Crítica | Capitão América/Pantera Negra: Bandeiras de Nossos Pais

Se pararmos para pensar, o Capitão América tem uma das histórias de origem mais fascinantes de todo os super-heróis já criados. Um jovem franzino que faria de tudo para lutar por seu país na Segunda Guerra Mundial, mas que é constantemente rejeitado por suas inadequações físicas, aceita ser cobaia de um experimento pioneiro que o transforma em um super-soldado e, ato contínuo, símbolo da luta pela liberdade e justiça, extrapolando até mesmo a designação contida em seu nome super-heroístico. Infelizmente, porém, histórias do personagem durante a guerra fora da Era de Ouro são raras demais, uma verdadeira oportunidade perdida da Marvel Comics que muito bem poderia explorar esse veio.

E é por isso que obras modernas como Bandeiras de Nossos Pais (tradução direta de Flags of Our Fathers, já que não houve publicação no Brasil) são tão fascinantes. Especialmente se levarmos em consideração que a minissérie consegue, ao mesmo tempo, ser o primeiro encontro do Bandeiroso com o Comando Selvagem, liderado pelo Nick Fury original ainda com os dois olhos e, principalmente, claro, com o Pantera Negra, mas não T’Challa, claro, e sim seu avô, o Rei Azzuri de Wakanda. Reginald Hudlin, que escrevera a série solo do Pantera de 2005 a 2009, volta para o selo Marvel Knights – que permite mais violência e uma certa flexibilidade na cronologia dos personagens – para um trabalho em apenas quatro edições que encapsulam muito bem a simbologia dos dois super-heróis, com um Capitão América ainda “verde” em sua missão e o Pantera já maduro e veterano em suas funções de pai, monarca e símbolo de todo um país.

O roteiro de Hudlin não complica e parte da velha e batida premissa sempre que Wakanda é de alguma forma envolvida: os nazistas, liderados pelo Barão Strucker e pelo Caveira Vermelha, querem o vibranium do país e montam uma invasão. O Comando Selvagem, juntamente com o Capitão, correm atrás para impedir sem saber da capacidade tecnológica wakandana e da completa tranquilidade com que o Pantera Negra, as Dora Milaje e demais soldados têm em usar as medidas mais letais possíveis contra os chucrutes, com direito até mesmo a cabeças cortadas e empaladas na fronteira como sinal de “perigo, aqui matamos nazistas”. Com esse artifício básico, Hudlin parte para a inevitável luta entre os heróis que, ato contínuo, abre espaço para a amizade entre os dois e, claro, sua união contra o inimigo em comum que ganha reforços do Grande Mestre, Mulher Guerreira e do bizarro canibal sem braço Homem Tigre (ou Armless Tiger Man), vilão cuja existência havia apagado completamente da minha mente até sua entrada mais do que sanguinolenta e completamente gratuita na história.

Capitão vs Pantera observados pelo Comando Selvagem e, mais tarde, Capitão ao lado do Pantera e das Dora Milaje.

Aliás, falando nisso, o sangue jorra generosamente na minissérie. São cabeças explodidas, braços arrancados, cérebros escorrendo por crânios arrebentados, lanças atravessando tórax e assim por diante em um uso de violência gráfica que chega perigosamente na fronteira do ridículo e do exagerado demais. Hudlin parece escrever com elevado grau de sadismo sem freios e arrisca por tudo a perder. O que mantém a história nos trilhos são os subtextos críticos à política de neutralidade de Wakanda que, no frigir dos ovos, vê o mundo autodestruir-se em uma guerra genocida sem sequer pensar em interferir ou pelo menos fornecer tecnologia aos Aliados e, também, ao racismo em geral, aqui representado pela narração de Gabe Jones, o soldado negro trompetista do Comando Selvagem, que, com razão, vê em Wakanda um paraíso de inclusão e tolerância na Terra. Gabe, vale dizer, ganha um bem-vindo destaque na narrativa, relacionando-se tanto com o Capitão quanto com o Pantera, demonstrando veneração aos dois símbolos vivos, valentia e uma retitude moral que é muito bem trabalhada ainda que, por vezes, Hudlin exagere no didatismo.

Além disso, o roteirista esmera-se em traçar paralelos entre o significado do Pantera Negra para Wakanda e o que o Capitão América, ainda construindo sua carreira e tentando entender quem realmente é além de ser um soldado particularmente forte e hábil que se veste de forma espalhafatosa, pode um dia significar para seu país. É muito bonito e até mesmo emocionante ver Azzuri afirmar para o Capitão que a luta dele será muito maior e mais relevante depois que a guerra acabar, como líder de um país ainda marcado pela segregação.

Outro aspecto positivo do roteiro é a forma natural e lógica que Hudlin encontra para sincronizar sua minissérie com elementos importantes do Universo Marvel como um todo. O autor planta retroativamente as raízes para o trabalho magnífico de Ed Brubaker a frente do Capitão América entre 2005 e 2011 (um pequeno retcon bem feito dentro de um enorme retcon ainda mais bem feito) e, de quebra, consegue estabelecer a linhagem monárquica de Azzuri a T’Challa, algo nunca trabalhado antes nos quadrinhos do Pantera.

Mulher Guerreira como Dr. Fantástico e o bizarro Homem Tigre ameaçando T’Chaka com a unha do pé.

Da mesma maneira, a arte de Denys Cowan é respeitosa às respectivas mitologias. Primeiro, ele se esmera em desenhar o Sentinela da Liberdade com seu uniforme original, com o escudo pontudo e a máscara separada do uniforme. Depois, apesar de ele não se arriscar muito com alterações grandes no uniforme do Pantera Negra de duas gerações atrás, ele estabelece uma imponência impressionante a Azzuri que, por muitas vezes, consegue até mesmo abafar a presença sempre marcante do Capitão. Além disso, é muito feliz a escolha de apenas armas brancas não convencionais para o monarca, como lanças e, principalmente, uma dupla mortal de foices que transforma o Pantera em uma imparável máquina de matar nazistas. A forma como Cowan lida com as sequências de pancadaria, livre dos freios das HQs normais, mais preocupadas com o nível gráfico da violência, é comendável também, com uma energia de dar gosto e movimentos corporais dos heróis e das Dora Milaje que são bem cadenciados e explorados. E ele não perde a oportunidade de fazer citações cinematográficas, como uma desde já clássica a Dr. Fantástico. Seus traços abrutalhados são realçados pela arte final de Klaus Janson nas duas primeiras edições, que emprestam uma selvageria bastante particular à narrativa. Nos dois números seguintes, o trabalho de Tom Palmer na tinta (acompanhado de Sandu Florea na última edição) acaba suavizando um pouco os traços de Cowan, o que retira um pouco esse lado mais cru da arte como um todo.

Outro ponto positivo na arte são as cores de Peter Pantazis que estabelece uma paleta sombria, mas não escura a toda a minissérie, emulando o sentimento de todos diante da violência da guerra. Essa escolha mais muda para as cores, portanto, acaba realçando a presença uniformizada de Steve Rogers que se sobressai tremendamente em todos as páginas em que aparece, como um raio de esperança diante de tanta mortandade. É particularmente interessante como sua primeira aparição, em breve ação na Europa, ganha uma iluminação quase divina, com direito a contra-luz cinematográfico que resvala no exagero, mas que passa sua mensagem, especialmente quando aprendemos, logo em seguida, que aquela é a primeira aparição do Bandeiroso para o Comando Selvagem e uma de suas primeiras missões como o Capitão América. Em oposição a isso, mas mantendo a simbologia de esperança, temos o preto do Pantera Negra, algo raro nos quadrinhos do herói em seu começo, com muito uso do azul representando o preto em razão das impressões antigas. Aqui, muito ao contrário, Pantazis faz excelente uso do preto efetivo, sombreando-o com o cinza, mas fugindo completamente do azul, o que contrasta fortemente com a combinação mais esdrúxula do Capitão, quase que nos dizendo que o Pantera é a esperança temperada com a experiência enquanto que o Capitão ainda é – e nunca deixaria de ser, na verdade – aquela esperança mais inocente e idealista.

Bandeiras de Nossos Pais é uma baita minissérie que encapsula de maneira reverente dois dos maiores símbolos super-heroísticos da Marvel Comics em uma época sombria para o mundo. Hudlin e Cowan fazem desse seu pequeno e razoavelmente desconhecido trabalho um libelo antibelicista que, porém, não fogem das raízes de uma história em quadrinhos com todos os seus supervilões e exageros uniformizados. Seria pedir demais um dia ver a obra transposta para as telonas?

Capitão América/Pantera Negra: Bandeiras de Nossos Pais (Captain America/Black Panther: Flags of Our Fathers, EUA – 2010)
Contendo: Captain America/Black Panther: Flags of Our Fathers #1 a 4
Roteiro: Reginald Hudlin
Arte: Denys Cowan
Arte-final: Klaus Janson (#1 e #2), Tom Palmer (#3 e #4), Sandu Florea (#4)
Cores: Peter Pantazis
Letras: Joe Sabino
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: junho a setembro de 2010
Editora no Brasil: não publicado até a data de publicação da presente crítica
Páginas: 103 (encadernado americano)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.