Crítica | Capitão América #2 a 4 (Marvel NOW!)

Rick Remender está escrevendo um arco do Capitão América passado na Dimensão, para onde ele foi mandado por seu arquiinimigo robótico Arnim Zola. Quando analisei o primeiro número, concluí que o Capitão América não é um herói que combina com tramas alienígenas, já que ele é muito pé no chão e usa pouca tecnologia.

Mas aí vieram os números seguintes e devo confessar que estou começando a mudar de ideia. A trama continua maluca (aliás, cada vez mais maluca), mas Remender está tentando fazer algo tão diferente e original dentro do conceito do “estranho em terra estranha” que consegui entrar no ritmo, relaxar e apreciar seu trabalho. Até a arte de John Romita Jr. eu passei a apreciar.

Todos que acompanham as histórias do “bandeiroso” sabem que, há oito anos, ele vinha sendo escrito quase que exclusivamente por Ed Brubaker, em sensacionais arcos seguidos de excepcionais arcos. Foi Brubaker quem matou o Capitão, reviveu Bucky e inventou o Soldado Invernal (no que talvez seja o maior e mais bem feito retcon da editora). Apesar de ter usado vários elementos fantásticos do universo Marvel, como o cubo cósmico, Brubaker brilhou por criar histórias galgadas em espionagem, traição e ação, algo que estava ausente da vida do herói antes disso.

Assim, era compreensível que o próximo escritor do Capitão tentasse seguir por passos bem diferentes. Só não esperava uma alteração radical como Remender propôs e isso acabou me desapontando. Afinal de contas, jogando Steve Rogers para uma dimensão qualquer, Remender não estaria preso à regras e poderia fazer o que quiser.

Mas, como diria o sábio, “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Remender insistiu em sua estrutura  “sem estrutura” e está criando um divertido arco do Capitão que, ainda que saibamos que não vá durar muito nem gerar efeitos duradouros quando ele voltar (ou será que estou enganado e teremos um Capitão “mirim” vindo por aí?), o passeio está sendo divertido.

captain america 2 cover

Quando vimos o Capitão pela última vez, ele havia fugido do complexo de Zola com um bebê em seus braços. O segundo número abre um ano depois, com o garoto já mais crescido (a taxa de crescimento dele é anormal e ele parece um menino de seis anos) e com Rogers mais “adaptado” à sua vida solitária e perdida na Dimensão Z. Assim como fez antes, Remender traça um paralelo com a vida de Rogers durante a Grande Depressão, ainda menino, vivendo com sua mãe. Quando retornamos à Dimensão Z vemos os dois lutando pela vida e sendo capturados por seres estranhos.

No terceiro número, Remender decide variar e abre tratando do passado, mas não do Capitão, mas sim de Zola e seus doentios experimentos. Isso começa a explicar o porquê do maluco cientista ter desenvolvido crianças clonadas e acabamos sendo apresentados à jovem irmã do garoto que está com o Capitão sendo treinada por Zola para ser uma terrível líder assassina. No lado do Capitão, nós o vemos tendo que usar de sua perícia para se firmar perante os seres estranhos que o capturaram no número anterior, da mesma forma que, no passado, vemos o pequeno Steve Rogers lidar com os bullies de sua época. A revelação no final desse número é uma daquelas coisas mais WFT? possíveis, mas que não vou contar aqui para não estragar a surpresa de ninguém.

Captain America 3 cover

Mas foi esse momento WFT? que me tirou do torpor e me fez literalmente entrar na narrativa de Remender. Foi nesse ponto que entendi que ele resolveu desligar o superego dele e passou a escrever o que dá na telha, por mais surreal que seja. Foi nesse momento que passei a gostar da leitura de verdade.

E, quando abri a primeira página do quarto número, toda preta e com uma inscrição branca em letras garrafais dizendo “Onze Anos Depois”, abri um sorriso. Ok, pensei, agora sim eu posso encarar isso aqui como um projeto de longo prazo que realmente pode ter consequências futuras no mínimo interessantes.

O Capitão e seu filho estão caçando e o garoto, que, apesar do tempo passado, não parece ter crescido tanto assim, está virando uma versão de Bucky Barnes: corajoso, destemido e admirador de Rogers. Por seu turno, Rogers tem que viver com o “problema” revelado no final do número anterior e com um passado em que tenta salvar sua mãe da morte furtando medicamentos. É um momento de definição de personalidade que efetivamente criaria o Capitão América que passamos a conhecer. Zola, por sua vez, descobre que o Capitão ainda está vivo e manda Jet Black, a já crescida menina que vimos anteriormente caçar o herói.

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A narrativa flui naturalmente e, apesar das diversas coisas estranhas que vemos a cada página, é possível perceber que Remender tem um plano. Pode ser que essa linha narrativa acabe cansando, mas o autor tem, sem dúvida alguma, terreno muito fértil para trabalhar o Capitão e seu novo parceiro mirim, algo que, da última vez que ele teve um, o mundo estava mergulhado em guerra. Será que o Capitão terá um parceiro? E esse parceiro será seu filho adotivo? Como Sharon Carter encarará isso tudo? O que esses 12 anos fora da Terra farão com o Capitão (sim, provavelmente esse tempo será equivalente a alguns minutos quando ele voltar, mas, mesmo assim, ele terá vivido uma vida fora). Todas essas perguntas que, creio, ficarão sem resposta por um bom tempo ainda, apontam para um excitante mundo novo para o Capitão América.

A arte de Romitinha melhorou bastante, com o sumiço das disparidades de tamanho de determinadas partes do corpo e do escudo do Capitão. Além disso, seus quadros ilustrando o passado de Rogers durante a Grande Depressão são de tirar o chapéu em termos de detalhamento e profundidade. Eu ficaria muito feliz só lendo as aventuras do Capitão ainda menino contra os malvados bullies o tempo todo tamanha é a qualidade da arte.

Remender ainda tem muito para contar e eu estou curioso para saber o que ele fará com o Capitão.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.