Crítica | Capitão América: O Prego de Ferro (Nova Marvel)

estrelas 2,5

Obs: Há spoilers apenas dos arcos anteriores. 

Apenas para situar o leitor, o arco da revista Capitão América da Nova Marvel intitulado O Prego de Ferro é composto por um prelúdio focado em Azeviche (Jet Black no original) e cinco partes do arco propriamente dito. Ele imediatamente sucede o arco Bazuca que, por sua vez, sucede o maxi-arco duplo Perdido na Dimensão Z, todos escritos por Rick Remender em seu plano de longo prazo para o Capitão América.

Para que ninguém fique perdido, deixe-me recapitular (e clique nos títulos dos arcos para ler as respectivas críticas):

Perdido na Dimensão Z: O Capitão América é sequestrado por Arnim Zola, que o leva até a dimensão do título para experiências genéticas que originam dois semi-clones do Capitão com Zola, um menino e uma menina. O Capitão consegue libertar o menino ainda bebê que ele batiza de Ian. Dez anos então se passam com Rogers vivendo nessa dimensão, cuidando e treinando do menino como seu próprio filho. Ao final do arco, o Capitão consegue voltar à nossa dimensão, mas, no processo, Ian morre (ou, ao menos, o Capitão acha que morre), Sharon Carter morre salvando-o e Azeviche, a clone feminina, treinada esse tempo todo por Zola, se volta contra seu pai, ficando então ao lado do Capitão, que descobre que apenas algumas horas se passaram na Terra.

Bazuca: Perdido no tempo duas vezes em sua vida e tendo que se readaptar à vida “comum”, o Capitão América se sente perdido. Ele não tem mais sua noiva Sharon Carter e seu filho Ian. Sua única ligação com esse passado recente é Azeviche, que também tem dificuldades para se adaptar a esse mundo. Também somos apresentados a um novo vilão, o Prego de Ferro, um chinês que tem um plano para derrubar o capitalismo em uma história ainda não completamente conectada com o arco principal. Enquanto isso, no país fictício do Nrosvequistão, Bazuca aparece e, completamente insano, começa a destruir tudo. O Capitão e o Falcão partem para lá e, depois de uma luta incessante em que Rogers só não mata Bazuca pela intervenção de Wilson, o vilão é derrotado e levado para uma base secreta da S.H.I.E.L.D. no Grand Canyon.  Ao final, Bazuca explode, destruindo a base da S.H.I.E.L.D., quase matando Nick Fury Jr. e Sam Wilson e libertando uma arma secreta.

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capitao america o prego de ferro encadernado capaApenas com os breves resumos acima, não fica muito fácil entender o plano mestre de Remender, mas suas peças se encaixam razoavelmente bem logo no início efetivo do arco O Prego de Ferro que, porém, é antecedido por um prelúdio muito interessante focado exclusivamente em Azeviche (uma tradução correta, porém inevitavelmente estranha de Jet Black). Nele, vemos o quanto a moça está deslocada em Nova York. Tudo é ruim, degradante, nojento e sem sentido para ela, que não consegue entender esse aglomerado humano auto-destrutivo.

Correndo pelos telhados do prédio da cidade, ela observa e, com seus poderes, sente tudo ao seu redor com riqueza de detalhes. Quem é ela naquele mundo? Alguém do lado de Steve Rogers ou uma legítima Zola? Essas dúvidas e contradições são belamente trabalhadas por um texto inteligente de Remender que faz uso, quase que exclusivamente, de pensamentos da personagem. E a arte de Pascal Alixe é exuberante em seus detalhes, criando uma variação do uniforme de Azeviche que funciona melhor esteticamente do que o original por Carlos Pacheco no arco anterior, além de uma detalhada retratação de Nova York castigada pelo inverno. As dúvidas morais da personagem são ilustradas de maneira pouco intrusiva, com uma fluidez que realmente ajuda na história que Remender quer contar.

Findo esse prelúdio que, na verdade, conecta-se muito mais com o arco seguinte do que com O Prego de Ferro, Remender entra em sua história propriamente dita. O vilão que nomeia o arco e que já havia sido introduzido em Bazuca, desaponta por sua unidimensionalidade. Nada mais é do que um ex-agente da S.H.I.E.L.D. que ganhou estranhíssimos poderes (ele se torna uma espécie de vilão meio dragão, meio homem egresso de Power Rangers ou algo do gênero) e que age muito mais por vingança do que por um sentimento anti-capitalista que verdadeiramente nutra, apesar de seu discurso chavão cansativo.

Além disso, Remender revela a tal “arma secreta” que a explosão de Bazuca libertou. É um antigo projeto da S.H.I.E.L.D. criado para neutralizar o Capitão América e outros super-heróis “fabricados” em laboratório: o Dr. Bolha Mental. Sim, Bolha Mental (Mindbubble), com direito a chapéu coco, bengala, fraque e bolhas de controle mental que saem de sua testa… Tive sérias dificuldades para aceitar esse vilão como arma secreta e como um real perigo. Afinal, quantas vezes já não vimos linhas narrativas que envolvem controle mental e quantas vezes o próprio Capitão América provou ser mais forte que isso? Claro que o Dr. Bolha Mental faz parte integral do plano do Prego de Ferro, mas a combinação dos dois simplesmente não faz “clique”, não encaixa perfeitamente e não soa como realmente interessante.

O que, porém, funciona bem – e, em última análise é esse o objetivo primordial da história – é a revelação da S.H.I.E.L.D. como uma entidade escusa, que não presta contas a ninguém, nem mesmo a seus agentes mais antigos. O Capitão América é pego de surpresa não só pela existência do Dr. Bolha Mental, como, também, por um aeroporta-aviões imenso secreto da S.H.I.E.L.D. batizado de Gungnir. Ele é roubado pelos vilões para incriminar a agência para-militar e também o Capitão em um estratagema para demantelá-la que ecoa um pouco do que vimos no Universo Cinematográfico Marvel, notadamente em Capitão América: O Soldado Invernal. Não é uma linha narrativa também muito original (longe disso!), mas pelo menos é possível sentir a gravidade das consequências que se espalham não só pela agência como também para o mundo, ainda que o “segredo” de Gungnir seja um tanto quanto patético.

No final, o Capitão América se sacrifica pelo bem de todos e acaba fisicamente alterado, algo que vem gerando consequências até hoje para seu legado, mas que apenas revelarei quando for tratar do próximo volume – e último – de Remender antes da publicação ser zerada novamente e rebatizada como All-New Captain America. Se o que vemos ao final de O Prego de Ferro é duradouro, pouco importa; o que importa é que Remender, nesse arco, deu voltas e voltas para chegar a esse ponto e, quando chegou, não deu o peso dramático devido, esvaziando qualquer choque por parte do leitor. Não é uma história ruim, longe disso, apenas apressada e melodramática e cujas alterações no Capitão não decorrem logicamente, parecendo algo mais aleatório do que qualquer outra coisa.

A arte de Nick Klein é majestosa, com imagens grandiosas, apesar de poucas splash pages. Ele prefere trabalhar o impacto de seus desenhos dentro de meias-páginas e consegue transmitir muito bem a história de Remender, mesmo ficando refém de dois vilões que não funcionam de verdade e de uma Azeviche que, nesse arco, fica completamente perdida e acaba infelizmente sendo mal utilizada.

O Prego de Ferro, pela importância que tem na história do Capitão América, simplesmente precisava ser melhor. Remender faz idas e vindas desconexas, desenvolve vilões bobos e, no final, inventa uma modificação grave em Steve Rogers que, se pararmos para pensar, não se encaixa em sua  estrutura narrativa. Apesar do bom prelúdio como um todo e da bela arte de Klein no arco em si, faltou imponência nessa história do Bandeiroso.

Capitão América (2012-2014): vol. 4: O Prego de Ferro (Captain America: vol. 4 – The Iron Nail, 2014)
Contendo: Captain America (2012 – 2014) # 16 a 21 (EUA) e as histórias do Capitão América publicadas no mix Capitão América & Gavião Arqueiro #15 a 19 (Brasil)
Roteiro: Rick Remender
Arte: Pascal Alixe (#16), Nick Klein (#17 a 21)
Cores: Edgar Delgado, Antonio Fabela, Israel Silva (#16), Dean White (#17 a 21)
Letras: VC’s Joe Caramagna
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Data de publicação (original): fevereiro a junho de 2014
Editora (no Brasil): Panini Comics
Data de publicação (no Brasil): dezembro de 2014 a abril de 2015
Páginas: 115

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.