Crítica | Café Society

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estrelas 3,5

A estrutura narrativa de Café Society (2016), o primeiro longa rodado em digital por Woody Allen, é de um romance do início do século XX, algo relativamente próximo da dinâmica de várias histórias em um “pequeno grande Universo” de F. Scott Fitzgerald, por exemplo. A trama se passa nos anos 1930 e traz o jovem Bobby (Jesse Eisenberg) mudando-se de Nova York para Hollywood, onde começa a trabalhar com o seu tio Phil (Steve Carell, que entrou no projeto depois da demissão de Bruce Willis, logo no início das filmagens, por não lembrar das falas e fazer com que seu comportamento levasse o restante do elenco à loucura) e rapidamente se apaixona por Vonnie (Kristen Stewart), dando início a mais uma ciranda de amores típicas dos romances de Woody Allen.

Sem muitas pretensões, mas ainda assim trazendo uma elegância toda especial, Café Society mostra um Allen tecnicamente mais dinâmico e aberto a novidades, não só pela estreia no formato digital, mas também pelo aspect ratio de tela, que nunca havia experimentado e que só aceitou utilizar por este ser bastante comum ao diretor de fotografia Vittorio Storaro (vencedor do Oscar na categoria por Apocalypse Now, Reds e O Último Imperador), o grande destaque do filme.

Para quem é familiarizado com a cinematografia woodyana, Café Society não será uma surpresa em nada, além da fotografia. Isso acaba trazendo uma certa limitação e ao mesmo tempo uma grande ansiedade para o público, porque mesmo sabendo do modelo de “mesmo tema com cenários e impulsos diferentes”, sempre há a espera de algo realmente instigante vindo de Woody Allen, e isso já contando com a forma conhecida dele de escrever roteiros e dirigir filmes — notem que até agora, nesta fase dos anos 2010, ele nos trouxe apenas duas grandes surpresas: Meia-Noite em Paris (2011) e Blue Jasmine (2013).

O texto ganha pontos na representação do glamour do mundo das celebridades anos 30, valendo-se de um estupendo desenho de produção e figurinos; mas perde no seu carro-chefe, o romance estrelado por Jesse Eisenberg e Kristen Stewart. Há algum esforço dos atores (especialmente de Eisenberg) em fazer com que seus personagens empolguem o espetador, pareçam críveis e interessantes, mas são poucas as vezes em que isto acontece, e quase nunca quando eles estão juntos. Eisenberg funciona bem contracenando com outros atores e realiza uma boa apresentação no início da obra, mas logo seus maneirismos se reforçam e ele mais distrai do que prende.

Steve Carell é uma boa presença na transição sutil entre comédia e drama, mais pelo segundo gênero do que pelo primeiro. O ator faz um personagem vivaz, porém reflexivo, um produtor de cinema que não é exatamente o mais adorável personagem do filme, mas é bastante aprazível e realiza com competência o seu papel. Curioso é que a sua parte do romance é a que melhor funciona, talvez pelo toque de maturidade vindo de seu personagem ou pela qualidade de sua atuação, principalmente se comparada às outras duas pontas do triângulo.

Porém, como disse anteriormente, o grande destaque do filme vai para o mestre Vittorio Storaro, que mais uma vez realiza uma direção de fotografia inesquecível. Seu trabalho lembra um pouco o de Carlo Di Palma em Setembro (1987), com interiores de luzes quentes e cercadas por sombras, além de destaque para cenas noturnas ou de nascente e poente, mostrando bem mais do que o roteiro em relação a romantismo e paixão, duas marcas da obra. A cena em que Bobby e Vonnie bebem vinho em um apartamento onde acabou de faltar luz, com as velas acesas e imenso contraste na paleta de primárias é uma das cenas mais belas do cinema recente de Woody Allen.

Ao som de Jazz (com destaque para canções de Richard Rodgers & Lorenz Hart), mesclando metalinguagem, idas e vindas do amor, atividades de gângsters em NY nos anos 30, religião, morte e o peso de algumas escolhas na vida, Café Society não nega ser um filme de um diretor maduro que ainda se arrisca em novos formatos e novos caminhos técnicos para realizar o seu trabalho. Desde A Era do Rádio (1987) Woody Allen não narrava um filme sem aparecer nele, e é a primeira vez desde A Última Noite de Bóris Grushenko (1975) que ele dirige um filme sem o seu amigo, produtor executivo e agente de longa data, Jack Rollins, que faleceu aos 100 anos em 2015. Talvez a exploração dos limites de algumas escolhas e a força do papel da morte dentro do judaísmo tenham alguma justificativa real originada na vida do diretor.

Mesmo quando não é genial, Allen consegue nos fazer rir e nos encantar com o seu mundo de neuroses e possibilidades do que é amar, ser amado e viver a vida em uma sociedade tão quente, saborosa, glamourosa e passageira quanto uma boa xícara de café.

Café Society (EUA, 2016)
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Steve Carell, Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Anna Camp, Sheryl Lee, Jeannie Berlin, Todd Weeks, Paul Schackman, Jodi Carlisle, Richard Portnow, Ken Stott, Sari , Blake Lively, Woody Allen
Duração: 96 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.