Crítica | Cage #1 a 5 (Marvel Max – 2002)

estrelas 4,5

Criado em 2001 por Bill Jemas, então presidente da Marvel Comics, para abrigar Alias, fenomenal trabalho de Brian Michael Bendis que trouxe Jessica Jones para a editora, o selo Max simbolizou o pioneiro fim da subserviência da empresa à famigerada Comics Code Authority (só para se ter uma ideia, a DC Comics só largou a CCA em 2010) e passou a acolher diversas outras versões mais sérias primeiro de personagens pouco conhecidos ou utilizados e, depois, alguns clássicos como Wolverine, Justiceiro, Nick Fury e Thor. Além disso, o selo permitia que os autores escolhessem escrever histórias dentro ou fora da cronologia dos heróis, o que, no segundo caso, permitia alterações com um bom grau de liberdade.

Luke Cage foi um dos primeiros personagens a ganhar uma minissérie sob o selo Max. O roteiro ficou ao encargo de Brian Azzarello, um especialista em lidar com histórias urbanas envolvendo gângsteres e muita violência, algo que sua série 100 Balas, na Vertigo Comics, então a todo vapor, facilmente comprova. Escolhendo recriar Cage completamente, trabalhando fora da continuidade e mitologia estabelecidas, ele coloca o herói não necessariamente como um super-herói, mas sim como um homem comum (apesar de descomunal) que aluga seus serviços investigativos a quem pagar por eles. O resultado é uma espécie de releitura simplificada de Yojimbo – O Guarda-Costas, com Cage tentando descobrir quem matou uma garotinha durante um tiroteio entre gangues no Harlem e, no processo, colocando bandido contra bandido.

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A sequência inicial, em um clube de strip, é icônica e já funciona como um aviso ao leitor sobre o Luke Cage que encontrará na história: um homem vivido, malandro, vestido como rapper (sempre de gorro, óculos escuros espelhados de lentes vermelhas e fones de ouvido amarelos) que vive sua difícil e sofrida vida um dia de cada vez. É a versão realista do Cage original. Se ele tem poderes? Ora, faz parte do divertimento da minissérie descobrir isso. Portanto, não direi aqui.

Ao estabelecer muito claramente a premissa da história, Azzarello não perde tempo em colocar Cage em movimento, ainda que isso não signifique ação propriamente dita. Apesar de ser composta por apenas cinco edições de tamanho padrão (23 páginas), a história tem uma cadência que foge ao normal de quadrinhos mainstream. Cage é um homem de poucas e precisas palavras que ele usa no lugar de socos e chutes para aos poucos manobrar as gangues de Clifto, Martelo e Lápide uma contra a outra. Só para se ter uma ideia, uma boa quantidade de páginas é dedicada a mostrar o personagem sentado no bar de uma coreana bebendo calmamente sua cerveja enquanto o mundo pega fogo lá fora. Ao fugir do óbvio, o roteiro diverte com sua linguagem realista de rua e o semblante sempre tranquilo do truculento Luke Cage.

Quando vemos ação propriamente dita, ela é econômica e bem sequenciada, sem exageros e invencionices super-heroicas. É como se assistíssemos a um filme de máfia de Martin Scorsese: preciso e violento. Talvez o final não satisfaça completamente os leitores – assim como não me satisfez – mas este é o único defeito perceptível na trama bem amarrada de Azzarello, ainda que muito claramente tenha sido uma escolha consciente do autor.

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A arte de Richard Corben é, como de praxe, singular. O desenhista, criador de Den e que trabalhou na famosa revista Heavy Metal em começo de carreira, é um mestre no que faz. Seus personagens são desenhados com traços que equilibram como poucos realismo e caricatura, cativando o leitor imediatamente. Seu detalhismo é assustador (reparem nos pelos das barbas dos personagens) e seu trabalho de progressão narrativa sabe manejar tanto quadros mais básicos (páginas de seis, às vezes cinco quadros simétricos) com explosões criativas que geram splash pages peculiares formadas de quadros, mas que formam uma imagem só coesa e narrativamente consistente. E, claro, as cores de José Villarrubia, mudsa, escurecidas e “sujas”, contribuem para aquele ar de imundície literal e psicológica que permeia toda a história de Azzarello.

A versão proibida para menores de Luke Cage é um triunfo e leitura obrigatória aos leitores que não se sentirem ofendidos por verem uma versão bem diferente de seu herói. É o Luke Cage possível e provável, não o ilusório dos quadrinhos mainstream e isso é bom.

Cage #1 a 5 (EUA – 2002)
Roteiro: Brian Azzarello
Arte e capas: Richard Corben
Cores: José Villarrubia
Letras: Wes Abbott
Editoral original: Marvel Comics (selo Max)
Data original de publicação: abril a agosto de 2002
Editora no Brasil: Panini Comics (Marvel Max #1 a #5)
Data de publicação no Brasil: setembro de 2003 a janeiro de 2004
Páginas: 23 (cada edição)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.