Crítica | Capitão América: Perdido na Dimensão Z – Vols. 1 e 2

estrelas 4

Em andamento agora mesmo aqui no Brasil pela Panini, Perdido na Dimensão Z (Castaway in Dimension Z) é o primeiro arco narrativo do Capitão América dentro do projeto Marvel NOW!, o “semi-reboot” da Marvel que já está em sua segunda fase (All-New Marvel NOW) nos EUA. Escrito por Rick Remender e desenhado por John Romita, Jr., o Romitinha, o arco, que se desenvolveu das edições #1 a #10 do herói, coloca o bandeiroso literalmente na Dimensão Z, depois que ele cai em uma armadilha de seu arqui-inimigo Arnim Zola.

Como assim o Capitão perdido na “Dimensão Z”? – foi a primeira pergunta que fiz no segundo em que abri a primeira página da aventura.

cap america 1 im desAfinal, estava acostumado com a fantástica série de anos escrita por Ed Brubaker, mais galgada na realidade, mais humana, menos aventuresca, mais detetivesca. Exatamente o que o Capitão América precisava há muito, muito tempo. Portanto, foi com extrema má vontade que comecei a ler uma linha narrativa que colocava um dos heróis mais “terrenos” da Marvel em uma dimensão maluca, lutando contra monstros malucos e defendendo outra raça de monstros maluca.

Não demorou muito, porém, e caiu a ficha. A escolha de Remender foi absolutamente perfeita em termos narrativos. Afinal de contas, ele chegou a uma conclusão bastante óbvia: como seria literalmente impossível ele superar Brubaker, então era melhor ele fazer algo que não pudesse ser comparado com o trabalho anterior. E, com base nisso, não é que a coisa acabou funcionando?

A temática “estranho em uma terra estranha” é costumeiramente interessante e Remender sabe como se aproveitar disso, transformando a estranheza em bizarrice total e jogando o Capitão América bem no meio da confusão sem dar tempo de ninguém respirar. É como aprender a nadar sendo jogado diretamente ao mar. E essa velocidade de narrativa, que não perde muito tempo com explicações e simplesmente transporta Steve Rogers de um metrô diretamente para o laboratório de Zola na Dimensão Z, onde Zola imediatamente faz uma experiência no Capitão que leva o herói a lutar e salvar um menino criado em laboratório.

Até aí, nada de mais. A grande jogada é acelerar o tempo. Remender faz Rogers viver mais de uma década no tempo da Dimensão Z e, com isso, o herói tem que sobreviver com o que ele tem, ao mesmo tempo em que cuida e treina de Ian, o nome que ele dá ao menino que ele cria como se seu filho fosse, mesmo sabendo que ele é cria de Zola. Além disso, em tocantes flashbacks para a juventude de Rogers, a narrativa vai aos poucos contando sobre o pai abusivo do Capitão e as escolhas que ele teve que fazer durante a recessão nos EUA para ajudar sua adorada mãe. É uma pegada que é rara nas histórias do Capitão e Remender faz tudo funcionar sem falhas.

cap america 2Na medida em que a história na Dimensão Z se aprofunda, Rogers e Ian vão tendo que lidar com uma tribo de monstros que os adotam como parte do grupo e com a crescente “infecção” de Steve Rogers como resultado do experimento de Zola logo no primeiro número. Não vou contar nada para não dar spoilers, mas o fato é que vemos Rogers lutar contra a insanidade e contra o controle de Zola. Além disso, Jet Black, irmã de Ian, mas que foi criada por Zola, se transforma na vilã da segunda parte da história, mostrando-se alguém que consegue lutar no mesmo nível que o Capitão.

É uma história de sacrifícios, escolhas e, de certa forma, uma lição de vida. Remender tira do Capitão tudo que ele tem, dá um conjunto de elementos novos, especialmente seu filho adotivo e vemos como ele passa a lidar com tudo isso. E as provações por que passa o Capitão só tornam mais salientes seus intocados valores construídos com uma – não, duas! – vidas de defesa do que é moralmente irretocável. Na Dimensão Z, vemos o lado psicológico de Steve Rogers de uma forma que há muito estava ausente dos quadrinhos e é esse equilíbrio que Remender traz de forma tão magistral e que talvez nem Brubaker tenha conseguido trazer.

A resolução dos arcos (na verdade, é apenas um longo arco de 10 números) não é das melhores, com as dúvidas morais dando espaço para a ação espetacular, mas, em última análise, vazia. No entanto, não deixa de ser poderoso o que o roteirista faz com Ian e Jet Black, além de Sharon Carter, a eterna namoradinha de Rogers, ainda que, de certa forma, a história se alongue demais.

John Romita, Jr. sempre teve uma arte interessante, mas, aqui, é um tanto perturbador ver o trabalho dele sofrer gigantescos problemas de desproporção. O escudo do Capitão, às vezes, se parece com um frisbee, o mesmo valendo para a relação de altura entre Rogers e Ian e, depois, entre Rogers e Jet Black. Por outro lado, seu traço conjurando os monstros e a estranheza da Dimensão Z funcionam muito bem, assim como seu trabalho com os flashbacks.

O resultado final, apesar da bizarrice inicial, é eficiente e duradouro para a história do Capitão. Aquilo que ele vive na Dimensão Z não só é retratado nos títulos onde o Capitão aparece (como em Os Vingadores), mas, também, há um legado interessante que Remender explora na Terra e que poderá também explorar um dia novamente na Dimensão Z.

Capitão América: Perdido na Dimensão Z – Vols. 1 e 2 (Capitain America: Castaway in Dimension Z – Vols. 1 and 2)
Roteiro: Rick Remender
Arte: John Romita, Jr.
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Editora (no Brasil): Panini Comics
Lançamento (nos EUA): novembro de 2012 a agosto de 2013
Lançamento (no Brasil): em andamento (mix Capitão América & Gavião Arqueiro)
Páginas: 138 (vol. 1) e 117 (vol. 2)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.