Crítica | Cara Gente Branca

estrelas 5,0

Em uma época em que pessoas como Donald Trump e Jair Bolsonaro são eleitos, é imprescindível que mantenhamos a luta por direitos iguais, independente da etnia, sexualidade e gênero em mente. Dizer que o preconceito não existe é ingenuidade ou mentira deslavada e, claro, parte daqueles que não sofrem com isso todos os dias de sua vida. Dentro dessa temática, infelizmente, há muitos que dizem que o racismo não mais existe, quando, na realidade, ele está presente tão forte quanto fora há anos atrás – a diferença é que, agora, ele está um pouco mais escondido, ainda que, muitas vezes, dê as caras com todas as forças. O longa-metragem de estreia de Justin Simien, Cara Gente Branca, mostra justamente isso, utilizando o microcosmo de uma instituição de ensino como objeto de estudo.

A trama acompanha quatro estudantes negros da Universidade de Winchester: Sam White (Tessa Thompson) com o programa Dear White People, que dá nome ao filme, que busca mostrar o racismo do dia-a-dia, Troy (Brandon P Bell), filho do reitor, com aspirações políticas e presidente de uma das casas da instituição, Lionel (Tyler James Williams), que aspira ser repórter e constantemente sofre preconceito por ser gay e Coco (Teyonah Parris), que possui seu próprio show no Youtube e sofre com evidentes problemas de auto-aceitação. Assistimos esses jovens lidando com as demonstrações de racismo na universidade, enquanto uma guerra racial está prestes a eclodir.

Justin Simien, que também assina o roteiro, insere altas doses de ironia desde os minutos iniciais da projeção, tanto pelas narrações em off de Sam, através de seu programa, quanto pelas pinceladas de música clássica, que evidenciam a hipocrisia que toma conta daquele lugar. Vemos um ambiente claramente hostil para os estudantes negros, que são forçados a agirem com receio em relação a seu meio, funcionando como um perfeito retrato de nossa sociedade, que, sim, trata as “minorias” de forma diferente e não como uma pessoa normal. Desde os diálogos com racismo velado, até as claras demonstrações claras de preconceito constroem o peso, cada vez maior, da narrativa, de tal forma que nos sentimos tão sufocados quanto esses estudantes que só querem ter seus direitos garantidos.

Aos poucos passamos a criar um forte sentimento de repulsa em relação às diferentes atitudes que presenciamos em Cara Gente Branca, culminando no verdadeiro show de horrores da festa de Halloween, que exemplifica perfeitamente tudo o que há de errado com esse mundo que vivemos, quando se trata dessa temática. Através da figura do diretor da instituição enxergamos como tais problemas são construídos, muitas vezes, pelas figuras de autoridade, pelo legado deixado por eles e a sua visão racista, que é herdada pelos filhos e netos. O preconceito não é exclusivo a alguns indivíduos, está presente em toda a sociedade e o mais triste é constatar que poucos enxergam isso, preferindo viver em suas cápsulas de privilégio, esquecendo das dores alheias, já que elas não os afetam diretamente. Doce ilusão, claro, pois um fato leva ao outro e, no fim, todos somos prejudicados quando uma pessoa sequer não é tratada com o respeito que todos merecemos.

O mais impressionante dessa construção de Simien, é como ela consegue oscilar entre os diferentes personagens, trabalhando cada um deles com cuidado, a tal ponto que ninguém soa esquecido pelo roteiro. Claro que a montagem de Phillip J. Bartell deve ser louvada, sabendo transitar de maneira fluida entre uma pessoa e outra, sem criar rupturas na narrativa. De Sam, até Troy, todos eles passam por arcos pessoais bastante claros, que, por sua vez, representam algumas das situações que pessoas negras são forçadas a viver durante a vida. O mais triste é enxergar isso em pleno século XXI, nos mostrando que a realidade que produzira O Nascimento de Uma Nação, não está tão longe assim da nossa. Dito isso, as diferentes pessoas retratadas aqui parecem de verdade, como se verdadeiramente existissem em nosso mundo e, em muitos níveis, elas realmente existem, já que os próprios atores que encarnam esses personagens passam ou já passaram por situações similares, pelo simples fato de serem negros.

Acima de tudo, portanto, Cara Gente Branca é um filme que busca conscientizar, quebrar o já dito casulo em que vivemos a fim de que possamos enxergar as diversas formas de preconceito que estragam e definem a nossa personalidade. O melhor, porém, é que o diretor o faz de forma divertida, ironizando, além da já falada trilha, com cartelas, que tomam conta da imagem ocasionalmente, mantendo o tom da obra em uma constante passiva-agressividade, como se simbolizasse a própria ocultação do racismo em nossa sociedade. Além disso, é preciso ressaltar como o texto problematiza diversas questões tão presentes nos discursos atuais, como a estupidez denominada “racismo reverso”, que obviamente não existe.

Ao término da projeção fica fácil enxergar como Cara Gente Branca é um longa-metragem sobre pessoas negras feito para pessoas brancas. Uma obra que busca evidenciar a hipocrisia de nosso mundo, enquanto desconstrói discursos como os de que o racismo não mais existe. Estamos falando de um problema tão atual quanto fora há décadas atrás e, infelizmente, ainda estamos anos-luz da igualdade tão almejada por alguns e o problema está justamente nisso: somente alguns buscam a igualdade, enquanto a maioria permanece em um poço de ilusão, no qual se consideram acima dos outros, quando, na verdade, enquanto todos os humanos não forem tratados igualmente, estaremos todos perdidos no mesmo abismo.

Cara Gente Branca (Dear White People) — EUA, 2014
Direção:
Justin Simien
Roteiro: Justin Simien
Elenco: Tyler James Williams, Tessa Thompson, Kyle Gallner, Teyonah Parris, Brandon P Bell, Brittany Curran, Justin Dobies, Marque Richardson
Duração: 108 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.