Crítica | Caçadores de Emoção – Além do Limite (2015)

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estrelas 3

Por mais bizarra, muito ou pouco empolgante que pareça a premissa de uma obra, o que vale mesmo é a sua execução. Em seu desenvolvimento, na estratégia que apresenta para conquistar seu público, é que a obra transparece o quão estranha, muito ou pouco eficaz ela é.

No cinema, não é diferente. Não só para ele, aliás, a questão nunca é a história, mas, sim, como ela é contada. Isso, e apenas isso, diferencia uma história ruim de uma mediana, boa, ótima ou simplesmente estupenda. Isso é o que representa a única, e tão somente única razão pela qual críticos apontam a crise criativa vivida pelo cinema – quem dera se fosse apenas por ele.

O ponto é que mesmo com filmes e manifestações artísticas em geral apresentando boas ideias, ainda que um tanto amalucados e meio surreais em alguns casos, simplesmente não conseguem sair do horrendo ao raso, em sua maioria, na sustentação, no aprofundamento do argumento defendido. No caso de Caçadores de Emoção – Além do Limite, o longa sai do horrendo ou do ruim, mas tampouco vai muito além disso. Mais uma reciclagem cinematográfica de um produto que fazia sentido em sua época – começo dos anos 90 -, mas sem receber a devida releitura, ganhando apenas o bom e velho ar moderno, sem o necessário aprofundamento conceitual contemporâneo, possui um roteiro fraco, que em nada ajuda um protagonista sem nenhum carisma ou o restante do elenco e apresenta personagens que não são minimamente desenvolvidos – estão lá apenas para preencher sua camada no preparo de um recheio quase sem gosto.

Na trama, o mocinho, Johnny Utah (Luke Bracey), depois de um evento traumático em suas aventuras com esportes radicais, é aceito no FBI. Quando um misterioso grupo começa a praticar roubos com uma ousadia ímpar em termos atléticos, com ações inesperadas, o rapaz elabora a teoria de que os tais buscam completar certo desafio dos esportes radicais, de natureza mística, e propõe-se a localizar e deter o grupo. Tudo parece bastante interessante até que o tal grupo é descoberto da forma mais desinteressante possível. Sim, porque quanto mais um grupo de suspeitos permanece na tela, mais óbvio parece que só podem ser eles mesmos os tais criminosos, embora nosso agente só consiga uma prova concreta disso muito, mas muito depois. Ainda assim, a quebra de expectativa se justificaria se ao menos o tal grupo, além do protagonista, fosse bem desenvolvido, mas, como dito, não é o que acontece. O maior ganho do filme, que de fato, segundo esta crítica, concede a ele o status de regular, é a provocação que o bando, e em especial seu líder, personifica quanto a reconhecer seus limites – como o título em português entrega mastigadinho – a ponto de constatar onde termina seu caminho, sua trilha, sua escolha, e começa a do outro. O problema é que o roteiro não sabe ligar essa provocação a um estudo mais apurado do psicológico dos personagens. Édgar Ramirez, na pele do líder Bodhi, se esforça, e muito, mas mesmo ele não pode dar mais do que o texto permite.

Já a trilha sonora até possui um ou outro momento interessante, mas, com seus constantes estrondos orquestrados, moda que parece ter surgido não apenas em filmes, mas também em trailers depois da popularização das últimas e, elas sim, competentes composições de Hans Zimmer, só consegue irritar na maior parte do tempo. No mais, o roteiro raso impede que mesmo uma perseguição alucinada, inevitavelmente radical pelo globo empolgue a metade do que poderia – e sequências de ação, pouco ou muito problemáticas, poderiam ser, certamente, uma falha bem menor em relação ao resultado final.

Valerá o ingresso? Bem, acendidas as luzes, talvez a lembrança do seu bolso de outrora em relação ao atual possam lhe responder.

Caçadores de Emoção – Além do Limite (Point Break), EUA – 2015
Direção: Ericson Core
Roteiro: Kurt Wimmer (baseado em história de Rick King, W. Peter Iliff e Kurt Wimmer)
Elenco: Edgar Ramirez, Luke Bracey, Ray Winstone, Teresa Palmer, Matias Varela, Clemens Schick, Tobias Santelmann, Max Thieriot, Delroy Lindo, Nikolai Kinski
Duração: 114 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.