Crítica | Cage #1 a 8 (1992)

estrelas 0,5

Generalizações são sempre injustas, pois acabam não ressaltando as exceções, mas posso afirmar, sem muito medo de errar, que os anos 90 foram os piores para os leitores de quadrinhos mainstream. A DC e a Marvel lutavam para se manter estáveis e passaram a usar os mais variados artifícios para manter o interesse por suas publicações. Essa década viu os inomináveis Supermen azul e vermelho elétricos, o horroroso reboot do universo Marvel chamado Heroes Reborn, o patético spin-off da Liga da Justiça chamado Extreme Justice, a sofrível Saga do Clone e, claro, Rob Liefeld, o “artista” que praticamente inventou os anos 90 nos quadrinhos com suas atrocidades desproporcionais (ainda que tenha ajudado a fundar a Image Comics, hoje uma das melhores editoras no mercado). E isso sem contar com a mania das armaduras (até o Demolidor ganhou uma), a transformação de Guy Gardner em Guerreiro, o surgimento de Vengeance, a versão imbecilmente mais radical do Motoqueiro Fantasma e, claro, a moda das múltiplas capas de uma mesma revista e assim por diante.

E Luke Cage, infelizmente, não conseguiu escapar dessa década de horrores, ganhando uma nova revista solo, a primeira desde o cancelamento de Luke Cage e Punho de Ferro na edição #125, em setembro de 1986 (tecnicamente, não era uma revista solo, lógico, mas vocês entenderam…). Com roteiro de Marc McLaurin e arte de Dwayne Turner, o personagem sofreu sua própria reformulação em 1992, em uma série que – misericórdia! – durou apenas 20 números, oito dos quais (foi o máximo que consegui ler antes de pedir arrego) formam o objeto da presente crítica.

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Como tornou-se praxe nos anos 90 (não que isso não seja feito hoje em dia, mas parece que, naquela época, só o rebotalho dos escritores e desenhistas estava na ativa), o objetivo era sacudir completamente o status quo do personagem. Isso já fica evidente na capa da primeira edição em que vemos Cage, de uniforme novo mais sóbrio, rasgando o clássico e brega uniforme amarelo. Do anterior, só mesmo um cinturão no formato de sua tiara, para lembrar aos leitores saudosos que o personagem usava isso na cabeça… Até aí, nenhum problema, pois, realmente, aquela camisa amarela aberta no peito, tiara e braceletes prateados e corrente como cinto formavam um visual para lá de ultrapassado. O uniforme novo não é particularmente inspirado, mas dá um ar mais “normal” ao super-herói urbano. Nem mesmo a mudança de Cage de Nova Iorque para Chicago é um problema ou sua insistência em ser chamado por Cage no lugar de Power Man, ainda que McLaurin pudesse ter evitado fazer essa brincadeira página sim, página não.

A questão que realmente destrói a credibilidade da história é a necessidade de remexer o passado do herói, criando uma intrincada trama que começa lentamente com ele tentando estabelecer-se como herói de aluguel na nova cidade e mais uma vez recebendo ajuda do advogado Jeryn Hogarth, que convenientemente trabalha, agora, para o jornal The Spectactor, de Chigago. Para vender mais edições, o jornal usa a mesma estratégia do Daily Bugle em relação ao Homem-Aranha, mas efetivamente sacramentando uma parceria com Cage, de forma que seus repórteres possam seguí-lo em suas missões, ganhando “exclusivas”. Uma gangue de vilões ridiculamente chamada Os Intocáveis (uau, que referência inteligente…) formada por Lápide (basicamente um vilão com o mesmo poder de Cage, só que albino), Kickback (cujos poder imbecil é “chutar” para três minutos no passado ou no futuro…) e Nitro (aquele sujeito que explode tudo e que seria o responsável pelas mortes que catalisam a saga Guerra Civil) e comandada por Hardcore, um vilão criado para a publicação que é especialista em armas que ninguém usa, começa a sistematicamente atacar Cage, minando-o sempre que pode como parte de um plano maior que envolve uma figura misteriosa do passado do herói. Ao mesmo tempo, Dakota North, uma espécie de Viúva Negra bem menos interessante, tem informações sobre o pai de Cage, que ele acredita ter morrido enquanto ele estava na prisão, mas que ela acha que está vivo. Ah, e tem um irmão de Cage que nunca antes havíamos ouvido falar nessa equação. Conseguiram perceber a ligação? Mas tem muito mais do que isso: uma participação especial do Justiceiro, a volta do Dr. Noah Burstein, responsável pelo poderes de Cage, o mistério envolvendo um garoto que meio que adota o herói como seu segundo pai e assim por diante.

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Imaginem vocês uma salada narrativa repleta de intermináveis e insuportáveis balões narrativos e diálogos extensos em uma trama que se acha bem mais inteligente do que é, com o único objetivo de “zerar” a cronologia do protagonista e nos apresentar a alguém completamente novo, sem o peso do legado do personagem, mas ao mesmo tempo teimosamente usando esse legado como elemento crucial. E isso acompanhado de uma arte de Dwayne Turner que realmente deixaria o mestre Liefeld orgulhoso. Pernas duas vezes mais longas do que o torso para mulheres e grossas como uma sequoia para Cage, movimentos corporais mais impossíveis do que a “bunda para cima” da Mulher-Aranha desenhada por Milo Manara (esse sim um mestre de verdade, mas que realmente exagerou no contorcionismo nesse caso) e uma confusão tão grande na diagramação que ler cada edição é como montar um quebra-cabeças mental, mas sem qualquer recompensa. E Chris Eliopoulos, nas letras, não tem medidas e insere onomatopeias em absolutamente todo os espaços que sobram depois que os textos de McLaurin entram. É como ler letreiros piscantes na Broadway até queimar as retinas.

Gostaria muito de ter achado algum outro ponto positivo nessa série além do abandono do uniforme blaxploitation de Luke Cage, o que me impediu de dar zero à proposta de McLaurin e Turner. Mas não foi possível. Mesmo que os 12 números seguintes sejam obras-primas (e eu duvido que sejam), nada me tira a certeza que o herói deveria ter permanecido aposentado das séries solo por mais tempo. E pior: ninguém conseguirá me devolver o tempo perdido para ler esse desfile de horrores (pela segunda vez, aliás, pois sofri pelos anos 90 pessoalmente…).

Cage #1 a #8 (EUA – 1992)
Roteiro: Marc McLaurin
Arte: Dwayne Turner
Arte-final: Christopher Ivy
Cores: Mike Thomas
Letras: Chris Eliopoulos
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: abril a novembro de 1992
Páginas: 24 (cada edição)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.