Crítica | Capitão América: Guerra Civil (Sem Spoilers)

CivilWar

estrelas 3,5

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2016 é o ano no qual as adaptações audiovisuais de quadrinhos parecem finalmente discutir as consequências dos atos espetaculares de super-heróis, além de colocá-los uns contra os outros. A segunda temporada de Demolidor explorou o radical antagonismo ideológico entre o Homem Sem Medo e o brutal Justiceiro. Batman vs Superman: A Origem da Justiça oferecia um debate sobre a delicadeza da interferência de um ser divino entre a população mundial, ao mesmo tempo em que colocava seus dois protagonistas para lutar. E, agora, Capitão América: Guerra Civil desponta como uma das produções mais maduras e interessantes da Marvel Studios ao apostar em um conflito interno entre seus grandes heróis.

Tomando como inspiração a saga escrita por Mark Millar, a trama segue os eventos de Capitão América: O Soldado InvernalVingadores: Era de Ultron, com a equipe de Steve Rogers (Chris Evans) sendo repreendida após uma missão terminar com a morte acidental de civis. Isso é o estopim para que o General Ross (William Hurt) apresente ao Capitão e todos os demais Vingadores o Tratado de Sokovia, que colocaria todos eles sob vigilância e registro do governo, tendo uma limitada liberdade para agir. A decisão provoca uma rixa no grupo, especialmente na figura de Tony Stark (Robert Downey Jr), que lidera a defesa pelo Tratado enquanto Rogers a recusa, ainda mais por seguir em sua busca pelo amigo Bucky (Sebastian Stan).

Ainda que possa facilmente ser sugerido graças à quantidade absurda de personagens e narrativas, este ainda é um filme do Capitão América, servindo mais como continuação de seu segundo filme solo do que a reunião dos Vingadores no ano passado. E isso é uma faceta considerável do roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely, já que ainda precisam lidar com Homem de Ferro, Viúva Negra, Falcão, Máquina de Combate, Visão, Feiticeira Escarlate, Gavião Arqueiro, Homem-Formiga e ainda nos apresentar ao Pantera Negra e a aguardada nova encarnação do Homem-Aranha. Manter o foco no Capitão certamente lhe garante mais foco e desenvolvimento, mas é evidente que muitos dos coadjuvantes acabam realmente como… coadjuvantes, por assim dizer.

A crescente inimizade entre Steve e Stark é bem construída, rendendo intensas performances de ambos os intérpretes (Downey Jr, em especial, surge muito mais nervoso e intenso do que suas encarnações anteriores) e um tempo necessário para explorar os pontos de vista de cada um, de maneira que nenhum dos personagens surja maniqueísta ou caricato: entendemos bem a culpa que Stark sente por ter involutariamente provocado a morte de civis inocentes durante o salvamento em Sokovia, e compreendemos com clareza o medo de Steve em virar uma marionete do governo e ser submetido a missões que contrariem seus ideais. Como embate ideológico, o roteiro estabelece de forma concreta e eficiente em seu maduro primeiro ato.

É uma construção tão bem realizada que chega a ser triste testemunhar a falta de coragem dos roteiristas em levar esse conflito além. Não entraremos em spoilers aqui, mas basta dizer que poderia ter sido uma jornada muito mais envolvente e surpreendente caso a história tomasse rumos mais sombrios (ainda que a discussão política seja consideravelmente mais forte aqui do que em qualquer outro longa do estúdio), acabando por se render a circunstâncias externas do misterioso vilão Zemo, vivido com sutileza pelo ótimo Daniel Brühl. É um antagonista que revela muito mais densidade e peso do que a maioria dos vilões descartáveis da Marvel Studios, mas há de se estranhar a complexidade de seu plano mirabolante, assim como os métodos tomados para executá-lo. Em outras palavras, Capitão vs Stark seguraria o filme perfeitamente.

Sobre os demais personagens do longa, uma das introduções mais aguardadas era a de Chadwick Boseman como Pantera Negra, o alterego do rei africano T’Challa. O ator entrega uma performance forte e com um sotaque carregado que jamais soa artificial, e as motivações para a entrada de seu personagem são muito bem justificadas, em decorrência de um evento trágico diretamente ligado ao Soldado Invernal. O figurino desenhado por Judianna Makovsky também agrada, principalmente por criar uma figura marcante e que consegue evitar comparações com o Batman (algo que seria muito fácil graças à semelhança visual entre os dois), além de Boseman trazer uma movimentação animalesca e digna de um animal selvagem durante suas cenas de perseguição e combate.

E, claro, temos o Cabeça-de-Teia. Tom Holland faz uma estreia carismática e divertida na pele de Peter Parker e sua identidade aracnídea, acertando principalmente pelo comportamento mais jovem e o humor absolutamente certeiro durante sua grande cena de ação. O problema é que o Aranha realmente surge deslocado do restante da trama, tendo uma introdução abrupta e que surge meramente como um fan service, já que a presença do personagem não necessariamente muda os rumos do conflito entre os dois protagonistas. É uma participação maravilhosa de se ver? Com certeza. Precisava mesmo estar aqui? Não.

E então chegamos a um assunto polêmico: a direção de Anthony e Joe Russo. Tendo surpreendido em O Soldado Invernal com sua decupagem mais agressiva, inquieta e selvagem para as cenas de ação, os irmãos adotam a mesma diegese para os muitos confrontos físicos que vemos durante o longa. De cara, o grande confronto entre as equipes de Capitão América e Homem de Ferro que se desenrola em um aeroporto alemão é uma sequência absolutamente espetacular e que se diverte ao abraçar completamente o espírito dos quadrinhos enquanto explora os poderes de cada super-herói ali, em especial a habilidade secreta que o Homem-Formiga (um excelente alívio cômico, por sinal) utiliza de forma magistral. Cada confronto diferente ganha espaço ali, ainda que alguns efeitos visuais surjam estranhamente artificiais (principalmente a interação entre Downey Jr e seu corpo de armadura claramente digital ou o próprio Homem-Aranha CGI).

Já nas outras sequências, o estilo nervoso e quase epiléptico dos Russos assume completamente. A primeira cena de ação do filme, na qual Capitão e outros vingadores vão atrás do criminoso Ossos Cruzados (Frank Grillo) rende uma sequência de cortes incompreensíveis, câmera incessante e um efeito visual estranho graças a um ajuste no obturador, tornando a pancadaria que funciona tão bem com Jason Bourne em uma cópia apressada. Ao menos a perseguição de carros em um túnel ou a luta climática entre Capitão e Homem de Ferro conseguem ser mais envolventes, já que há uma valorização do plano ligeiramente mais longo; e até mesmo de um slow motion em uma tomada icônica.

Por fim, Guerra Civil é um filme padrão da Marvel Studios que oferece uma boa profundidade dramática em sua maior parte, assim como diverte em explorar o vasto universo de super-heróis e suas habilidades em cenas memoráveis. Só é uma pena que falte coragem aos realizadores para realmente oferecer algo além da zona de segurança do gênero e de fato sacudir suas estruturas. É um entretenimento genuíno, mas seguro demais.

Obs: A Disney Brasil deveria demitir o responsável pela tradução em suas legendas, já que trazer “tá tranquilo, tá favorável” em um diálogo sério é algo completamente vergonhoso.

Capitão América: Guerra Civil (Captain America: Civil War, EUA – 2016)

Direção: Anthony e Joe Russo
Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely
Elenco: Chris Evans, Robert Downey Jr, Scarlett Johansson, Sebastian Stan, Don Cheadle, Anthony Mackie, Elizabeth Olsen, Paul Bettany, Chadwick Boseman, Jeremy Renner, Paul Rudd, Tom Holland, William Hurt, Daniel Brühl, Marisa Tomei, Martin Freeman, Emily VanCamp, Frank Grillo
Duração: 147 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.