Crítica | Caçador de Assassinos

estrelas 3,5

Assistir e, naturalmente, escrever sobre Caçador de Assassinos não é uma tarefa fácil, por se tratar de uma adaptação do romance Dragão Vermelho, de Thomas Harris, a figura de Hannibal Lecter vem imediatamente à cabeça e já construímos uma ideia mental pautada do que conhecemos do personagem através, principalmente, de O Silêncio dos Inocentes, que garantiu a Anthony Hopkins o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pela sua encarnação do canibal e, mais recentemente, a série Hannibal, com o ótimo Mads Mikkelsen nos oferecendo uma sofisticada e apaixonante versão do doutor. Esquecemos, portanto, que o psiquiatra assassino não é o foco aqui, muito pelo contrário, sua presença na obra funciona como uma forma de construir a personalidade de Will Graham (William Petersen) além de influenciar em alguns pontos da trama diretamente.

O filme, lançado em 1986, veio muito antes do estonteante sucesso do longa que tornara Lecter (aqui interpretado por Brian Cox) em um dos maiores vilões do cinema. Acompanhamos Graham, que é convencido, pelo agente do FBI, Jack Crawford (Dennis Farina) a sair de sua aposentadoria para capturar o assassino em série conhecido apenas como Fada do Dente, antes que ele mate novamente. Will, através de sua impressionante capacidade empática, precisa pensar como o psicopata e no processo acaba reabrindo velhas feridas que o deixaram vulnerável nos últimos anos.

O filme, portanto, segue por uma via muito mais policial que, de fato, psicológica – algo bastante esperado, considerando a experiência do diretor Michael Mann (responsável por Miami Vice), com o gênero. O roteiro, do próprio Mann, nos traz uma investigação bastante coesa, não há precipitações bastante comuns a obras do estilo e efetivamente conseguimos ser convencidos de que as pistas deixadas levaram ao assassino. O impacto em Graham é visível e construído de forma orgânica dentro da obra, conseguimos sentir seu medo em retornar para os eventos que tanto o traumatizaram no passado e Petersen faz um ótimo papel nos transmitindo isso.

O texto, contudo, acaba pecando pela forma como organiza os eventos dentro da narrativa. Por um tempo o foco sai de Will e vai para Francis Dollarhyde (Tom Noonan), o Fada do Dente, ou Dragão Vermelho como se considera, causando uma ruptura no ritmo da obra, que facilmente poderia ser contornada se Dollarhyde aparecesse antes na projeção. Assistimos sua relação com Reba (Joan Allen), que acaba soando forçada demais em virtude da pressa com a qual é desenvolvida – no fim, acabamos não sentindo qualquer empatia pelo antagonista, que acaba se traduzindo como um vilão qualquer, ao passo que a tentativa de construção de personagem não funciona efetivamente – suas motivações são apresentadas meramente como teoria por parte dos investigadores.

Hannibal é outro que no início parece que terá uma maior relevância, mas acaba sendo jogado para o escanteio na segunda metade da trama. Uma verdadeira pena, já que o trabalho de Brian Cox nos oferece um fascinante olhar sobre o famoso personagem. Sua participação se resume a impossibilitar Will de abandonar o caso no meio, ao fornecer o endereço da casa do consultor do FBI. Em defesa ao roteiro de Mann, o canibal (que aqui no filme não é apresentado como tal) também tem poucas aparições no romance original, ainda que sua presença seja mais significativa no livro.

Felizmente esses deslizes do texto são contornados por uma direção sólida, que consegue evidenciar as angústias dos personagens. Essa somente falha durante o clímax, que faz um uso desnecessário e até estranho de se assistir de loops, que, na tentativa de aumentar a dramaticidade da cena acabam apenas causando um desconforto visual no espectador. Uma verdadeira pena, considerando que a tensão fora tão bem construída até esse ponto. Dito isso, o desfecho ainda conta com sua força, nos deixando com uma percepção positiva da obra como um todo.

Caçador de Assassinos pode não ser a adaptação que esperamos de Dragão Vermelho, mas certamente é capaz de nos entreter, através de uma história bem articulada, ainda que com seus defeitos. Temos aqui um olhar diferenciado sobre um dos livros que nos traria um dos maiores vilões do cinema de todos os tempos e, é claro, uma outra versão de Hannibal Lecter através da atuação de Brian Cox. Acima de tudo, porém, esse é um consistente filme policial, que vale ser assistido ainda que a título de curiosidade, tendo resistido solidamente ao teste do tempo.

Caçador de Assassinos (Manhunter) – EUA, 1986
Direção: Michael Mann
Roteiro: Michael Mann (baseado no livro de Thomas Harris)
Elenco: William Petersen, Kim Greist, Joan Allen, Brian Cox, Dennis Farina, Tom Noonan, Stephen Lang
Duração: 119 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.