Crítica | Cálculo Mortal

estrelas 4

Quando um filme estreia e tem à sua sombra a presença de Alfred Hitchcock, o mestre do suspense, um fio de tensão é estabelecido, colocando-o à prova. Foi assim com Cálculo Mortal quando estreou em 2002. Comparado ao clássico Festim Diabólico, trama experimental do cineasta então radicado nos Estados Unidos, o filme foi um sucesso (e não envelheceu) por trazer uma montagem criativa e pouco comum, um jogo psicológico tenso e o confinamento de fazer qualquer bom espectador ranger os dentes de tanto nervoso.

Cálculo Mortal, suspense dirigido por Barbet Schroeder, com roteiro de Tony Gayton e Sandra Bullock como protagonista, tem o seu paralelo com o clássico de Hitchcock por conta da história verídica que teria inspirado ambos: o famoso caso dos assassinos Richard Loeb e Nathan Leopold. Estes dois estudantes da Universidade de Chicago mataram friamente Bobby Franks, de 14 anos, em 1924. A motivação do crime? Simples, eles alegaram ter a intenção de realizar o crime perfeito.

Loeb e Leopold pegaram prisão perpétua por conta do crime. Durante a investigação, a polícia encontrou uma carta de Leopold para Loeb, contando detalhadamente a sua interpretação para o que Nietzsche chamou de “super-homem”, “uma virtude de certas qualidades superiores inerentes a ele (o super-homem), isento das leis comuns que regem os homens”. Em suma, a dupla cometeu o crime por “ócio”, tendo em vista observar as implicações do ato hediondo.

Ao longo dos anos, o caso foi inspiração para diversas produções ficcionais: a peça Rope, de Patrick Hamilton, material dramatúrgico que inspirou o filme homônimo de Alfred Hitchcock; em 1956, o crime foi reapresentado em Compulsion, romance de Meyer Levin; três anos depois, tornou-se a peça Never the Sinner, de John Logan, encenada em 1988; além de ter inspirado episódios de séries como Law & Order e o filme em questão, Cálculo Mortal, oportunidade para a atriz Sandra Bullock evoluir enquanto artista, haja vista a sua linhagem de papeis em filmes de ação, drama, comédia e romance.

Devo dizer que as comparações com Festim Diabólico são injustas. O tempo é outro, bem como as exigências do público e as estratégias narrativas. Em nenhum momento o roteiro de Tony Gayton se interessa em emular Hitchcock, ao contrário, juntamente com o olhar cuidadoso do cineasta Schroeder, preocupa-se em dar uma nova roupagem, talvez mais óbvia em algumas questões, mas não menos interessante ou estruturalmente bem realizado.

Na trama, Justin Pendleton (Michael Pitt) e Richard Haywood (Ryan Gosling) são estudantes de uma escola secundária que decidem praticar um crime perfeito. E cometem: ceifam friamente a vida de Olívia Blake (Krista K. Carpenter) após sequestro, seguido do crime e da eliminação do corpo em um local isolado.

Quando o corpo é encontrado pela polícia, a investigadora Cassie Mayweather (Sandra Bullock) é encaminhada para a investigação do crime, tendo como seu parceiro o detetive Sam Kennedy (Ben Chaplin). Juntos, eles precisarão descobrir quem cometeu o crime, bem como as suas motivações. A localização não dá margem para muitos obstáculos, afinal, a trama se passa no sul da Califórnia, numa zona costeira, distante dos grandes centros urbanos, tais como Nova Iorque e Los Angeles.

As pistas falsas remetem ao faxineiro Ray (Chris Penn), um cara fora da lei (só nos sabemos, inicialmente) responsável por fornecer maconha na escola. Ao passo que a investigação avança e novos rumos são tomados, tudo indica que os responsáveis do crime são os rapazes Richard e Justin. O primeiro faz o tipo bonitão, galã do colegial, popular, arrogante e filho de pais abastados, personagem bem concebido graças ao ótimo desempenho de Gosling. O segundo é tímido e reservado, muito inteligente, espécie de cabeça da dupla, haja vista a sua função intelectual durante o desenvolvimento do crime e, por sua vez, da trama.

No que tange aos aspectos estruturais Cálculo Mortal é um filme eficiente: a música de Clint Mansell estabelece o clima ideal, a montagem de Lee Percy é didática e a direção de Schroeder cumpre o combinado no título, sem grandes arroubos cinematográficos. Como o filme se alonga demais (talvez um dos seus grandes problemas), o suspense dá espaço para um eficiente estudo de personagem. Cassie é uma mulher bem delineada, com a sua necessidade dramática bem interligada com os seus aspectos físicos, psicológicos e sociais. Ela precisa enfrentar o sistema para dar continuidade ao processo investigativo, sempre bloqueado pelo seu superior hierárquico, o chefe de polícia Rod (R. D. Call), afinal, paralelo aos acontecimentos, através de leves camadas, o roteiro nos leva ao passado de Cassie, uma história marcada pela violência doméstica e pela tragédia familiar.

Os clichês estão no filme. E por sinal, não são poucos, o que pode irritar espectadores mais exigentes. Para os interessados em corpos ensanguentados pendurados por todos os lados, ou crimes bárbaros e sanguinolentos, Cálculo Mortal não é o filme ideal. No meio do caminho do projeto criminoso da dupla há uma pedra, obstáculo personificado por Lisa Mills (Agnes Bruckner), garota responsável por sacolejar a dinâmica interna entre Richard e Justin. Por falar em dinâmica, a circulação de Ben Chaplin na trama é muito similar ao personagem Bonnie, da série How To Get Away With a Murder. Propositalmente pouco expressivo, surge nas cenas como uma espécie de escada para as melhores fala de Cassie Mawweather (no caso da série, a advogada Annalise Keating).

As insinuações homossexuais são outro detalhe que diferencia o filme das sutilezas de Hitchcock em Festim Diabólico. Enquanto no clássico há coisas que ficam subentendidas, em Cálculo Mortal a homoafetividade quase se escancara diante do espectador, no entanto, apenas em forma de tensão, pois em momento algum os personagens partem para o “vamos ver”, tampouco se declaram sexualmente interessados um pelo outro. Há de se convir, no entanto, que os tempos são outros e talvez uma pitada extra de sensualidade entre dois caras fosse mesmo o ideal para deixar Cálculo Mortal com cara de Cálculo Mortal, não apenas uma nova versão do clássico do “imortal” Alfred Hitchcock.

O título do filme é uma referência à música Murder by Numbers, de Sting e Andy Summers, da banda The Police. Como filme de suspense, a trama realmente fica devendo. Há poucos momentos emocionantes e de embalo, mas como estudo de personagem o filme consegue manter-se num patamar bastante elevado. O modus operandi da investigadora, dos assassinos, hoje bastante comum com a profusão de séries televisivas sobre o assunto, deixam a trama ter a sua devida importância. Digamos que Cálculo Mortal seja um filme para os interessados num suspense morno, sem grandes picos, com análise detalhada de pistas e um passo a passo mais lento em relação às revelações finais.

Cálculo Mortal (Murder by Numbers) — Estados Unidos, 2002
Direção: Barbet Schroeder
Roteiro: Tony Gayton
Elenco: Sandra Bullock, Ryan Gosling, Michael Pitt, Agnes Bruckner, Ben Chaplin, Chris Penn, R.D. Call, Tom Verica.
Duração: 122 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.