Crítica | Cake – Uma Razão Para Viver

estrelas 2,5

A maioria dos atores que tem carreira consolidada na comédia busca, em algum momento, seu breakout moment dramático. Depois de um bocado de buzz na internet, Cake era apontado como esse “ponto de virada” na carreira artística de Jennifer Aniston, a eterna Rachel de Friends. Aniston foi uma das atrizes que mais prosperou com o fim da sitcom, se envolvendo em diversos sucessos de bilheteria – a maioria comédias –, mas Cake realmente surge como um projeto ímpar no currículo da atriz. Não vou entrar na discussão de injustiça nas grandes premiações, vou me ater apenas a comentar que “Jennifer Aniston como você nunca a viu” foi o que mais encontrei em comentários na internet, e realmente é essa a impressão que temos.

Jennifer vive Claire, uma mulher solitária, traumatizada e debilitada fisicamente que leva uma vida infeliz e vazia de sentido: frequenta grupos de apoio, é viciada em remédios, faz sexo sem compromisso com o cara que limpa a piscina (que é casado) e confia apenas em sua empregada, a mexicana Silvana, que a trata como filha. Quando uma das frequentadoras do grupo de apoio, Nina (Anna Kendrick), se suicida e deixa marido (Sam Worthington) e filho, Claire inicia uma improvável – e imprevisível – relação com o viúvo.

Com poucos minutos de filme, podemos notar o cuidado e a entrega com que Jennifer Aniston molda sua personagem. Em poucas cenas e sem falar muito, percebemos que Claire é uma mulher que passou por algo que a traumatizou e deixou marcas físicas e psicológicas – algumas irreversíveis. Vemos Claire com dor nas costas praticamente o filme inteiro, tendo problemas para dormir, repleta de cicatrizes pelo corpo, se entupindo de analgésicos. O trabalho de Jennifer vai muito além da atuação, de cenas de escândalo, choro ou gritaria; é um trabalho cru, corporal, de contexto e conjunto, que exige muito de qualquer atriz que se disponha a fazê-lo. E ela não poderia ter sido mais competente.

Entretanto, mesmo com uma atriz extremamente inspirada encabeçando o projeto e acompanhada de uma Adriana Barraza igualmente competente (ela faz o papel de Silvana), Cake – Uma Razão Para Viver parece um curta que foi transformado em longa-metragem e não foi muito bem sucedido no novo formato. É como se uma história simples que havia sido contada em trinta minutos fosse esticada para 1h40min sem receber o cuidado necessário para explorar situações, desenvolver personagens, tramas e traumas. O roteiro de Patrick Tobin não é apressado, mas não consegue construir e aprofundar seus temas corretamente, aparentando, assim, falta de controle sobre eles e aleatoriedade na maior parte do tempo. Por exemplo, nos deparamos com contextos do tipo: em uma de suas tentativas desesperadas de suicídio, Claire se entope de remédios e vai parar no hospital, onde ela vê na televisão um documentário sobre drive-ins e se sente saudosa; logo, ela arrasta sua fiel escudeira Silvana para um drive-in próximo a uma linha de trem, onde ela vislumbra outra possibilidade de suicídio. É tudo muito aleatório e também conveniente. Outra situação que só pode ter saído da cabeça de um roteirista louco é essa: Claire resolve dar carona para uma jovem desconhecida que ela conhece na rua, e ao ouvir a história da garota, lhe oferece abrigo com a condição de que ela prepare um prato específico na cozinha. Nem Freud ou a líder do grupo de apoio explicam.

Sem ter um objetivo que acompanhe a complexidade de sua personagem principal, e sem possuir a profundidade necessária para dar seu recado, Cake fica parecendo apenas um filme que conta as desventuras de uma mulher traumatizada e sua fiel escudeira mexicana, e não o conto de superação e reinvenção que deveria – ou aparenta – ser. O resultado não chega a ser insatisfatório, mas também não agrada o suficiente. Se não conseguimos nos convencer totalmente da transformação exercida na vida de Claire, como podemos esperar que o filme exerça alguma nas nossas?

Cake – Uma Razão Para Viver (Cake, 2014)
Direção: Daniel Barnz
Roteiro: Patrick Tobin
Elenco: Jennifer Aniston, Adriana Barraza, Anna Kendrick, Sam Worthington, Mamie Gummer, Felicity Huffman, William H. Macy, Britt Robertson, Chris Messina
Duração: 102 min.

ANDRÉ DE OLIVEIRA . . . . Estudante de Letras e aspirante a jornalista. Ainda se impressiona com o fato de curtir, na mesma intensidade, do cult ao pop; do clássico ao contemporâneo; do canônico ao best-seller. Usa camisa do Arctic Monkeys — sua banda favorita —, mas nada impede que esteja tocando Nicki Minaj no fone de ouvido. Termina de ler Harry Potter e começa um Dostoévski. Assiste Psicose e depois dá play em Transformers. Não tente entender. @andreoliveeira