Crítica | Cabra Marcado Para Morrer

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Depois de passar por Pernambuco, a UNE-Volante chegou à Paraíba no dia 14 de abril. Duas semanas antes, João Pedro Teixeira, fundador e líder da Liga Camponesa de Sapé, tinha sido assassinado. No dia seguinte a nossa chegada, realizou-se em Sapé, a uns 50 km de João Pessoa, um comício de protesto contra o assassinato”. São com essas palavras que Eduardo Coutinho inicia Cabra Marcado Para Morrer, filme eleito pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema como o melhor documentário brasileiro de todos os tempos.

É importante salientar que era 1962 quando João Pedro Teixeira foi morto numa emboscada. Era 1964 quando a tentativa de Coutinho levar essa história para as telas foi interrompida pelo golpe militar. Era 1984 quando Coutinho teve coragem de retomar aquele tema perigoso e urgente. Hoje, lideranças rurais ainda são brutalmente assassinadas, de modo que no Brasil de 2018 (e além) ainda cabe ver e rever esse filme com gosto amargo na boca, provando de sua perenidade.

Como exercício formal, o filme é uma experiência criativa de montagem, na qual o passado é revisitado no presente para apontar os caminhos do futuro. A narrativa que mescla depoimentos, manchetes e representação é muito bem engendrada, oferecendo duas horas de exímio trabalho de reportagem.

A trajetória dos líderes e contemporâneos da Liga Camponesa, fundada no início dos anos 60, é um misto de luta e medo. Era preciso brigar por direitos e buscar a união entre os trabalhadores, mas “se botasse o nome de sindicato, a gente naufragava, a gente era morto”, revelou João Virginio Silva, um dos nomes fundamentais para entender a tragédia do Brasil campesino. Foi dando voz a pessoas que estavam marcadas para morrer — mas tiveram a sorte de escapar — que Coutinho fez seu manifesto contra a violência.

A técnica de entrevista usada por Coutinho é única — fato que o diretor provou ao longo de sua profícua carreira. São perguntas diretas e objetivas que, no entanto, têm um fundo falso, uma chave debaixo do tapete. Tirada a casca simplória da curiosidade, as indagações permitem revelações espontâneas e verdades até então resguardadas. As personagens desse documentário, recém-saídas de uma ditadura, abrem mão da clandestinidade social e política a que foram submetidas para falarem sobre bastidores e feridas das Ligas Camponesas. Toda essa franqueza, por vezes arredia, só é possível por causa do carisma do diretor, tratado por Elizabeth Teixeira, a viúva de Pedro, não como uma autoridade, mas como um igual capaz de se tornar mais um braço articulado das causas humanistas. A realização do documentário foi, sem dúvida, o maior suspiro democrático que Elizabeth teve, uma vez que ela foi obrigada a abandonar os filhos e assumir uma nova identidade por causa da perseguição política.

Em síntese, com esse filme-denúncia, Coutinho nos faz compreender que as querelas do Brasil não prescrevem. Os dramas cujo pilar se encontra no terreno dos direitos civis, da solidariedade e da cidadania parecem não ter fim nem solução por aqui. Tanto como raiz quanto como sintoma de um país que não avança, Cabra Marcado Para Morrer é um legado pungente e grandioso do recorrente mal-estar brasileiro.

Cabra Marcado Para Morrer (Brasil, 1984)
Direção: Eduardo Coutinho
Roteiro: Eduardo Coutinho
Duração: 120 minutos

MAURÍCIO ROSA . . . Maurício Rosa é um cara do século 19 ou dos anos 70 ou do futuro, mas, definitivamente, não é um homem do aqui e agora. É poeta ocasional e brinca com as palavras para produzir textura e afeto. Tem 26 anos e persegue uma dramaturgia para o desenredo desse mundo. Pisciano, destro, cinéfilo e eterno amante das mulheres da arte.