o perigo real e imediato das situações em que os soldados oponentes se encontram com o panorama mais geral da coisa, que envolve muito mais do que essa fatia do contínuo temporal. Uma leitura obrigatória para qualquer um que tem o mínimo interesse em Cable ou Bishop — mas que é melhor se lida após Guerra Messiânica, que serve como contextualização básica para os eventos mostrados aqui.

Cable: Bebê em Guerra (Cable Vol. 2 #1 a 7:  War Baby) — EUA, 2008
Publicação no Brasil: X-Men Extra #88 a 92 (Ed. Panini, Abril a Agosto de 2009)
Roteiro: Duane Swierczysnki
Arte: Ariel Olivetti
Capa: Ariel Olivetti, John Romita Jr., Rob Liefeld
Editora: Marvel Comics
Editoria: Axel Alonso
Páginas: 125

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.