Crítica | Cantando na Chuva

estrelas 4,5

Dizem que sempre que uma pessoa se recorda de um momento da sua vida, inconscientemente há uma música vinculada. Será? Se formos lembrar-nos de um momento em que saímos felizes pelo “sim” da pessoa a que devotamos nossos sentimentos, ao conquistar o emprego dos sonhos ou a um mero resultado de vestibular que pode nos definir momentaneamente, provavelmente não nos importaríamos de dançar livremente na chuva, cantando, se possível.

Tal atitude, por sua vez, nos remete ao clássico número musical de Genne Kelly dançando e cantarolando na chuva, feliz diante da situação em que se encontrava. A cena, tão icônica quanto o Carlito de Chaplin girando um globo ou vestido esvoaçante de Marilyn Monroe, é o título do musical de 1952 que demonstra a alegria em várias instâncias: os personagens estão felizes, cantam e dançam, a indústria também, financeiramente rentável com o advento do som etc.

Cantando na Chuva surgiu como consequência do sucesso de Sinfonia em Paris. Os produtores decidiram investir ainda mais no estilo e contrataram as pessoas para escrever o roteiro do próximo sucesso do estúdio MGM.

No filme, o enérgico Don Lockwood (Genne Kelly) e estridente Lina Lamont (Jean Hagen) formam uma dupla de sucesso no cinema “mudo”. São astros de uma época anterior ao maior momento transitório do cinema enquanto linguagem: a transição para o cinema sonoro. Seus filmes são sucessos de público e os tabloides apostam num relacionamento amoroso entre ambos, algo além das fronteiras dos roteiros que interpretam, o que de fato não se evidenciam, pois a dupla se detesta fora das telas.

Com o advento do cinema falado, as coisas mudam. Eles precisam se adaptar para não escorregarem rumo ao ostracismo. O estúdio, decidido a transformar o filme The Dueling Cavalier em uma produção falada, escala os atores e pedem adaptação. Lockwood consegue se adaptar bem, graças ao seu empenho, diferente da bizarra Sra. Lamont, situação que clama por uma resolução de emergência.

Quem chega com a solução é o amigo Don (Donald O’ Connor). Ele sugere que a aspirante a atriz Kathy Selden (Debbie Reynolds) duble a desafinada Lamont, numa momentânea solução que mais adiante será foco dos desdobramentos dramatúrgicos do musical. Na esteira destes acontecimentos a obra reconstrói a recepção do público em relação ao som nos filmes, nos demonstram os embriões das revistas de fofocas de celebridades, apresenta o êxtase do público e dos realizadores com o sucesso de O Cantor de Jazz, de 1927, bem como nos demonstra a necessidade de contratação de técnicos vocais para treinamento dos atores e as dificuldades de produção, tal como a incapacidade de alguns profissionais da performance em direcionar-se aos microfones escondidos em cena, dentre outras coisas.

A obra dialoga muito com O Artista no que diz respeito ao momento de transição das formas de se fazer cinema, bem com os seus impactos industriais. Como aponta o escritor Antônio Costa no livro Compreender o Cinema, os filmes sonoros são os responsáveis pelo êxito do desenho animado, do polimento dos efeitos de narração, além de ter contribuído positivamente no desenvolvimento dos gêneros fantásticos e da ficção científica. Cantando na Chuva, ao radiografar este período com eficiência, alcança êxito narrativo e torna-se um ícone do revisionismo histórico.

A montagem funciona muito bem, o design de produção consegue dar conta das demandas e constrói um vigoroso espetáculo visual e os figurinos também dão a sua bela contribuição, sendo utilizados, inclusive, nas gravações de outro clássico, Bem no Meu Coração, de 1954, desta vez, sem o mesmo impacto que o famoso musical.

A famosa cena de Genne Kelly cantando na chuva demonstra um personagem não apenas feliz no amor, satisfeito por sua conquista, mas alguém que depois de um período histórico tão conturbado, também acredita no progresso. E para isso, canta, dança e sapateia na chuva, sem se importar com nada. O ator, gracioso e estupendamente carismático em cada cena, filmou a antológica passagem com febre de 39 graus, tamanho o seu comprometimento com a realização do filme. A direção de fotografia que o potencializa ao centralizar a sua presença diante da tela, bem como os eficientes planos inteiros e travellings transformaram o trecho um espetáculo audiovisual que pode, inclusive, ser vendido e entendido separadamente, como um videoclipe.

Com 100 minutos de muito embalo e números musicais fascinantes, Cantando na Chuva teve o seu roteiro produzido após a seleção final das canções que fariam parte da história. É daí que vemos a importância que a música tem no desenvolvimento narrativo. O filme concorreu ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante e Trilha Sonora, mas ganhou prêmio apenas no Globo de Ouro, haja vista a vitória de Donald O’Connor como Melhor Ator Coadjuvante.

Cantando na Chuva (Sing’ In The Rain) – EUA /1952
Direção: Gene Kelly, Stanley Donen
Roteiro: Adolph Green, Betty Comden
Elenco: Debbie Reynolds, Donald O’Connor, Gene Kelly, Jean Hagen, Millard Mitchell
Duração: 92 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.