Crítica | Capitão Phillips

estrelas 5

Deve ser especialmente complexo fazer um filme baseado em uma autobiografia. Afinal de contas, muito do suspense desaparece logo de início, por sabermos que o protagonista escreveu o livro, como é o caso do Capitão Richard Phillips, co-autor de Dever de Capitão (A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy SEALS, and Dangerous Days at Sea) sobre a tomada de seu navio cargueiro por piratas somalis. A situação fica ainda mais complicada para o roteirista e diretor quando os eventos aconteceram em 2009 e foram alvo da cobertura intensa da imprensa mundial. A matéria está fresca na mente dos espectadores.

Essas dificuldades são, talvez, as principais razões porque o filme de Paul Greengrass é um triunfo em especial.

Tendo dirigido outra obra com fonte e temática semelhantes – Voo United 93 – Greengrass consegue também reunir sua qualidade de diretor de ação que fez toda a diferença em A Supremacia Bourne e O Ultimato Bourne para envolver o espectador de tal maneira que os 134 minutos de projeção passam em um piscar de olhos. Mas é claro que ele jamais poderia ter feito o que fez em Capitão Phillips não fosse a impressionante atuação de Tom Hanks, que volta a comprovar que é um dos melhores atores vivos.

Abordando paralelamente os preparativos do capitão do título (Tom Hanks) e dos piratas somalis para zarpar, vemos a convergência da ação acontecer já com menos de 30 minutos de filme. Nesse tempo, Greengrass estabelece a personalidade detalhista do capitão e o respeito que sua tripulação tem por ele ao mesmo tempo e que trabalha a construção dos piratas, o porquê de eles fazerem o que fazem e como é a distribuição de poder entre eles. Entendemos as motivações dos dois lados e o roteiro de Billy Ray (Jogos Vorazes, Plano de Voo) tenta não julgar as ações de ninguém, apenas expor.

Quando finalmente os dois lados se unem, em espetacular sequência de pirataria moderna que esclarece como uma pequena lancha caindo aos pedaços pode abordar um gigantesco navio cargueiro em pleno mar aberto, Greengrass aperta na tensão. Usando desde planos abertos durante o ataque até close-ups nas cenas mais tensas, o diretor e Barry Ackroyd, o diretor de fotografia responsável também por Voo United 93 e Guerra ao Terror, mantêm uma câmera nervosa, observadora, que muitas vezes olha para onde os personagens olham também, dando-nos pouco aviso do que veremos em seguida. Com isso, eles efetivamente conseguem contrapor o capitão e sua tripulação imediata (os demais se escondem) e os quatro piratas que tomam o navio e criam um jogo emocionante de frieza e desespero, alívio e dor, razão e emoção.

Ao usar câmeras que se aproximam dos atores, o diretor não dá espaço para o espectador, que se vê jogado em pleno calor do momento, sem saber muito bem o que fazer exatamente como o capitão Phillips deve ter se sentido. Além disso, ao imprimir um tom documental à projeção, Greengrass empresta enorme grau de veracidade ao que vemos. Não fosse a presença de Tom Hanks ali, um desavisado poderia achar que está realmente vendo um documentário ou, até mesmo, em alguns trechos, uma notícia de telejornal.

Outro grande acerto do diretor foi escolher um filme fortemente granulado, novamente para dar impressão de gravação com câmera amadora, mas sem o usual “tremelique” que costumamos ver em outras fitas que tentam passar a mesma sensação. A câmera é tensa, mas não sacode como as ondas do mar que cercam o paquidérmico navio.

E, no meio disso tudo, vemos Tom Hanks passar de um capitão rotineiramente preocupado para um homem que faz de tudo para salvar sua tripulação e que, depois, tem que fazer de tudo para sobreviver. Mas suas ações não são “maiores que a vida” ou típicas de um filme de ação, mesmo de algumas biografias que volta e meia vemos por aí. O lado humano, pé no chão (acho que “no convés” seria mais apropriado) do capitão Phillips transparece facilmente pelas ações de Hanks. Ele é seguro de si, mas seu medo está poucos milímetros abaixo de sua pele. Ele age muito mais com palavras do que com o corpo, tentando manter os piratas razoavelmente dentro de controle.

Na medida em que a tensão aumenta, Hanks vai se despindo da frieza forçada pela situação e se entrega quase que totalmente ao desespero e sua atuação no dénouement é assombrosa, angustiante de verdade. Novamente, se não fosse ele ali na tela, um ator tão conhecido, um desavisado poderia facilmente acreditar que está vendo um documentário.

Mas o interessante é que sua “oposição”, o pirata Muse, vivido por Barkhad Abdi, ele próprio um somali que fugiu com sua família para o Iêmen e, depois, para os EUA, é igualmente fantástico. Logo tomando o posto de “capitão”, Muse, líder do grupo, passa a ter que lidar tanto com seus prisioneiros gringos como com seu colega Bilal (Barkhad Abdirahman), extremamente tenso e violento. Esse frágil equilíbrio de forças e toda a situação que se estabelece extraem de Abdi uma atuação excepcional e crível. Na verdade, ele faz o único pirata que não é unidimensional, criando camadas e camadas de complexidade para seu Muse.

E não vejam essa “unidimensionalidade” como um ponto negativo em Capitão Phillips. Não é. O foco, como o título deixa mais do que claro, é o capitão. É o show de Tom Hanks. Greengrass não se interessa em dividir a atenção do público entre muitos personagens com profundidade. É só mesmo Phillips de um lado e Muse de outro. Nem mesmo quando os soldados de elite americanos entram na narrativa, o foco muda. Eles são também rasos, verdadeiros peões dentro do esquema maior do diretor.

E esse enquadramento funciona muito bem, pois o investimento emocional do público no destino de Phillips é a pedra de toque da fita e o que faz a narrativa ser impulsionada. Se nosso engajamento com o personagem não funcionar logo de início, o filme falhará. E Greengrass emprega todos os seus esforços de contador de história para que isso aconteça, usando não só a câmera da maneira como descrevi acima, mas trabalhando junto com Christopher Rouse (companheiro de Greengrass nos dois Bourne, Voo United 93 e Zona Verde) para fazer uma montagem elétrica, mas nunca confusa, com cortes bruscos, mas claros e que só nos desnorteiam quando efetivamente têm esse objetivo (especialmente nas cenas finais no barco de escape).

Mas seria leviano de minha parte não destacar o assustador trabalho de Henry Jackman na trilha sonora. Compositor ainda de pouca relevância, tendo trabalhado nos recentes G.I. Joe: Retaliação, É o Fim e no vindouro Capitão América 2, Jackman executa uma obra que, inserida em momentos cirúrgicos da fita, cria nervosismo, tensão e muito desespero. É um dos melhores usos de música em filme esse ano, lado a lado a Gravidade, de Cuarón.

Todas essas peças perfeitamente encaixadas na estrutura narrativa que Greengrass meticulosamente constrói, arremessa-nos sem dó na tensão por que passa o capitão Phillips. Sofremos o que ele sofre por pouco mais de duas horas e essa é a prova cabal da qualidade do trabalho da produção. É a realidade sendo mais real do que a ficção.

Capitão Phillips (Captain Phillips, EUA, 2013)
Direção: Paul Greengrass
Roteiro: Billy Ray, Richard Phillips, Stephan Talty (co-autores da biografia)
Elenco: Tom Hanks, Barkhad Abdi, Barkhad Abdirahman, Faysal Ahmed, Mahat M. Ali, Michael Chernus, Catherine Keener, David Warshofsky, Corey Johnson
Duração: 134 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.