Crítica | Caça-Fantasmas (2016)

estrelas 4

Acho que nenhum filme foi tão polêmico nos últimos anos quanto o novo Caça-Fantasmas. Isso porque não estamos falando de um Star Wars ou um De Volta para o Futuro, mas o icônico filme de Ivan Reitman revelou-se dono de uma legião de fãs fidelíssima que definitivamente não aceitou bem a ideia de um longa sem o elenco original composto por Bill Murray, Dan Aykroyd, Ernie Hudson e o falecido Harold Ramis. A situação ficou ainda mais polêmica quando o diretor Paul Feig optou por fazer uma nova equipe composta apenas de mulheres, gerando uma campanha de marketing extremamente prejudicada pela recepção negativa da internet, que transformou o trailer do filme no vídeo mais “descurtido” da História do YouTube.

E precisava de tanto ódio? Pelo que vemos em tela, absolutamente não.

A trama do filme não segue os eventos dos dois filmes originais, optando por um reboot onde encontramos novos personagens. A começar por Erin Gilbert (Kristen Wiig), que é demitida de seu emprego na prestigiada Universidade de Columbia após sua amiga Abby Yates (Melissa McCarthy) divulgar um livro debochado onde as duas tentavam comprovar a existência de fantasmas. Com a iminência cada vez mais crível de uma infestação sobrenatural em Manhattan, Erin e Abby se aliam à engenheira Jillian Holtzmann (Kate McKinnon) e a funcionária de metrô Patty Tolan (Leslie Jones) para formar uma equipe que controle a situação e estude fenômenos paranormais.

O roteiro de Katie Dippold e Feig segue de perto a estrutura do original, mas seria muito injusto classificar este filme como um remake. Apenas a ideia de formação de uma equipe diversa entre si e um ataque fantasmagórico à Nova York são os elementos mais fortes, mas a dupla de fato criou uma nova história que se desenrola de forma muito eficiente. A visão pública das Caça-Fantasmas é algo que muda radicalmente aqui, adaptando para o mundo real a ideia de um grupo sair procurando fantasmas: bem representado por Andy Garcia, o Prefeito de Nova York opta por trabalhar em conjunto com o grupo, mas publicamente os taxando como fraudes a fim de manter a “calma da população”, algo que funciona de forma diferente à figura pública mais “celebridade” dos Caça-Fantasmas de 1984.

A nova equipe também é algo inteiramente novo. Não temos a tentativa de emular os papéis de Venkman, Stantz ou Spengler, e isso é o principal acerto desta nova versão. Kristen Wiig mantém seu estilo de humor tradicional para a “líder” do grupo que lentamente vai abraçando de volta seu passado esquecido, e a atriz se sai bem nos excessos e até em uma cena incrivelmente dramática que oferece um insight valioso da personagem. Já parceira de longa data de Feig, Melissa McCarthy surge um pouco mais controlada como Abby, mas garante bons momentos. Saída do Saturday Night Live, Leslie Jones está engraçadíssima como Patty, ainda que muitas vezes adotando o estereótipo da “mulher negra estabanada”, mas que Jones o faz tão bem e de forma tão divertida que podemos perdoar e nos afeiçoar com a personagem; que vai além dessa denominação.

Mas é mesmo Kate McKinnon quem rouba o show. Outra “ex-aluna” do SNL, McKinnon faz de Holtzmann a personagem mais interessante e que sempre queremos ver em tela, dada sua personalidade maluquinha e os beats de humor que funcionam insanamente bem. Às vezes basta um olhar, um gesto ou sorriso torto para que McKinnon acerte em cheio, algo muito favorecido pela boa montagem do filme que habilidosamente lhe oferece pequenos momentos para brilhar individualmente. E, pasmem, Chris Hemsworth é outro dos elementos mais engraçados do filme na pele do bobalhão Kevin, o recepcionista do grupo. O nonsense do personagem é simplesmente hilário, rendendo constantes piadas quanto a seu porte físico e seu intelecto que faz Homer Simpson parecer Stephen Hawking.

Em termos de direção, este certamente é o melhor trabalho de Paul Feig. Abraçando com louvor o caráter cartunesco da história, Feig e o diretor de fotografia Robert D. Yeoman apostam em uma paleta colorida e vibrante, além de termos efeitos visuais muito consistentes para criação e design dos fantasmas; que surgem tanto em um aspecto mais cartoon quanto algo mais assustador. O uso que Feig faz do 3D é algo primoroso, sendo criativo ao brincar com a razão de aspecto para aumentar o impacto de objetos e elementos que são jogados na direção do espectador. Também temos uma única sequência no formato IMAX, que fica ainda mais memorável pelo uso da tela expandida.

De problemas, o antagonista do filme vivido por Neil Casey não é uma figura exatamente memorável, ainda que seu plano maligno seja bem construído e executado – principalmente ao utilizar a habilidade de possessão como ferramenta narrativa. O próprio Feig comete alguns excessos ao apostar em piadas que não funcionam quando alongadas demais, algo que certamente deve ser resultado de improvisos; por exemplo, há um momento excruciantemente longo onde as personagens debatem sobre a expressão “coelho saiu da cartola” que representa uma terrível quebra de ritmo.

O novo Caça-Fantasmas é um ótimo recomeço para a franquia tão adorada pelos fãs. Traz uma história nova e povoada por personagens carismáticas e que definitivamente fazem valer a experiência, beneficiada pela direção estilosa de Paul Feig e um roteiro que deve provocar muitas risadas. Às vezes, mudanças são mais do que benéficas.

Caça-Fantasmas (Ghostbusters, EUA – 2016)

Direção: Paul Feig
Roteiro: Katie Dippold, Paul Feig
Elenco: Kristen Wiig, Melissa McCarthy, Kate McKinnon, Leslie Jones, Chris Hemsworth, Charles Dance, Andy Garcia, Bill Murray, Sigourney Weaver, Dan Aykroyd, Ernie Hudson
Duração: 116 min.

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.