Crítica | Canta Maria

estrelas 3

Terra gretada. Cactos e mandacarus. Poeira. Calor escaldante. Violência e messianismo, caminhando juntos. Lampião, Maria Bonita e seu bando. Um filme brasileiro. Agora pense quantas narrativas que tenham todos estes itens você já assistiu. Provavelmente várias, pois dentro dos ciclos temáticos do cinema desenvolvido no Brasil, o fenômeno do cangaço já foi trabalhado em diversas instâncias: nos planos cortantes e reflexivos do cinema novo, nas malhas da pornografia da chanchada, na releitura da Estética da Fome de Glauber Rocha no Cinema da Retomada, ou seja, na Estética da Fome, de Ivana Bentes, no cinema brasileiro pós-retomada e em produções do que se convencionou a chamar de contemporâneo.

Sob a direção de Francisco Ramalho Jr., o filme é baseado no romance de memórias Os Desvalidos, de Francisco Dantas. Na obra literária o jovem Coriolano é uma pessoa atormentada pelas lembranças da juventude, pois foi nesta época que o bando de Lampião invadiu a sua casa. Com sobrevivente, o rapaz muda-se para a casa do tio, apaixona-se por Maria Melona, a sua esposa, numa narrativa cheia de potencialidades trágicas. A adaptação cinematográfica (tradução intersemiótica) muda o foco e remonta alguns elementos, mas nada que deixe a relação entre ponto de partida e leitura fílmica sem sabor ou desconfortável, ao contrário, Canta Maria é uma adaptação sadia que soube colocar o protagonismo feminino, mesmo que dentro de algumas amarras da época, em destaque.

O filme foca na década de 1930. Sertão. Romance de 30 e representação das celeumas de um povo acometido pela seca, bem como pela miséria e imagem violenta do movimento do cangaço. A jovem Maria (Vanessa Giácomo) vive com a sua família em paz. O seu pai é um coronel que colabora com a travessia de Lampião pelo sertão, fornecendo-lhe comida e armamento. Certo dia, alguém resolve atacar a residência e não sobre quase ninguém para contar a história.

O jovem Coriolano (Edward Boggiss) amansava os cavalos do tio e passava coincidentemente pelo local, observa escondido, percebe que Maria sobreviveu e a leva para o rancho do tio Filipe (Marco Ricca), um daqueles personagens que reforçam a estereotipia moldada por Euclides da Cunha em Os Sertões. A moça fica no local até se recuperar do trauma. Posteriormente é levada para a cidade, tendo em vista morar com o único parente vivo, o prefeito local, homem que vive ás custas da relação com o governo.

Diante deste argumento, tramas políticas e sociológicas se desenvolverão, com direito ao lirismo de uma trilha sonora cheia de energia, bem como uma participação de José Wilker surge no papel de Lampião.  As coisas se esquentam quando o triângulo amoroso entre Maria, Filipe e Coriolano ganham maiores contornos, prometendo um desfecho cheio de problemas para todos os personagens.

Por falar em personagens, o roteiro de Francisco Ramalho Jr. foca bastante nos protagonistas e deixam os coadjuvantes apenas como elementos gravitacionais que pouco interagem com o trio central. No que tange aos destaques estéticos temos Daniela Mercury assinando uma participação inspirada na trilha sonora, em parceria com Gabriel Póvoas, planos e movimentos de câmera bem didáticos, montados em prol das demandas de uma narrativa que expõe a violência e o clima do cangaço no nordeste, bem como uma direção acima da média que consegue extrair bons desempenhos de seu elenco.

Em seus 95 minutos, Canta Maria consegue captar o clima nordestino exaurido pelas diversas manifestações artísticas anteriores, mas não é ruim, ao contrário, é interessante, principalmente por saber exatamente a hora de terminar a sua história, sem deixa-la mais comprometida do que ficou. O triângulo amoroso interessa e muito, o problema é que quando este começa a se desenvolver e indicar traços de tragédia, a narrativa já se arrastou um pouco dentro de lugares comuns nordestinos. Ah, cabe ressaltar que Maria canta. E muito bem, por sinal.

Canta MariaBrasil, 2006. 
Direção: Francisco Ramalho Jr.
Roteiro: Francisco Ramalho Jr., baseado no romance Os Desvalidos, de Francisco Dantas
Elenco: Vanessa Giácomo, Marco Ricca, Edward Boggiss, Aloísio De Abreu, Eliete Cigarini, Francisco Carvalho, José Wilker, Neusa Maria Faro, Rodrigo Penna, Tião D’Avila.
Duração: 95 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.