Crítica | Cada Um na Sua Casa

estrelas 3

Dirigido por Tim Johnson (Os Sem-Floresta e Sinbad: A Lenda dos Sete Mares), Cada Um na Sua Casa entra para a lista de animações forçadamente regulares da Dreamworks – salvo exceções, é claro. O tema relacionamento multicultural é claramente destacado no longa, mas o faz de modo pouco eficaz com uma narrativa problemática e, o que é pior, o filme no mínimo cai na armadilha de uma abordagem injusta do problema por ele levantado. Para não falar no máximo, uma abordagem propositalmente injusta, que aí sim é um problema realmente sério.

Coincidência ou não, o título brasileiro da obra (Home, no original) só vem reforçar seu caráter injusto. Na trama, uma raça alienígena, os Boov, ocupam a Terra como nova morada, buscando esconder-se de outra raça inimiga, que os persegue – e que sempre os encontra. A infiltração dos forasteiros no meio humano é satisfatória, ao menos para os Boov, até que um dos recém-chegados, Oh (voz de Jim Parsons, no original) acidentalmente envia uma mensagem rastreável aos aliens inimigos. Consequência, Oh é condenado à prisão por seu povo e foge, sem rumo. Acaba encontrando Tip (voz de Rihanna, no original), uma adolescente à procura da mãe, que, ela acredita, foi abduzida por extraterrestres – não, esta não é uma história de suspense ou terror e mesmo a abdução é tratada com tanta leveza que deve ser o ponto com o qual o expectador menos se preocupará. Obviamente desconfiada, a princípio, quanto à natureza de Oh, a garota, em companhia de seu gato, reluta em juntar-se a ele, mas acaba cedendo e os dois unem forças para tentar resolver seus respectivos problemas. Antes, porém, como é de praxe, terão de aprender a trabalhar juntos – ou será que apenas um terá de fazê-lo?

Chegamos aqui a um dos problemas da animação, talvez o mais sério deles. Praticamente em toda a história – para não dizer em cem por cento dela – Oh é quem representa o papel de desajustado, de impróprio e inadequado, até imoral perante os humanos – salvo, por exemplo, uma ou outra menção rápida à estranheza de Tip para as colegas de escola da jovem. É como se apenas Oh, ou quase que exclusivamente ele, tivesse de se adaptar ao ideal humano, porque nós, Homo sapiens sapiens somos praticamente santos, mestres em boas maneiras, em moralidade e em lidar com as diferenças. Um exemplo quase que palpável dessa relação desequilibrada se dá quando Oh mostra a Tip uma música de seu povo e a garota a despreza por completo, substituindo-a por uma canção terrestre – por sinal, da própria Rihanna – no que cabe a Oh aceitar que a música dela é melhor do que a dele e até a dançar a seu som. Intolerância em pele de diplomacia, mesmo disfarçada, não deixa de ser intolerância só porque uma produtora resolve, por exemplo, incluir pela primeira vez uma personagem negra em suas animações.

O filme tampouco parece saber ao certo para qual público é destinado – extensão de um fenômeno curioso, com nossas crianças supostamente ficando cada vez mais espertas. Por vezes, a didática do longa parece destinada à garotada da pré-escola e, no momento seguinte, a narrativa tenta atingir da juventude e adolescência aos adultos num tom totalmente destoante do anterior. Resultado: uma salada de frutas especialmente perceptível nas piadas, que tentam de tudo sem chegar a lugar nenhum, forçadas ao extremo – não minto ao dizer que, em toda a sessão – a qual, aliás, contava com um público igualmente diversificado – não ouvi uma risada sequer.

Observe-se, também, a linguagem dos Boov. Mesmo em português, algumas das redundâncias usadas por eles ao falar funcionam bem como ferramenta para reflexão acerca da mera cultura como construtora de significações, mas se depara com outra armadilha, que não só envolve a complexidade da criação de uma linguagem como, ainda pior, os problemas implicados num conflito entre linguagens.

Já a trilha sonora de Lorne Balfe é tão bela que faz lamentar não ter se destinado a uma produção melhor. As composições funcionam muito bem como uma ponte entre a proposta predominantemente alegre, mas também com um pé numa estrutura épica de narrativa. A animação também conta com faixas inéditas de Rihanna e com a canção Feel the Light, de Jennifer Lopez. Não se trata de uma trilha perfeita, é verdade – destaque para certa melodia desnecessariamente repetida em um breve espaço de tempo, no último ato da fita – o que pouco compromete o seu valor geral.

Some-se a tudo isso a já declarada boa qualidade dos efeitos visuais. Temos, portanto, um trabalho que só não é uma catástrofe graças a acertos técnicos que se destacam, a um ou outro aspecto interessante ou ponto divertido na história e a um providencial jogo narrativo de cintura, que, também proposital ou não, se não tivesse existido já poderia ter gerado grande polêmica por sua desequilibrada visão de diplomacia. Quanto ao futuro, ele é incerto.

Cada um na sua casa (Home), EUA – 2015
Direção: Tim Johnson
Roteiro: Tom J. Astle, Matt Ember (com base em obra de Adam Rex)
Elenco: Jim Parsons, Rihanna, Steve Martin, Jennifer Lopez, Matt Jones, Brian Stepanek, April Lawrence, Stephen Kearin, Lisa Stewart, April Winchell
Duração: 94 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.