Crítica | Capital Humano

estrelas 4,5

Em um mundo de fragilidade moral, domínio do capital em todas as esferas da sociedade (pelo excesso ou pela falta) e busca por vantagens o tempo todo, Capital Humano (2013) chega como uma espécie de retrato analítico, daqueles que de repente mostram para o fotografado as suas mais profundas imperfeições.

Baseado no livro de Stephen Amidon e fortemente ligado à organização social e política da Itália do início do século XXI, Capital Humano nos apresenta, através de uma narrativa em capítulos que se completam e se constroem sob pontos de vista diferentes (os do personagem), a decadência moral de algumas famílias e pessoas, todos envolvidos em algum tipo de mentira, omissão, corrupção ou crime que escondem ou disfarçam para não serem punidos ou para manterem algum tipo conveniente de status social.

O roteiro, escrito a seis mãos, adota um evento simples como núcleo em torno do qual os personagens são mostrados e expandidos. Dentro desse ciclo, três famílias (Ossola, Bernaschi e Ambrosini), são mostradas considerando sua classe social — e cada uma delas está em uma classe — e concepção de mundo, projetos de vida e desejos, que vão desde a procura por um sentido para a vida até a falta de amor e reconhecimento de um pai, felicidade e injustiça social. Por mais que alguns tentem esconder, a fragilidade é presente para todos e a necessidade de um para com o outro se torna clara, tendo os mais impensáveis motivos para que isso aconteça.

Se comparamos Capital Humano aos outros filmes de Paolo Virzì, comprovaremos estar diante de uma obra mais crua, impiedosa, realista. O lirismo e humanidade bem recorrentes em seus longas dão lugar aqui a uma beleza fria e quase estéril da fotografia ao longo das estações do ano, na maioria das vezes expondo os quadros a uma luz dura ou pouca luz, tanto para as tomadas internas quanto externas. O tormento dos protagonistas é dado em ambientes aparentemente acolhedores, mas que aos poucos se tornam lugares ameaçadores, intimidadores, como a casa de Luca, por exemplo, ou a feiura dramática da mansão dos Bernaschi, que são os mais desnudados da obra: ricos e indiferentes para com o mundo, cada um deles (pai, mãe e filho) esperam que tudo gire ao seu redor e cobram, uns dos outros, uma postura que não estão dispostos a assumir sequer para si mesmos.

O roteiro chega ao ponto de nos colocar em um dilema moral sob a perspectiva da justiça do país, e nos faz ver uma máxima cruel da economia que diz que nem todo cenário ruim é ruim para todo mundo. Alguém ganha muito em algum momento; alguém é culpado por algo que não fez e alguém está disposto a tudo para conseguir dinheiro. A pergunta: o que poderia ser feito nessa situação de desespero, nesse cenário entre o suspense e o terror urbano? A resposta pode ser vista a partir da atitude de cada um dos personagens, que bailam entre os investimentos que fazem, o dinheiro que ganham ou perdem e a vida que vivem ou deixam de viver.

Com um elenco muito bem dirigido, um ritmo bem modulado em cada um dos capítulos e um desfecho que talvez seja abrupto demais mas entrega o final no tom certo, Capital Humano nos mostra com ironia o valor da vida, medida através de índices de produção e posses mesmo quando alguém não pode mais produzir ou possuir nada. Uma ironia contemporânea que cada vez mais fortalecida e passada adiante. A identidade atual do mundo.       

Capital Humano (Il capitale umano) — Itália, França, 2013
Direção: Paolo Virzì
Roteiro: Paolo Virzì, Francesco Bruni, Francesco Piccolo (baseado na obra de Stephen Amidon)
Elenco: Fabrizio Bentivoglio, Matilde Gioli, Valeria Bruni Tedeschi, Guglielmo Pinelli, Fabrizio Gifuni, Gigio Alberti, Valeria Golino, Silvia Cohen, Luigi Lo Cascio, Bebo Storti, Giovanni Anzaldo
Duração: 111 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.