Crítica | Caché (2005)

PLANO CRITICO CACHÉ PLANO CRITICO

Durante a conferência de imprensa em Cannes, após a exibição de Caché, o diretor e roteirista do filme, Michael Haneke, disse a seguinte frase: “Filmes são 24 mentiras por segundo a serviço da verdade, ou a serviço da tentativa de achar a verdade”. O que Haneke quer dizer, e muitos artistas e estudiosos esquecem, é que, quando se assiste a um filme, o que está sendo visto é o que o diretor quer que se veja, para trazer seu ponto de vista ao expectador. O que se vê é o que foi deliberadamente escolhido para se enquadrar em cada frame — e o que foi, também deliberadamente, escolhido para não entrar no frame. O que Haneke faz em Caché é uma seca resposta à pergunta: “o que é o cinema?”. O que o austríaco, quiçá o europeu, mais adorado do cinema em anos recentes faz nesse filme é a grande percepção do que é o cinema, por que o adoramos, por que o odiamos. Sem maquiagem, com Haneke é tudo muito cru – mas está tudo lá.

O filme nos é exposto através da ausência, do que, paradoxalmente, nos é escondido. Haneke parte da premissa de Estrada Perdida de David Lynch, em uma história cujo casal protagonista, Georges (Daniel Auteuil) e Anne (Juliette Binoche) Laurent, começa a receber à porta da casa fitas que, quando reproduzidas, mostram a frente de sua casa, filmada durante horas. Simples assim, nada mais do que a filmagem da casa em um dia normal, e logo as fitas passam a vir embrulhadas em desenhos perturbadores que começam a lembrar Georges de um episódio (atenção agora) secreto (escondido) de seu passado. Haneke engata na mesma estranheza e tensão que Lynch em seu filme, porém fazendo o exato oposto, substituindo o surrealismo de encher os olhos, por um realismo nu e cru. Ele esconde (e expõe) três pontos principais no filme para que tudo vá em sua tentativa de mostrar a verdade: o que estamos vendo, a violência, e quem está contra a família.

SPOILERS!

Acontece, durante todo o filme, um jogo de imagens que Haneke faz com o expectador. Em muitas cenas que começamos a acompanhar, está indo tudo bem. Tentamos entender muitas vezes por quê de repente fomos parar ali, mas ali estamos e acompanhamos a cena, até sermos completamente cortados dela, e descobrimos que estávamos o tempo todo vendo uma filmagem, também assistida pelos personagens, na televisão. Essas cenas acontecem em momentos pontuais do filme para nos fazer questionar o que é real, para nos alertar que nem tudo é o que pensamos, nos fazer duvidar do que é mostrado e pensar no que está escondido. É assim que Haneke faz, não há um moralismo explícito. Algumas cenas são filmadas de ângulos que fazem parecer a nós câmeras escondidas no cenário, aumentando mais ainda a paranoia do expectador. Tudo que nos é mostrado é minimamente calculado, assim como o que nos é escondido dos frames, como faria o diretor em Violência Gratuita, só que dessa vez sem aquela ênfase toda.

Nesse filme, como em vários filmes do cineasta, a violência é tão presente que chega a incomodar. O que acontece em Caché é que os personagens principais, burgueses de origem, nunca se veem como autores de atos violentos. Eles contam com a boa e velha etiqueta de boa convivência, estão sempre bem portados e controlados. Mas a violência cai sobre eles. São pessoas que agem dentro das regras de bem-estar social… mas carregam uma pesada culpa dentro de si. Que culpa? Bem, cada um terá a sua para dizer. A culpa de Georges cai sobre ele e sua família, e o protagonista, um intelectual recatado, começa a perder o controle e mostrar suas garras, que escondia até certo ponto na história. O filme, então, inicia uma exposição de atos autoritários – às vezes até de chantagem – cometidos por Georges. A violência, isso o filme não nos esconde, é exposta com a crueza necessária. O longa nos mostra, nesse ponto, o que nos é escondido na vida real, a violência que vive à sombra dos bons moços, a violência velada do dia a dia. É então que vemos a mancha vermelha de sangue na pureza branca da “parte boa da sociedade”. Aliás, essa é a capa do filme.

O catalisador de toda a trama, esse é o mais escondido. Quem está por trás das câmeras de filmagens que aterroriza a família. Esse é o mesmo que está por trás das câmeras que filmam o longa. É Haneke que se esconde enquanto manipula seus personagens para dentro de uma crise familiar, e os alfineta com suas culpas. Ele está muito bem representado no filme pela personagem da mãe de Georges (Annie Girardot), que aparece em uma só cena. O filho começa a listar as pessoas de sua família, dizendo como todos vão bem, enquanto a câmera mostra o rosto da mãe, desconfiada, com um olhar que diz “vão mesmo?”. Mas a parte do diálogo em que Haneke entrega que está ali, incorporado, é quando a senhora fala que não sente problema algum em ficar sozinha em casa, pois ela tem um controle remoto para assistir à televisão, que a concede o poder sobre a TV, inclusive de calá-la quando quiser. Essa é a única cena que o diretor permite mostrar que está lá, vendo tudo, sabendo de tudo. Por que ele é o único que sabe que um filme são 24 mentiras por segundo.

Juntando todos os três pontos principais temos o que o filme é: um trabalho minucioso de escolher o que estará e o que não estará em cena. Que é, na verdade, o que todo filme é. Porém Michael Haneke transformou seu longa em essência disso. Seu filme é a metalinguagem que só um gênio é capaz de pensar, pois nunca está explícita ou enfática. É ridículo fazer caçadas a easter eggs em Caché, pois o filme é um easter egg per se – um com quase duas horas de duração. Nada é jogado, nada que esteja escondido (ou exposto) está à toa no filme, porque nada escapa de Haneke em sua obra máxima, porque, por fim, ele não tem nada a esconder…

Caché – França, Áustria, Alemanha, Itália, 2005
Direção: Michael Haneke
Roteiro: Michael Haneke
Elenco: Daniel Auteuil, Juliette Binoche, Lester Makedonsky, Maurice Bénichou, Annie Girardot, Daniel Duval, Nathalie Richard, Denis Podalydès, Walid Afkir, Aïssa Maïga, Bernard Le Coq
Duração: 117 minutos

GABRIEL FERREIRA VIEIRA . . . Vivi em Recife por um longo tempo... até que eu fiz uma viagem para a Inglaterra dos anos 1990. Passei tanto tempo lá, ouvindo Radiohead em um apartamento melancólico, que nem lembro mais quanto foi. Depois voltei mais duas décadas no tempo e fui para o condado de Enfield (descobri que a casa lá era mal-assombrada mesmo). Quando já não dava mais de tanta depressão eu fui pra a Itália torcer para o Juventus e aproveitar o verão. Com essa turnê pelo mundo eu me senti preparado para começar a escrever...