Crítica | Cafarnaum

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Cafarnaum (2018) é o tipo de filme sobre as misérias sociais e humanas que nos toma de assalto. Terceiro longa-metragem de Nadine Labaki (mesma diretora de CarameloE Agora Onde Vamos?), a obra nos conta a história de um garoto libanês chamado Zain (Zain Al Rafeea), que está morando na Síria com sua família. Muitos irmãos, péssimas condições de vida, pais abusivos e que pouco se importam, no sentido humano, com os filhos maiores. Esta é a situação do garoto. Seu status social, suas dificuldades pessoais e comunitárias e as exigências que a vida lhe faz desde cedo trazem para ele uma maturidade precoce que rapidamente entristece o espectador, ainda mais por saber que esta realidade está presente, em graus diferentes, na vida de crianças miseráveis ao redor do mundo, dos refugiados de guerra e lugares que passaram por desastres naturais até vítimas de um sistema socioeconômico e de uma longa série de causas históricas cujo interesse de extinguir a fome e a miséria são nulos ou rasos.

O filme nos traz dois blocos bem distintos de ritmo para o roteiro. No primeiro deles, o ritmo é muitíssimo ágil e não só no encadeamento das cenas, mas na relação interna e movimentos de câmera utilizados pela diretora, sempre perto de Zain, seguindo-o em seu trabalho, sua relação com os irmãos, sua forma agressiva de tratar algumas pessoas. Como o ponto de partida da película é feito a partir de um flashback, instintivamente tentamos juntar as pistas dadas na abertura aos momentos onde vemos o garoto ganhar a vida, ajudar a família, demonstrar que se importa com sua irmã mais venha e tentar protegê-la de se casar cedo. Um desses pontos de abertura demoram um pouco para aparecer, mas quando enfim entram em cena, faz sentido para a proposta do filme e marca a divisão para o segundo bloco, onde o texto adota uma toada de crônica, relacionado o menino libanês com uma mulher etíope chamada Rahil (Yordanos Shiferaw) e seu filho bebê, Yonas.

Há um grande desafio humanitário aqui em jogo. O espectador não é apenas colocado em uma realidade social paupérrima (no nosso caso, como público brasileiro, não é uma realidade nova. A nossa apenas não está ligada a um contexto próximo de guerra), mas também a um fator cultural e familiar que chamam a atenção. O filme tem a crise de refugiados na Ásia como núcleo e, em torno dessa temática, adiciona ingredientes dramáticos como crime, violência, justiça, empatia co quem precisa de ajuda e relacionamento entre pais e filhos, questões que são passo-a-passo desenvolvidas pelo texto, sempre com os pés na realidade, a despeito do claro fator emocional adotado. Aqui estão os aproveitadores da desgraça dos outros, o roubo, a infância perdida, a fome, a não inclusão das crianças na escola e por aí vai. Como a fotografia segue num caminho que flerta com o documental, nossa imersão nesse ambiente é ainda maior, tendo o seu ponto de afastamento apenas no desfecho, o único tom realmente dissonante da fita.

As atuações do elenco principal são maravilhosas e mostram muito bem a sua perspectiva de olhar o mundo. O roteiro assegura essa visão ao dividir a obra em seções onde cada personagem ou núcleo de personagens podem agir, enfrentar a difícil realidade da forma que conseguem. Na segunda parte, porém, a agilidade dá lugar a uma noção de “dias que não passam“, proposta da diretora para mostrar o quanto aquela realidade ficava cada vez mais insuportável para Zain. Eu entendo que essa dinâmica rítmica pode incomodar alguns espectadores, mas não é o meu caso. O que de fato se tornou uma lombada no final foi a maneira como o garoto chegou ao Tribunal, processando os pais. Mesmo com o desfecho muitíssimo emocionante, temos aí uma justificativa que acrescenta um tom quase fantasioso para o filme, puxando por um elemento moral de reflexão que não contamina o encerramento, mas não fala a mesma língua que todo o resto do longa.

Denso e cheio de situações que nos fazem pensar na vida de milhares de crianças ao redor do mundo, Cafarnaum é uma obra sobre realidades trágicas que podem mudar quando a situação desses indivíduos é reconhecida e eles encontram a oportunidade para combatê-las, começando com o reconhecimento de si mesmos como cidadãos. A este ponto chegamos: além da miséria social, pessoas não são tratadas como pessoas. Por quê? Porque lhes faltam um papel permissivo que as oficialize como tais. E a isso chamamos de civilização… O horror.

Cafarnaum (Capharnaüm) — Líbano, EUA, 2018
Direção: Nadine Labaki
Roteiro: Jihad Hojeily, Michelle Keserwany, Nadine Labaki, Khaled Mouzanar
Elenco: Zain Al Rafeea, Yordanos Shiferaw, Boluwatife Treasure Bankole, Kawsar Al Haddad, Fadi Yousef, Haita ‘Cedra’ Izzam, Alaa Chouchnieh, Nadine Labaki, Elias Khoury, Nour El Husseini, Joseph Jimbazian, Samira Chalhoub, Farah Hasno, Joe Maalouf, Alexandre Youakim, Michele Sedad
Duração: 121 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.