Crítica | “Caracal” – Disclosure

estrelas 3

Quando viu o sucesso mundial em 2012, com o lançamento de Latch, hit que dominou o mundo sob a voz de Sam Smith, o duo inglês Disclosure já era visto como uma grande promessa da música eletrônica. Claramente influenciados por artistas consagrados do house como Daft Punk (quem esses caras não influenciaram?) e Justice, a dupla de irmãos multi-instrumentistas Guy e Howard Lawrence – de apenas 24 e 21 anos, respectivamente – se tornou referência na cena eletrônica atual. Seu álbum de estreia, Settle, foi aclamado pela crítica e rendeu aos rapazes uma indicação ao Grammy de Melhor Álbum de Dance/Eletrônica em 2014.

Depois de um debut tão bem recebido, é natural que a famosa “maldição do segundo cd” comece a assombrar qualquer artista. Com o Disclosure não foi diferente. Settle nos apresentou canções incríveis como o já mencionado hit global Latch com Sam Smith, When a Fire Starts to Burn, F for You e White Noise, com outro maravilhoso duo eletrônico inglês, AlunaGeorge.

A primeira coisa que percebemos ao ouvir Caracal – e uma das qualidades mais louváveis do duo – é a habilidade impressionante do Disclosure de ser comercial na medida certa, sem perder as raízes garage que os fizeram tão famosos e respeitados. Nocturnal, a faixa de título apropriado que abre esse segundo trabalho, conta com a voz de ninguém mais ninguém menos que The Weeknd, e é espetacular: obscura, rocker e apoteótica. A escolha do cantor americano para os vocais dessa canção prova que Guy e Howard sabem muito bem o que estão fazendo e, logo no início, já entregam um dos melhores momentos do álbum.

Omen surge como uma suposta continuação de Latch. Além de contar mais uma vez com Sam Smith nos vocais, podemos perceber uma certa conexão entre as letras das duas músicas: Latch, “o primeiro capítulo”, era sobre o romance, a paixão, o amor despertado entre duas pessoas; Omen fala da perda, do medo, da sensação de que algo deu/está para dar errado. A parceria do Disclosure com Sam Smith se prova versátil – a voz de Sam está excelente e inconfundível, como sempre –, e dá certo mais uma vez, fazendo com que Omen seja uma das canções mais gostosas, sexys e proveitosas do disco.

Magnets, com sua batida sensual, percussão curiosa e flerte com o tropical house, se destaca não só por ser diferente de todo o resto do álbum, mas também por nos apresentar uma Lorde mais erótica, adulta e firme. A canção hipnotiza e é cheia de uma energia dominante, jamais passiva ou inerte. Os versos que Lorde entoa com tanta sensualidade na voz, como “Eu adoro essa linguagem secreta que falamos/Use-a comigo, vamos nos entregar ao ponto em que não há mais volta” ou “Garotas bonitas não sabem as coisas que eu sei/Vem comigo que eu te mostro coisas que ela não mostrará” causam um efeito imediato no ouvinte, como se a cantora fosse uma dominatrix dando ordens. Magnets é, sem sombra de dúvida, um dos melhores e mais interessantes momentos de Caracal.

Os cantores Miguel e Nao também são responsáveis pela sensualidade de Caracal, porém, com uma roupagem diferente da de Lorde: Good Intentions e Superego são mais anestesiadas e românticas. Holding On e Hourglass são algumas das canções que parecem ter sido feitas com um único pensamento na cabeça: as pistas de dança. A voz do cantor de jazz Gregory Porter – que ganhou um Grammy em 2014 – casa muito bem a batida urgente de Holding On, enquanto a potência da voz da cantora LION BABE, cheia de soul, vibra tanto quanto as batidas vigorosas e convidativas de Hourglass.

É interessante perceber como as melhores canções desse segundo álbum estão atreladas à vozes famosas e não à desconhecidas, e como isso cria um constrate com a identidade do Disclosure: Caracal é mais mainstream que Settle, porém, esse novo trabalho não perde a essência undergound mesmo em contato com vozes conhecidas mundialmente, como de Sam Smith, The Weeknd, Lorde e Miguel. É um equilíbrio interessante e um ponto curioso do talento da dupla.

Entretanto, também temos momentos mais desinteressantes, como Willing & Able, Jaded, Echoes e Masterpiece, que acabam, infelizmente,  atrapalhando a experiência como um todo. São canções que parecem preguiçosas, que estão ali apenas para ocupar espaço ou servir de intermédio entre uma e outra. Os vocais de Jaded podem chegar até a irritar os mais impacientes…

A impressão que Caracal deixa é de um álbum meio a meio: temos canções maravilhosas e bastante inspiradas, e outras que não demonstram o potencial criativo e polido do Disclosure, tão evidente em Settle. A verdade é que por pouco o segundo trabalho do duo não desanda e falha… Aqui, o que é bom é muito bom (as músicas elogiadas nesta crítica vão render muitos e muitos repeats na sua playlist), mas o que é fraco é fraco demais. Além de ser inferior ao trabalho de estreia, o novo álbum da dupla tinha o potencial e a missão de fazer história… Não aconteceu.

Aumenta! Magnets
Diminui! Masterpiece
Canção favorita: Omen

Caracal
Artista:
Disclosure
País: Inglaterra
Lançamento: 25 de setembro de 2015
Gravadora: PMR, Island
Estilo:
House, Deep House, UK Garage House, Synthpop

ANDRÉ DE OLIVEIRA . . . . Estudante de Letras e aspirante a jornalista. Ainda se impressiona com o fato de curtir, na mesma intensidade, do cult ao pop; do clássico ao contemporâneo; do canônico ao best-seller. Usa camisa do Arctic Monkeys — sua banda favorita —, mas nada impede que esteja tocando Nicki Minaj no fone de ouvido. Termina de ler Harry Potter e começa um Dostoévski. Assiste Psicose e depois dá play em Transformers. Não tente entender. @andreoliveeira