Crítica | Capitão América: O Primeiro Vingador

estrelas 3,5

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Em sua escalada para chegar a Os Vingadores, o mais bem sucedido filme de 2012 e uma das maiores bilheteria da história, a Marvel Studios não errou uma vez sequer. Começou com o excelente Homem de Ferro e com o ótimo O Incrível Hulk, em 2008, ainda sem tentar realmente amarrar todo o seu universo fora umas pequenas cenas aqui e ali e as famosas cenas teaser nos respectivos finais. Mais confiante com seus produtos, a Marvel continuou então em 2010 com Homem de Ferro 2, que, apesar de ser seu pior filme, não é uma falha completa, funcionando quase que como um trailer para o evento principal da Fase Um. Com as críticas negativas, mas ainda com sucesso financeiro nas mãos, a Marvel arriscou em 2011 lançando Thor, apresentando um herói baseado em mágica  (em contraposição à pegada mais “real” dos filmes anteriores) e, novamente, acertou na mosca, até mesmo reduzindo a ligação com Os Vingadores para não cair no mesmo erro do filme anterior.

Em seguida ao primeiro Thor, veio Capitão América, o herói que fecha a “Santíssima Trindade Vingadora”, por assim dizer, deixando o caminho pronto para o sucesso que foi o filme do super-grupo. O crossover cinematográfico patrocinado pela Marvel é absolutamente sem precedentes e, sim, muito bem sucedido, com uma linha de filmes que, se não são homogeneamente brilhantes, ao menos cumprem sua função honrosamente.

O Capitão América sempre foi meu herói favorito quando era pequeno e mesmo até hoje em dia. Lia tudo que saía com ele e adorava sua origem na Segunda Guerra Mundial, o que dava um charme todo especial à mitologia. Parei de ler por muitos anos, voltando somente quando dei de cara com um volumão com os primeiros 25 números da série do herói escrita por Ed Brubaker, que estava recebendo grandes críticas do meio especializado e que, aliás, é a base para Capitão América 2: O Soldado Invernal. E fui fisgado novamente. Brubaker atualizou o Capitão sem apagar seu passado. Ao contrário, ele o utilizou ao máximo, manobrando-o para magistralmente justificar a volta de um dos personagens Marvel que mais tempo ficou morto.

Mas eu divago.

Quando soube que a Marvel havia decidido fazer um filme de origem do Capitão América sem inventar, por exemplo, que ele foi criado durante a Guerra do Afeganistão, ou algo do gênero, vibrei muito. Era tudo que um fã dos quadrinhos poderia querer: o Capitão América em um filme de grande orçamento (e não aquelas porcarias feitas para TV da década de 80 e 90 que tenho arrepios só de lembrar) e seguindo a história clássica de origem.

Assim, depois de um excelente início nos dias de hoje em que um Capitão América congelado é achado no extremo norte do mundo, o filme imediatamente corta para o franzino Steve Rogers (Chris Evans, o Tocha Humana do Quarteto Fantástico nos fracos filmes da Fox pré-versão de 2015, um verdadeiro pavor) tentando alistar-se para lutar na Segunda Guerra, em uma ambientação de época corajosa, cara e de se tirar o chapéu. Seu físico patético e seu histórico de doenças o impedem de ser aceito, mas ele não desiste. Seu melhor amigo, James Buchanan Barnes (Sebastian Stan), acabou de se alistar e está partindo para a guerra e, quando eles estão comemorando, o Dr. Abraham Erskine (Stanley Tucci, em um pequeno, mas muito engajante papel) entreouve o discurso de Rogers sobre sua vontade de ser um soldado e resolve ajudá-lo. A partir daí, vemos a criação do primeiro – e único – supersoldado, seu uso pelo governo americano para fazer propaganda e vender bônus de guerra e, em uma excelente e heroica sequência de resgate, o nascimento efetivo do herói que conhecemos.

Comandando o Capitão, temos o Coronel Chester Phillips (Tommy Lee Jones, responsável por ótimos alívios cômicos) e a musa do herói, a agente Peggy Carter (Hayley Atwell que, depois, viria a protagonizar a série solo de sua personagem). Do lado de lá, os bandidos são o Dr. Arnim Zola (Toby Jones) e, claro, Johann Schimidt, o temível Caveira Vermelha (Hugo Weaving). Para quem receava uma atuação cheia de canastrice de Evans, podem ficar tranquilos: ele está muito bem e extremamente crível como o Capitão América. A canastrice ficou mesmo ao encargo de Weaving, mas que funciona considerando o vilão, que é inevitavelmente caricato.

Joe Johnston, o diretor que fez o péssimo (não totalmente por culpa dele, devo confessar) O Lobisomem, conseguiu extrair de todos os atores e do roteiro partes iguais de charme e aventura no estilo pulp (como a série Indiana Jones) para todos os gostos, mas sem esquecer dos fãs ardorosos da Marvel. Para todos os não conhecedores da mitologia do Capitão América, Johnston fez um filme de fácil digestão, quase uma Sessão da Tarde mais requintada e com bons efeitos especiais. É um típico feel good movie, que só extrai sorrisos. Para os fãs, Johnston largou, aqui e ali, elementos importantes de todo o histórico Marvel, como um aceno a um famoso herói que também lutou na Segunda Guerra ao lado do Capitão dos quadrinhos (pisque e você perde) e uma divertida brincadeira com o visual um tanto ridículo do Dr. Arnim Zola dos quadrinhos (tem que realmente conhecer o personagem para pegar essa).

Diferente de Homem de Ferro 2, que perdeu muito da personalidade por ter elementos demais do então vindouro Os Vingadores, quase sendo uma introdução ao filme de 2012, Capitão América mantém sua estrutura e integridade, com aceitável desenvolvimento de personagens, ainda que, no melhor estilo pulp, eles sejam rasos como o proverbial pires. Mas Johnston usou de toda sua arte – que deve ter aprendido quando fez o excelente Rocketeer, de 1991 – para também agradar a Marvel e ligar o filme à mitologia dos Vingadores de maneira orgânica e natural. Temos, por exemplo, o pai de Tony Stark, Howard Stark (infelizmente Dominic Cooper e não o excelente John Slattery, como apareceu em Homem de Ferro 2), um bom cientista, mas que é mostrado como um fanfarrão e, claro, o MacGuffin do dia, o Cubo Cósmico, arma que o Caveira Vermelha acha no começo da fita e que deixa muito claro que vem dos cofres de Odin, pai de Thor, e que chega a aparecer no teaser pós-créditos do filme do deus nórdico, além de ser peça-chave no filme do super-grupo como o receptáculo da primeira Joia do Infinito do Universo Cinematográfico Marvel.

Por incrível que pareça e contra todas as probabilidades, Capitão América é um ótimo filme, muito parecido em estrutura com Thor tendo, inclusive, um dos defeitos deste último: uma passagem de tempo pobre, corrida e muito mal feita. Em determinado ponto da narrativa, quando o Capitão está a frente do Comando Selvagem (outro aceno à mitologia da Marvel; reparem na perfeição que é a caracterização de “Dum Dum” Dugan, por Neal McDonough), a elipse temporal dá a impressão de que tudo ocorre no intervalo de uma semana ou algo do gênero. O quase romance de Rogers com Peggy Carter fica só no “quase” mesmo e poderia ter sido mais bem explorado se a passagem de tempo da obra tivesse sido expandida para o intervalo de alguns anos, o que seria bem fácil de fazer com uma montagem mais inteligente e menos burocrática, que tenta correr para o final. O mesmo poderia ter sido feito pela amizade de Rogers com Bucky, aliás. Tudo isso contribuiria para dar um estofo sentimental brilhante à obra que talvez a colocasse no mesmo patamar de Homem de Ferro.

Mas Johnston errou feio aí e desenvolveu rápido demais todos esses momentos, trabalhando em cima de um roteiro equivocado que ele não soube aprimorar com sua direção. O “recorta e cola” dos eficientes roteiros da Marvel, assim, repetiu o grande erro de Thor e furtou do Capitão a chance de ficar no panteão dos grandes filmes de super herói. É ainda um ótimo filme, não se enganem, especialmente se levarmos em conta sua primeira metade, que é irretocável, mas ele poderia ter sido bem mais do que a soma de sua partes, contando, ainda, com um clímax simplista demais. Seu finalzinho, com o uso forte de um deus ex machina, cria um verdadeiro momento “como assim?” e detrai do grande embate entre o Capitão América e o Caveira Vermelha, encerrando a primeira aventura do Bandeiroso com uma nota negativa.

No entanto, não há dúvidas que os pontos positivos sobrepujam os negativos e Capitão América é mais uma vitória da Marvel. Um belo filme de época de origem que derrapa da metade em diante, mas que encanta do começo ao fim.

  • Crítica originalmente publicada em 24 de julho de 2014. Atualizada para republicação.

Capitão América: O Primeiro Vingador (Captain America: The First Avenger, EUA – 2011)
Direção: John Johnston
Roteiro: Christopher Markus, Stephen McFeely
Elenco: Chris Evans, Hayley Atwell, Sebastian Stan, Tommy Lee Jones, Hugo Weaving, Dominic Cooper, Richard Armitage, Stanley Tucci, Samuel L. Jackson, Toby Jones, Bruno Ricci, Neal McDonough, Derek Luke, Kenneth Choi
Duração: 124 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.