Crítica | Capitão Fantástico

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estrelas 2,5

Já não é de hoje que vemos uma grande quantidade de grupos em sua luta constante contra o “sistema”, execrando qualquer tipo de comportamento ligado ao capitalismo “opressor” dos Estados Unidos. Comida não orgânica, roupas de marca, consumismo são todos vistos como inimigos dos mais radicais que se encaixam nesse grupo. O segundo longa-metragem de Matt Ross, ator que caminhara recentemente para a direção de filmes, aborda justamente essa questão. Capitão Fantástico, porém, é falho em nos trazer sua real mensagem, soando como uma obra que tenta agradar os dois lados da moeda, mas sem, de fato, manter uma firme posição.

A trama gira em torno de Ben (Viggo Mortensen) e seus filhos, que vivem na floresta, aprendendo a sobreviver por conta própria, comendo alimentos naturais e enaltecendo obras de autores principalmente socialistas. Ben fugira do “sistema” com sua esposa e decidira criar seus filhos em um ambiente natural, ensinando-os por conta própria, sem a necessidade de uma escola. Quando recebem notícia da morte da mãe, porém, as crianças convencem o pai a ir até seu funeral, por mais que seu sogro o houvesse alertado que, se o fizesse, chamaria a polícia para prendê-lo.

Capitão Fantástico começa muito bem, o comportamento dessas crianças-prodígio é um dos grandes atrativos do longa e provocam risadas certeiras no espectador, visto que há um certo tom irônico na maneira como Ross lida com a ideologia perpetrada por Ben. Esse sarcasmo, todavia, cai por terra conforme avançamos na projeção e ficamos sem saber se a intenção do diretor era satirizar esse tipo de comportamento rebelde ou incentivá-lo. Ele não nos passa uma mensagem clara e, no fim, prefere chegar a um meio termo que parece ter sido feito na medida para pessoas que se dizem fora do sistema, mas fazem parte da classe alta e compram comida orgânica no supermercado (geralmente os mais caros da região) – o Zona Sul de quem mora no Rio de Janeiro.

Felizmente, o trabalho de Mortensen, como de costume, não deixa nem um pouco a desejar. Há uma sinceridade em sua atuação, uma entrega que nos faz enxerga-lo unicamente como o personagem que retrata e não o ator que há por trás. Sentimos como se estivéssemos mesmo diante de um homem que levara seus filhos para a floresta, o que torna toda a narrativa mais crível e nos aproxima de seu carismático protagonista. Como um road-movie sobre a superação da morte de um ente querido, a obra consegue, portanto, se sustentar. Nos traz cenas que nos divertem pelo comportamento inusitado dos personagens centrais.

Há, porém, uma dose de irrealidade gigantesca, especialmente no que concerne o conhecimento obtido por esses jovens. Em nenhum universo conseguiríamos acreditar que uma menina de oito anos saberia dizer as coisas que diz, por mais que passe dias e dias mergulhada em livros. Os esforços de Mortensen caem por terra com essas cenas exageradas do roteiro, que atuam contra nossa imersão no longa, demonstrando uma posição bastante ingênua de Ross – se ele houvesse ao menos tomado um partido de forma mais clara, a questão poderia ter sido contornada.

Toda essa peculiaridade acaba nos lembrando muito dos filmes de Wes Anderson e o que falta aqui é a profundidade dos roteiros desse realizador e, é claro, seu visual, que garante um tom maior de fábula ou realidade paralela. Matt até tenta emular Anderson com alguns dos figurinos empregados em sua obra, mas cai por terra na falta de identidade visual que evidentemente percorre todo seu filme. Sua tentativa de trazer algo diferente acaba, no fim, nos entregando uma irrealidade que tenta ser real, ao invés de abraçar plenamente o seu lado fantástico.

Capitão Fantástico não faz jus ao seu nome. Ele tenta nos trazer uma narrativa realista, mas que traz tanta inverossimilhança que nos distancia do real objetivo da obra, que acabamos ficando sem saber qual é. Matt Ross consegue nos trazer alguns momentos bastante divertidos, que utilizam a peculiaridade das crianças para provocar risadas na audiência, sua falta de coragem em defender uma opinião, contudo, faz o filme permanecer apenas na superfície, tentando ser algo muito maior do que efetivamente é. Não fosse o trabalho de Viggo Mortensen, a obra estaria fadada ao fracasso.

Capitão Fantástico (Captain Fantastic) – EUA, 2016
Direção:
 Matt Ross
Roteiro: Matt Ross
Elenco: Viggo Mortensen, George MacKay, Samantha Isler, Annalise Basso, Nicholas Hamilton, Shree Crooks, Charlie Shotwell, Trin Miller, Kathryn Hahn, Frank Langella, Erin Moriarty
Duração: 118 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.