Crítica | Capitão América 2: O Soldado Invernal (Com Spoilers)

  • Acessem, aqui, nosso índice do Universo Cinematográfico Marvel.

A essa altura do campeonato, com 18 filmes no bolso (no momento em que a presente crítica é redigida, claro), o Universo Cinematográfico Marvel tem uma solidez invejável, daquelas que transformariam em sucesso absolutamente qualquer coisa que estampe seu logotipo no material publicitário, até mesmo uma obra sobre o Homem-Impossível com marionetes. Mas, não muito tempo atrás, não era assim que a banda tocava e o recém-formado Marvel Studios precisava trafegar com cuidado. Toda a chamada Fase Um foi cuidadosa nas escolhas e composta de quatro filmes para apresentar seus quatro heróis principais – Homem de Ferro, Hulk, Thor e Capitão América – e um “repeteco” diante do sucesso do primeiro Homem de Ferro, com tudo desaguando em Os Vingadores, filme de equipe que fincou a bandeira da Marvel no imaginário popular muito, mas muito além dos leitores de quadrinhos.

A Fase Dois, que acabaria composta por outros seis filmes, quatro deles continuações, começou a sair do molde original, arriscando mais tanto com seus personagens já estabelecidos, vide Homem de Ferro 3, talvez a produção mais incompreendida de todas até agora justamente por tentar algo diferente, como também abrindo suas portas para os inimagináveis Guardiões da Galáxia, personagens cuja primeira geração acompanhei pessoalmente quando jovem e que, se me perguntassem em 2008 se eu achava que um diria seriam adaptados para o cinema, minha resposta viria na forma de uma risada enlouquecida. E é nela que, também, um dos mais bem quistos filmes do universo compartilhado seria lançado, um que merecidamente encabeça diversas listas de melhores do UCM: Capitão América 2: O Soldado Invernal.

Dentre os vários aspectos positivos da obra, não poderia de deixar de começar indicando sua vantagem que já vem de sua largada, ou seja, o material fonte. Se Capitão América: O Primeiro Vingador foi inesperada e incrivelmente fiel à fascinante origem do personagem na Segunda Guerra Mundial, resultando em um filme de época que deslumbra em sua primeira metade, mas corre demais em sua segunda, a continuação, já integralmente passada nos dias atuais em momento cronologicamente posterior à primeira grande ação de Steve Rogers pós-descongelamento em Os Vingadores, foi baseada no que é, sem dúvida alguma, um dos melhores runs modernos de quadrinhos do super-herói deslocado no tempo, ao encargo do brilhante Ed Brubaker. Ao longo de seus oitos anos no comando da publicação solo do Capitão América, entre 2004 e 2012, o autor conseguiu algo reputado impossível: trazer de volta à vida Bucky Barnes, o parceiro adolescente do Capitão na Segunda Guerra. Esse retcon inseriu orgânica e retroativamente na continuidade de todo o Universo Marvel, não só do Capitão, a figura do Soldado Invernal, um Bucky com braço cibernético depois de uma cruel lavagem cerebral pelos soviéticos, como um assassino que era retirado de sua estase sempre que suas habilidades era necessárias. E, mais do que isso, Brubaker trabalhou magistralmente a função de Barnes ainda quando parceiro do Capitão, indo além do sidekick padrão para algo muito mais sinistro, a faceta mortal e impiedosa do lado “bom e ético” do Bandeiroso.

Todo esses aspectos sombrios e essa magnífica forma de trazer um personagem morto há décadas que Brubaker criou nas HQs muito claramente influenciaram a identidade e a atmosfera do filme, que coloca o Capitão América, novamente vivido por Chris Evans, em uma conspiração global que revela que a S.H.I.E.L.D. foi corrompida por dentro pela Hydra basicamente desde sua origem, com o Soldado Invernal funcionando como o agente do caos da entidade inimiga ao longo das décadas em que Steve permaneceu congelado. Perpassando toda a narrativa, o roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely, a mesma dupla do primeiro filme e, com Christopher Yost, também responsável pelo roteiro de Thor: O Mundo Sombrio, bebe doses generosas de inspiração de thrillers políticos e policiais setentistas, notadamente Três Dias do Condor, não coincidentemente, com Robert Redford à frente, ator que foi contratado para viver o “chefe dos vilões” Alexander Pierce, superintendente da S.H.I.E.L.D., mas secretamente leal à Hydra. A ambição dos dois é gigantesca: desconstruir a S.H.I.E.L.D., apresentar o Soldado Invernal (Sebastian Stan) e sua origem, apresentar do zero Sam Wilson (Anthony Mackie, que acerta o tom de seu papel de primeira), o Falcão, lidar com Nick Fury (Samuel L. Jackson, sempre com presença marcante) e tudo isso sem perder de vista o próprio Capitão América em meio a isso tudo, fazendo dupla com a Viúva Negra (Scarlett Johansson finalmente tendo espaço para atuar como a heroína russa), a única pessoa fora Wilson em que passa a confiar depois do atentado a Fury.

Não é tarefa fácil, mas a costura funciona muito bem, especialmente com a reintrodução de Arnim Zola (Toby Jones em uma ponta “digital”) em sua versão cibernética mais próxima dos quadrinhos como a ponte entre a velha e a nova Hydra, mesmo que, para isso, Markus e McFreely tenham que recorrer a um texto razoavelmente expositivo, mas que é suavizado por intermédio de recursos audiovisuais bem inseridos na trama. Em outras palavras, o roteiro resgata o passado do Capitão e o reembala para o século XXI, dando uma roupagem moderna e, mais do que isso, atual à narrativa quando ela aborda a questão da privacidade e da interferência governamental na vida das pessoas, além de não economizar palavras ao criticar as mídias sociais quase como uma forma de as pessoas voluntariamente entregarem seus dados sigilosos ao mundo. Denso, mas não complicado; respeitoso às origens, mas sem depender dela e sombrio, sem ser pesado, Capitão América 2: O Soldado Invernal tem um texto azeitado que adapta magistralmente a obra original de Brubaker sem perder de vista o que foi apresentado em O Primeiro Vingador, além de sacudir o status quo do UCM como um todo.

Mas o roteiro não seria nada se o design de produção não tivesse caprichado aqui como caprichou no primeiro filme do herói. Se lá o desafio era fazer um filme de época de super-heróis, algo naturalmente arriscado, aqui o objetivo é espelhar a pegada série do roteiro sem dissociar tonalmente a obra do UCM. Provavelmente pegando carona na citada inspiração setentista, os figurinos procuram espelhar este período, especialmente no que se refere às roupas civis dos mais diversos personagens, começando por Pierce. O Capitão, por seu turno, ganha uma belíssima roupa tática menos espalhafatosa inspirada também nos quadrinhos (posteriores ao de Brubaker), com até o escudo perdendo as cores, mesmo que, para a frente, ele reverta ao uniforme da Segunda Guerra, em uma bem construída “volta às origens”. O Soldado Invernal, porém, era o grande perigo. Apesar de já em sua origem ele não usar uniformes multicoloridos, considerando que ele é um assassino que trabalha nas sombras, seu braço cibernético poderia destoar, mas a grande verdade é que sua aparência não só é o personagem dos quadrinhos quase que completamente, como ele se funde perfeitamente à linha de toda a película, algo que é ajudado pela sua contraposição a Batroc, mercenário mais, digamos, exótico, que o Capitão enfrenta na ação em alto mar que preludia e dá o pontapé para a trama.

Para a direção, a Marvel claramente arriscou com a contratação dos Irmãos Russo (Anthony e Joe), que nunca antes lidaram com um blockbuster repleto de efeitos especiais e com orçamento avantajado. No entanto, a aposta mais do que se pagou, pois o resultado do trabalho dos dois na cadeira de direção é uma obra cadenciada que usa muito bem seu tempo avantajado, sem deixar que o espectador sinta sua duração. Pulando do prelúdio à la James Bond e passando para o estabelecimento das premissas da projeção ao longo de toda a primeira hora, os Russo convertem o roteiro em um daqueles filmes que mantém o espectador na ponta da cadeira, mesmo considerando que, no mundo de super-heróis, raramente alguém morre. Mas é justamente ao brincar com a morte de ninguém menos do que Nick Fury em uma sequência de perseguição a partir da cabine do motorista que remete a Operação França, outra joia setentista, que eles conseguem levar a plateia do nível “humm, interessante” para “putz, e agora, como vai ser?” com as revelações seguinte relacionadas com o passado promíscuo da S.H.I.EL.D. com a Hydra que sai da voz modulada de Arnim Zola, passando pela magistral sequência de interrogatório do Agente Jasper Sitwell (Maximiliano Hernández) por Steve, Natasha e Sam, este apresentando seu traje de Falcão, sendo encadeadas de forma fluida e lógica dentro da estrutura narrativa da obra.

É apenas em seu clímax, com a pancadaria no Triskelion e especialmente nos aeroporta-aviões que os irmãos diretores se perdem um pouco  em uma decupagem caótica que leva a uma montagem picotada de Jeffrey Ford e Matthew Schmidt que resvala no jeito “michaelbayano” de ser. Mesmo levando esse aspecto em consideração, porém, o filme não perde o ritmo e nem distrai o espectador, pois há uma boa distribuição entre os núcleos de ação, com especial destaque para o embate ferrenho entre Rogers e Barnes, como uma versão alucinada da luta entre Obi-Wan Kenobi e Darth Vader na Estrela da Morte em Uma Nova Esperança.

Os efeitos especias não procuram chamar atenção mais do que deviam, sendo usados de forma parcimoniosa pela maior parte da projeção, seja para lidar com os malabarismos do Capitão e do Soldado Invernal, especialmente os excelentes e clássicos ricochetes do icônico escudo, além do voos do Falcão. Quando eles entram em peso no centro das atenções lá pelo terço final, eles estão à serviço da narrativa, já que os aeroporta-aviões já são chamativos o suficiente, com o CGI apenas tornando-os possíveis.

Chris Evans tem espaço para brilhar. Mas calma, não estou aqui dizendo que ele é um excelente ator, não é isso, pois ele ainda está longe desse nível, apesar de já ter mostrado latitude dramática em obras como Expresso do Amanhã. Meu ponto, aqui, é que ele consegue construir um Steve Rogers muito crível, ainda inocente e fundamentalmente bom como sua criação e seu descongelamento recente exigem. Vemos, ali, o escoteiro americano, o homem perfeito dos anos 40. Mas, na medida em que o filme evolui, seu conceito de certo e errado vai sendo relativizado e seu mundo desmorona junto com a S.H.I.E.L.D., obrigando-o a adaptar-se, a emular, tanto quanto possível, a atitude mais cínica de Natasha Romanoff. Johansson, alías, assim com Evans, ganha bom espaço para manobra e fortalece mais ainda a figura forte da Viúva Negra, em um contraste automaticamente estabelecido já na ação do navio no prelúdio, com seus comentários picantes para um Rogers encabulado e seu estilo de luta violento, diametralmente oposta à do ex-soldado, mostram que ela sempre estará disposta a fazer o que for necessário para alcançar seus objetivos. Em meio a isso, temos Anthony Mackie que literalmente encarna o Falcão desde o primeiro minuto em que o vemos correndo no complexo Smithsonian em Washington D.C. e sendo “ultrapassado” diversas vezes por um Rogers que mais parece o Papa-Léguas. Do outro lado do espectro, as presenças imponentes de Redford e Jackson dispensam maiores comentários, com os dois basicamente vivendo eles mesmos ou amálgamas de papeis que marcaram suas respectivas vidas. Sebastian Stan é que tem pouco espaço aqui, já que ele não aparece tanto e, quando aparece, ou está mascarado ou está saindo no braço com alguém, deixando poucos minutos para ele mostrar a que veio. De toda forma, sua atuação é harmônica com o conjunto da obra.

Capitão América 2: O Soldado Invernal é uma pequena joia no sempre em expansão Universo Cinematográfico Marvel. A abordagem do lado super-heroístico da história chega até mesmo a ser abafado pela ótima trama de espionagem e de traição que refaz o status quo do UCM e estabelece o Capitão América firmemente como um dos pilares desse universo compartilhado em um dos melhores filmes do sub-gênero.

Capitão América 2: O Soldado Invernal (Captain America: The Winter Soldier, EUA – 2014)
Direção: Anthony Russo, Joe Russo (Irmãos Russo)
Roteiro: Christopher Markus, Stephen McFeely
Elenco: Chris Evans, Samuel L. Jackson, Scarlett Johansson, Robert Redford, Sebastian Stan, Anthony Mackie, Cobie Smulders, Frank Grillo, Maximiliano Hernández, Emily VanCamp, Hayley Atwell,  Toby Jones
Duração: 136 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.