Crítica | Call the Midwife – 2ª Temporada

estrelas 4,5

É inegável que, em linhas gerais, a qualidade das séries de TV tem subido vertiginosamente. E também é inegável que cada vez assuntos mais sérios e mais pesados têm sido abordados com constância. E isso chega a tal ponto que, com exceção das sitcoms (e, mesmo assim, só no caso de algumas), é razoavelmente raro o espectador se deparar com séries leves, daquelas que arrancam sorrisos e, porque não, lágrimas de felicidade.

Call the Midwife, série produzida pela Neal Street Productions, de Sam Mendes, para a BBC, é uma dessas séries feel good, criadas para nos dar esperança, alegria e, ao mesmo tempo, nos educar. É uma combinação que seria fadada ao fracasso em nosso mundo cínico, não fosse o excelente trabalho da produção, encabeçado pela showrunner Heidi Thomas, com base na autobiografia de Jennifer Worth, sobre sua vida como parteira em pleno e paupérrimo East End de Londres (mais precisamente, em Poplar), no final da década de 50. O trabalho de reconstrução história, desde os efeitos especiais, passando pela reutilização de prédios históricos e pelo perfeito figurino, é irretocável. E foi essa característica somada ao elenco encantador formado por jovens atrizes cativantes (as enfermeiras e uma freira) e experientes atrizes que dão peso à produção (as freiras mais velhas), além de Vanessa Redgrave narrando os capítulos como a versão mais velha de Jenny Lee, a parteira principal, vivida, aos 22 anos, por Jessica Raine, que alçou Call the Midwife, na primeira temporada, ao patamar de série nova de maior sucesso da BBC One desde 2001.

Na segunda temporada, Jenny já tem seu lugar de parteira solidificado em Nonnatus House, o convento onde vive e que existe para cuidar da população crescente ao seu redor. Ela, Chummy (Miranda Hart), Trixie (Helen George) e Cynthia (Bryony Hannah) formam o corpo de jovens enfermeiras que passam o dia correndo de casa em casa para cuidar de grávidas, fazer partos, cuidar de idosos, dentre outras tarefas. Elas são o grupo auxiliar das freiras, comandadas pela experiente Irmã Julienne (Jenny Agutter) e que contam ainda com a hilária Irmã Evangelina (Pam Ferris), a sábia (mas esquecida em razão da idade) Irmã Monica Joan (Judy Parfitt) e a bela e jovem Irmã Bernadette (Laura Main).

A temporada começa com um tocante Especial de Natal, bem na tradição das séries inglesas, em que vemos Jenny lidar com a idosa Sra. Jenkins, que vive como mendiga em Poplar. A evolução dessa parte da narrativa é de fazer qualquer um se debulhar em lágrimas tamanha é a sensibilidade da direção de Philippa Lowthorpe e as atuações dos envolvidos. Do lado mais leve do especial, vemos Chummy lidar, da maneira mais atabalhoada e doce possível, com a montagem do teatro natalino do grupo de escoteiros que comanda e que será visitada pelo prefeito de Poplar. E, apenas para que o assunto principal da série não seja esquecido, há uma terceira narrativa envolvendo a gravidez não planejada de uma jovem que esconde tudo dos pais. É um daqueles episódios (duplo, por sinal) para levantar espíritos.

A temporada em si, composta por oito episódios, trabalha três linhas principais: (1) a evolução profissional de Jenny, sua maior segurança perante as colegas e seu trabalho momentâneo no Hospital de Londres onde aprendemos que ela é muito mais do que “apenas” uma parteira; (2) a dúvida da Irmã Bernadette sobre sua fé em vista do amor que sente pelo Dr. Patrick Turner (Stephen McGann), o simpático – e viúvo – médico local que auxilia as enfermeiras nos momentos mais complicados e (3) a mudança de Chummy e seu marido para a África (sim, para a África) como missionários e suas respectivas voltas. Em meio a isso tudo, somos apresentados a verdadeiros desenvolvimentos tecnológicos como a pílula anticoncepcional, tratada quase como uma lenda e o programa de Raio-X móvel na campanha de prevenção à tuberculose. A vida continua pululante em Poplar e a narrativa se desenvolve a sempre abordar os temais principais de maneira orgânica, passando-nos lições de história sem que percebamos.

Há, também, uma personagem nova, Jane Sutton (Dorothy Atkinson), calada, submissa e aparentemente infeliz que, muito aos poucos, vai desabrochando e fazendo parte integral daquela pequena família. E a progressão narrativa vai revelando ao espectador quem ela realmente é e de onde veio.

E o mais interessante é que, mesmo em uma série como essa, de mensagem positiva, com tom mais alegre (mas longe de ser uma comédia), os roteiros consigam criar uma saudável dose de tensão a cada episódio. É o parto com problemas aqui, o sumiço de uma criança ali ou mesmo a relação hesitante e quase frustrante entre a Irmã Bernadette e o Dr. Turner. Tudo é construído com vagar, mas com um rigor narrativo surpreendente, que suspende essa série muito acima de “apenas uma série histórica” ou “apenas uma história de parteiras”. O lado humano é puxado a seus limites e nós nos envolvemos com cada personagem, mesmo aqueles que aparecem por apenas um episódio, como é o caso da menina no navio sueco, da mãe já com oito filhos que não quer o nono ou da esposa de um dono de bar diabético. É um olhar benevolente, mas duro sob as pessoas em um microcosmo miserável, mas que sabemos estar à beira do desenvolvimento econômico. É um olhar para a frente, para o futuro, para o que o mundo pretende fazer daqueles bebês nascendo todos os dias em todos os lugares.

Se, ao final da temporada, você não estiver mais leve e encontrar-se, inadvertidamente, com um sorriso no rosto ou com aquela lágrima danada nos olhos causado por um indesejável “cisco”, então você não tem mais jeito mesmo.

Call the Midwife (Reino Unido, 2012/2013)
Showrunner: Heidi Thomas
Direção: Philippa Lowthorpe (Especial de Natal e ep. 1), Roger Goldby (eps. 2 a 4), China Moo-Young (eps. 5 e 6), Minkie Spiro (eps. 7 e 8)
Roteiro: Heidi Thomas (Especial de Natal e eps. 1, 3, 5 e 8), Harriet Warner (ep. 2 e 7), John Martin Johnson (ep. 3), Mark Catley (ep. 4), Jess Williams (ep. 6)
Elenco: Jessica Raine, Miranda Hart, Helen George, Bryony Hannah, Laura Main, Jenny Agutter, Pam Ferris, Judy Parfitt, Cliff Parisi, Stephen McGann, Ben Caplan, Dorothy Atkinson, Vanessa Redgrave
Duração: 355 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.