Crítica | Canário Negro: Asas Novas

Dinah já aparecia nas páginas de quadrinhos desde a Era de Ouro, na então Flash Comics publicada na década de 40. Nos anos 60 ela estreou seu conturbado romance com o Arqueiro Verde e por toda a Era de Prata e Bronze participou como coadjuvante nas histórias protagonizadas por Oliver Queen. Mas apenas em 1991, alguns anos após a Crise nas Infinitas Terras foi que a Canário Negro ganhou sua primeira história solo. Escrita por Sarah Byam e desenhada por Trevor Von Eeden e Dick Giordano, Canário Negro: Asas Novas, é uma minissérie em 4 edições que finalmente coloca a personagem em foco.

A trama se inicia com o locutor de rádio asiático-americano Gan Nguyen provocando explicitamente os narcotraficantes locais em seu programa. A situação vai ficando mais perigosa à medida em que é mostrado que os chefões do tráfico têm ligações diretas com supremacistas brancos e até mesmo mantém estreitos laços políticos com o governo estadual. Ao fazer amizade com Gan, Dinah acaba se envolvendo e se tornando também um importante alvo dos narcotraficantes, que assumem então o papel de vilão da história, juntamente com as corruptas autoridades.

O roteiro, no entanto, é por vezes confuso, requerendo quase que obrigatoriamente uma segunda leitura para melhor compreensão das alianças e desfechos. Sarah também tenta passar uma profundidade dramática e política que não condiz com o que é mostrado na história. Apesar de levantar temas polêmicos como racismo, corrupção e decadência social, o final do enredo acaba se revelando um simples embate entre herói e tráfico de drogas, já que os temas supracitados não evoluem e são deixados de lado.

Felizmente, o mesmo não ocorre com os diálogos entre os personagens. Tais diálogos são adultos, maduros e totalmente críveis. Inclusive, Oliver Queen aparece de maneira rápida, modesta e quase infantil em uma cena curta, estratégia inteligente do roteiro para que o leitor entenda o lado de Dinah e se envolva sem culpa no quase-romance mostrado entre os protagonistas. Com isso a história consegue ser o que precisaria ser para um quadrinho de herói dos anos 90, cheio de onomatopeias clássicas e com muitas cenas de ação, mas sem deixar de ter seu lado adulto e mais maduro na construção do relacionamento dos personagens.

canario negro plano critico

Não brinque com a Canário.

Para enfrentar o narcotráfico sem seu grito supersônico, perdido durante a série do Arqueiro Verde, Dinah faz uso de suas habilidades marciais (Aikido, Boxe, Capoeira, Kung Fu, Hapkido, Judô, Jiu-jitsu, Krav Maga, Muay Thai, Savate, Tae Kwon Do e Wing Chun) e sua excepcional capacidade de acrobata. Além disso, ela continua sendo exímia investigadora (provaria isso definitivamente mais tarde ao descobrir sozinha a identidade do Batman) e também uma ótima líder e estrategista. Se a melhor estratégia para enfrentar 12 homens for utilizar-se de sua beleza e sedução ela o fará, sem pudores, como ocorre no derradeiro capítulo da minissérie.

A arte é competente, principalmente quando lembramos se tratar de uma obra feita há mais de 25 anos, sem os modernos recursos de desenho e colorização auxiliadas por computador. As cores são as vezes fortes e brilhantes demais, características que não me agradam muito, mas comuns nos quadrinhos da época. As diagramações são honestas e não inventam nada novo na maioria da história (também sob a ótica de um leitor de 2017), mas conseguem encher os olhos e arrancar alguns belos quadros em primeiro plano da protagonista em diversos momentos.

Por fim, ainda que longe de ser uma obra-prima, a minissérie cumpre o papel de alavancar a popularidade da Canário Negro, permitindo que novas publicações de destaque surgissem ao longo do tempo. Soma-se ainda o fato de que ela contribuiu com o aumento de mais espaço para protagonistas femininas, ainda em esmagadora minoria naquela época. A partir daí, Dinah se envolveu em grandes acontecimentos importantes do DCU, foi uma das fundadoras e primeira líder da Liga da Justiça da América pós-Crise (posto antes pertencente à Mulher-Maravilha), participou de uma nova formação da Sociedade da Justiça da América (versão que surgiu após a morte do Sandman de Wesley Dodds), casou-se com o Arqueiro Verde e é a principal agente de campo das Aves de Rapina.

Canário Negro: Asas Novas (Black Canary: New Wings, EUA – 1991)
Contendo: Black Canary: New Wings #1 a 4
Roteiro: Sarah E. Byam
Arte: Trevor Von Eeden, Dick Diordano
Cores: Julia Lacquement
Letras: Steve Haynie
Editoria: Mike Gold
Capas: Dick Giordano
Editora original: DC Comics
Editora no Brasil: Não publicada até a data de postagem da presente crítica.
24 páginas (cada edição)

BRUNO CAVALCANTI . . . [Ao som de Top Gear....] Localização: Terra - Via Láctea - Universo Observável. Sou um terráqueo padrão, que se entretém sabe-se lá do quê com livros, filmes, quadrinhos e games. Falante excessivo a 30 anos, só dispenso um bom papo se o assunto for pagode ou Big Brother. Adepto da paz, não gosto de polêmicas. Mas a DC é claramente melhor que a Marvel. Se for me dar um livro, abra-o antes e escreva uma dedicatória. Não dou muito valor ao plástico do lacre, já que ele sempre vai pro lixo. Agora, se o presente for pro meu filho de 2 anos, ele me disse aqui que prefere um carrinho. De preferência um Jipe. E de preferência azul.