Crítica | Caçador de Marte: Sonho Febril (1988)

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Todo mundo sabe a dor que é perder alguém. E quanto mais próxima é a relação com a pessoa que se vai, mais profunda é a marca, mas frequentes são as memórias e cada vez mais melancolia se tem em relação a esta ausência, mesmo que com o passar do tempo a vida siga adiante e tudo pareça normal de novo. Mas uma grande perda é sempre uma grande perda e ela jamais se dissipará. Aí reside um perigo. Ou a pessoa aprende a viver com a ausência e faz dos momentos de tristeza, quando vier a lembrança, um passo para acessar os bons momentos com aquele ou aquela que partiu… ou são criados mecanismos de defesa que podem afastar o pensamento, aparentemente evitando a dor que, lá no fundo, abre uma ferida cada vez maior, que mais dia menos dia irá cobrar o seu preço. Exatamente como fez com o Caçador de Marte, nesta sua história de origem após Crise nas Infinitas Terras.

Escrita por J.M. DeMatteis, com Mark Badger (que desenhou e coloriu a minissérie) na edição #2, esta saga em quatro edições é classificada como o Volume Um das histórias solo do Caçador de Marte (Ajax, por um tempo, no Brasil) e os títulos de suas revistas em separado nos dão algumas deixas sobre os tomentos pelos quais o Marciano passa ao longa da aventura. Na edição um, Fever Dream, temos um ótimo ponto de continuidade com os eventos do primeiro anual da Liga da Justiça Internacional, Germ Warfare (1987), onde o Caçador engole um esporo senciente que estava tornando o mundo um caos. Sua biologia e metabolismo neutralizariam o vírus, embora o herói ainda pudesse senti-lo. Nesta minissérie, algum tempo se passou desde o fato e o vírus então começou a abrir alguns canais mentais de J’onn J’onzz, fazendo-o ver um “demônio marciano” que sabia existir apenas pelas lendas contadas por sua avó.

A partir da edição #2, Burning Bright, o roteiro começa a tornar o que inicialmente era só o reflexo de algo muito ruim hospedado no corpo de J’onn em um encontro que o herói precisava ter para entender a si mesmo e se curar, não do vírus, mas de uma memória escondida. A memória de perdas que não haviam sido processadas. DeMatteis ainda consegue colocar uma parte da Liga (Batman, Gladiador Dourado, Soviete Supremo, Besouro Azul e Senhor Milagre) em uma busca pelo Caçador, que acabará em uma sequência excelente na embaixada italiana e uma reunião de encerramento de história na casa de um cientista muito importante…

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Um encontro “impossível” e memórias de um passado inventado…

A edições #3 (Who Am I?) e #4 (Welcome Home) nos encaminham para uma viagem ao mesmo tempo aterradora e tocante do Caçador de Marte até às suas origens, descobrindo mais sobre a sua chegada ao planeta Terra, o motivo pelo qual ele veio, o por quê ele tem medo e enfraquece quando está diante do fogo e alguns detalhes muito importantes sobre sua personalidade. Enquanto as duas primeiras revistas semearam o medo e uma ameaça, as duas últimas nos fazem ver a entidade H’ronmeer por um outro ângulo. E como sempre, ao nos dispormos observar as coisas de um ângulo diferente, nossa percepção muda por completo. O que antes parecia ser “maléfico” se torna uma “oportunidade” e o texto usa essa mesma premissa para falar um pouco sobre o tempo das coisas. O Caçador passou muitos anos atormentado por uma imagem de seu passado. Ele precisava amadurecer ou chegar a um certo ponto de coragem onde enfrentar essa face de sua vida seria minimamente suportável.

A arte e cores de Mark Badger ajudam a incentivar essa nossa visão. O artista brinca com formas o tempo inteiro, dando uma impressão surreal para os quadros de contexto e uma finalização de aparência aquarelada aqui e ali, mostrando a fragilidade física e mental do Caçador e sua forma alterada de ver o mundo enquanto estava sob o efeito das “alucinações”. A soltura artística acabou sendo perfeita para Badger jogar com a ideia de transformação do corpo dos marcianos, algo que J’onn já tinha se referido no passado e que ainda bem foi mantido com muita elegância artística nesta minissérie, tendo inclusive um momento de pura alegria e poesia nas duas páginas finais.

Toda dor, assim como toda alegria, tem um fim. A validade das nossas emoções e da nossa vida é justamente o que nos faz humanos, a percepção da passagem do tempo, da necessidade de transformação e da valorização daquilo que nos faz bem. Ao fim desta saga, a impressão que temos é que este mesmo valor foi aprendido pelo Caçador de Marte, agora ligado de maneira equilibrada, mesmo que conceitualmente triste, com a praga que atingiu Marte; com a morte daqueles que amava; com o fogo e com a situação que o trouxe à Terra, fazendo dele uma “outra pessoa”. Depois do martírio sofrido e da tristeza guardada, depois de um importante encontro, de um pedido e de um verdadeiro enlevo pessoal, o Caçador está livre. E feliz. Um ponto narrativo perfeito e em timing preciso para terminar uma grande história.

Martian Manhunter Vol.1 (EUA, 1988)
DC Comics

Roteiro: J.M. DeMatteis (com Mark Badger na edição #2)
Arte: Mark Badger
Cores: Mark Badger
Letras: Bob Lappan
Capas: Mark Badger, Alex Jay
Editoria: Andrew Helfer
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.