Crítica | Cara-Unicórnio – Vol.1

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Cara-Unicórnio. Só o nome do personagem e um primeiro olhar para a sua aparência chamam a atenção pelo ridículo e pela hilária representação dos estereótipos e arquétipos dos super-heróis que esta criaturinha chifruda representa nos quadrinhos de Adri A.. O personagem ganhou sua primeira publicação impressa em 2018, um projeto independente que começou com captação de recursos via plataforma de financiamento coletivo.

A proposta do autor aqui é brincar com os clichês, exposições e escolhas visuais e narrativas das histórias em quadrinhos, cabendo diferentes homenagens, paródias e ironias ao longo do texto, tanto na abordagem para o Cara-Unicórnio, quanto para a representação de vilões e pessoas em torno dele. O que é bom nesse tipo de narrativa é que o autor não nega a influência que tem, mas não faz da homenagem o seu único trunfo. Na verdade, os personagens que aparecem nesse Universo do Cara-Unicórnio são tão malucos, escanteados, maltratados, segregados e maravilhosos e fortes na alma e na mente quanto David, o equino fantástico que dá título à obra. Aqui, conhecemos  Tia Elle (que se parece com a Laerte), Timothy (o garotinho de A Garra do Caranguejo, a quem todos chamam de “Lagostim”, porque ele tem ectrodactilia) e Diego, o punk com cara de mau que não tem problemas em andar com sua charmosa bolsinha rosa na rua.

Este primeiro volume do Cara-Unicórnio conta com 4 histórias, sendo as duas primeiras previamente publicadas na internet; a terceira, inédita; e a quarta, feita para a campanha de divulgação do projeto, no Catarse. O volume ainda nos traz extras e uma mini-história sobre o trabalho diário do Cara-Unicórnio, que é empacotador de compras em um Supermercado. Em Como Virar Um Cara Unicórnio temos uma sensacional história de origem, com as mais simpáticas referências ao processo de transformação de Peter Parker em Homem-Aranha, algo que vai render ótimas e oportunas piadas sobre “soltar” algum tipo de poder por um lugar bem específico do corpo.

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Apogeu, o herói favorito do Cara-Unicórnio, e líder dos Esplendentes.

A narrativa tem um teor familiar afável, que junto à comédia e à forma descontraída de expressão dos personagens, nos encanta desde os primeiros quadros. Tia Elle recebe um excelente tratamento, mesmo sendo coadjuvante, e terá um papel bastante emotivo na terceira história, que mostra a primeira grande decepção do Cara-Unicórnio e o quanto sua confiança na Tia é recompensada com as palavras cetras, na hora certa.

Em O Caso da Bolsinha (que tem cameo de outra personagem do autor, a fantástica JØ Sem Alma, na cafeteria onde David e Elle se encontram; e de Mira — que aparecia na trama seguinte –, na multidão observando a luta do CaUn com a velhinha) existem desconstruções, como a da velhinha indefesa e do jovem mal-encarado; e as situações mais absurdas que um super-herói deve enfrentar. A espera pelo primeiro caso, as incertezas e a vontade de ajudar do Cara-Unicórnio encontram, nesse Universo, uma dose imensa de realidade, embora estejamos falando de um cenário onde super-heróis existem, são conhecidos do grande público e estão, neste momento, passando por uma imensa provação, frente a um impiedoso assassino. Daí passamos para Coisas Certas a Dizer, a história inédita que nos apresenta o grupo de heróis Esplendentes (uma versão da Liga da Justiça, cujo principal herói é o Apogeu, inspirado no Superman) e a procura do Cara-Unicórnio para encontrar o seu “lugar no mundo”.

Essa busca, feita por um herói incomum, é de um humanismo surpreendente, com uma toada mais profunda e medida certa de “elementos sombrios”, mesclados à comicidade, além de coisas da vida cotidiana de qualquer pessoa. Essa história mostra que até na sátira e em outras abordagens feitas nos quadrinhos podem surgir discussões importantes para nós, para o nosso vizinho, comunidade e sociedade. A temática LGBTQ+, como assunto transversal, os laços familiares, a solidão e a sensação de abandono ou de não se encaixar em lugar nenhum (mesmo supostamente tendo tudo o que deveria ter para se encaixar) são alguns dos focos desse capítulo, deixando-nos ao mesmo tempo de coração partido e emocionados pelo lugar onde chegam, ao final da história. A arte de Adri A. também nos ajuda nessa conexão, pois o artista dá a devida atenção às expressões, dentro da perspectiva cômica ou mesmo “fofa” que seus personagens e cenário exigem.

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Cupido explica a grande e temível ameaça ao Dia dos Namorados.

Para finalizar, a hilária e aterradora Jantar Romântico, que traz “o temível CHUPA-AMOR” como vilão. Eu não pude me segurar com esse nome, e ele me lembrou as alcunhas toscas e geniais de vilões de Astro City, com uma pegada bem “a nossa cara de Brasil”. O desenho do Chupa-Amor e o desenvolvimento da trama são imensamente divertidos.

Este primeiro volume das aventuras do Cara-Unicórnio é um presente e tanto para o leitor. Eu fico muito feliz de ter apoiado o projeto no financiamento coletivo, porque o resultado do trabalho de Adri A. é imbatível. Cara-Unicórnio é um quadrinho que fala de diversidade de uma forma divertida e brinca com inúmeros clichês do gênero super-heróis. A história termina e a vontade de ler mais coisa do “Xifrocórnico” (coitado…!) nos ataca imediatamente.

Cara-Unicórnio – Vol.1 (Brasil, 2018)
Roteiro: Adri A.
Arte: Adri A.
Publicação independente (via apoio pelo Catarse)
152 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.